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Entre panos e afetos: a arte de nenecar em Moçambique – Por Kenia Cuna

Por Kenia Cuna

A prática de trazer bebês envoltos ao corpo está presente em diferentes culturas do mundo, com forte presença em alguns países asiáticos, da América Latina e no continente africano. Há variações na forma de amarrar o bebê, bem como no tipo de tecido que é utilizado.

Em Moçambique, essa prática se chama nenecar, que em Xichangana se diz kubeleka. São utilizados panos coloridos, localmente denominados capulanas. Preponderam duas formas de amarrar o bebê: nas costas ou na parte da frente do corpo. Tomba-se o corpo para frente, coloca-se o bebê nas costas, joga-se a capulana sobre o bebê, de forma que uma parte passe por baixo de um dos braços da pessoa que vai nenecar e a outra por cima do ombro do outro braço, a fim de que as duas pontas do pano se encontrem na frente do corpo e um nó bem forte possa ser dado. O imprescindível é que o bebê fique extremamente seguro e não escorregue por baixo da capulana. Ele pode ser mantido preso atrás, nas costas, ou passado para a parte da frente do corpo. Essas posições variam, sobretudo, conforme a idade do bebê, a forma como gosta de ficar, o momento de alimentá-lo, as distâncias e a necessidade de carregar coisas durante o deslocamento. Deixa-se o bebê atrás, sobretudo quando tarefas domésticas estão sendo realizadas, principalmente cozinhar, lavar e passar roupa, pois é mais seguro.

Sem dúvidas, para um bebê, o lugar mais seguro e confortável do mundo é a neneca. A sensação de nenecar uma criança é única para ela e para quem a neneca. Aqueles dois corpos de tamanhos tão diferentes, que passam a estar unidos devido à amarração da capulana, tornam-se um abrigo mútuo. Basta o bebê estar inquieto e começar a chorar sem motivo aparente, que alguém dirá, sobretudo uma pessoa mais velha: “coloca na neneca que cala”. Não passará muito tempo para que aquela pessoa pequena se acalme ou durma.

Neneca é substantivo, mas também é verbo: nenecar. Neneca é afeto e demonstra o lugar onde as crianças se encontram nas sociedades africanas. Independentemente do status social ou das condições socioeconômicas, um bebê é muito desejado, deve ser cuidado e protegido até que consiga ter algum grau de independência, como andar, comunicar-se através da fala e brincar com as outras crianças. Enquanto isso não ocorre, ele deve ser priorizado. A neneca possibilita que a criança tenha contato corporal, conexão com as pessoas e com o ambiente externo. Quando a criança é acostumada desde o primeiro mês de vida a estar na neneca, nota-se como ela se sente amparada e conectada com as pessoas que cuidam dela.

Aprende-se a nenecar desde cedo, sobretudo nas zonas rurais, onde as crianças a partir dos cinco anos de idade auxiliam as mais velhas a cuidarem dos bebês da família, que podem ser irmãos ou primos-irmãos. É comum, ao andar pelos distritos rurais de Moçambique, ver crianças pequenas nenecando bebês. Esse é um aspecto presente na organização social em Moçambique: a senioridade relativa, partilhada conforme as diferentes categorias de idade e fases da vida. Na infância, desde a mais tenra idade, as crianças aprendem a cuidar umas das outras, a serem manos e manas, termos usados para nomear alguém mais velho, que tem mais responsabilidade e em quem se pode confiar.

Para aquelas crianças mais privilegiadas, que não possuem a responsabilidade de cuidar dos mais novos, aprende-se a nenecar de forma lúdica, com bonecas que são amarradas nas costas durante os momentos de brincadeira e diversão — fato mais comum nas cidades.

O ato de nenecar não é exclusivamente feminino. Quando crianças, os meninos nenecam os bebês, mas depois que se tornam rapazes e homens deixam de fazê-lo. Entretanto, é mais comum ver meninos nenecando bebês na zona rural, onde as tarefas são partilhadas em função das diferentes necessidades, sobretudo coletar água, lenha, acender o fogo para cozinhar, enquanto os pais geralmente estão envolvidos em atividades voltadas para a subsistência.

Para as mães, nenecar é a manutenção do vínculo com o seu bebê, mas também liberdade e sobrevivência. Ter a criança segura e amparada, mas ao mesmo tempo ter as mãos livres para fazer tarefas, dá a sensação de continuidade da vida e das outras partes de si, que não deixaram de existir porque se tornou mãe.

O bebê fica na neneca de sua mãe de forma mais exclusiva durante os primeiros meses de vida, quando a única alimentação que recebe advém do leite materno. Ou ainda, quando a mãe não tem com quem deixá-lo, porque os manos estão na escola e não há outra pessoa com quem possa partilhar esse cuidado. Assim, é muito comum ver mulheres na cidade de Maputo realizando atividades ligadas ao comércio informal com os seus bebês na neneca.

Nos mercados, nas feiras e nas ruas da cidade, mulheres que produzem o seu sustento com a venda de bolinhos, verduras e legumes, roupas usadas, trazem envoltos em seus corpos os seus bebês adormecidos ou de olhinhos atentos a tudo que se passa. É de veras impressionante ver uma mulher equilibrar uma bacia de frutas na cabeça, ter um bebê nas costas ou à frente sugando o seu alimento precioso. Ela irá olhar para você e dizer, caso seja mulher: “mãe, não quer comprar manga? Estão muito doces!”.

Quando outras pessoas nenecam o bebê de alguém, é como se o amor materno se estendesse para além da própria mãe. Quando uma mãe vê o seu filho acolhido em outra neneca, sente alívio, acolhimento e leveza. Da mesma forma, uma pessoa que neneca o bebê de alguém jamais esquecerá e, certamente, quando encontrar essa criança depois de crescida, lhe dirá: “como você cresceu, eu te colocava na minha neneca”.

Neneca é a extensão do amor e uma forma de demonstrar que o afeto a um bebê, o cuidado e o conforto, numa fase em que ele está aprendendo o mundo, não são tarefas restritas à mãe. A memória de ser nenecado se reproduz no ato presente de nenecar, atravessa gerações e faz valer o provérbio africano que diz: “É preciso uma aldeia inteira para se educar uma criança.”

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