Em 1999, saía publicado pela Massangana, selo editorial da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), em coedição com a Cortez, o livro A invenção do Nordeste e outras artes, de Durval Muniz de Albuquerque Júnior. Premiado em 1996 no “Concurso Nelson Chaves de Teses sobre o Norte e Nordeste brasileiro”, promovido pela Fundaj, a obra de Durval tornou-se um clássico da interpretação do país e do pensamento social brasileiro.
A obra serviu de inspiração para a peça homônima do Grupo Carmim, sediado em Natal, com direção de Quitéria Kelly. Vencedor do Prêmio Shell de Melhor Dramaturgia, entre outras premiações, o texto escrito por Pablo Capistrano e Henrique Fontes trata de um diretor contratado por uma grande produtora sudestina para selecionar e preparar um ator nordestino que interprete um personagem nordestino. Os dois atores que vão para a final e o diretor, durante as semanas de preparação, refletem sobre o que é, afinal de contas, o “ser nordestino”.
E do que trata, afinal, A invenção do Nordeste, resultado a tese de Durval em História na Unicamp? Podemos dizer que é uma arqueologia das práticas discursivas e não-discursivas que a partir do final do século XIX aos anos 60 do século passado deram lugar, paulatinamente, a uma visibilidade e uma dizibilidade nomeadas como nordestinas. Tais práticas “impregnam o próprio Nordeste em construção” e, ao mesmo tempo, o Sul-Sudeste, em uma afirmação pela oposição: aquilo [Nordeste] era tudo o que os sudestinos e sulistas não deveriam ser.
Ora, seguindo o pensamento de Durval, se uma região [Nordeste] é um constructo que resulta de interesses e agentes diversos que disputam
e/ou tecem alianças entre si para conquistar o poder de divisão de um espaço atribuindo-lhe identidade(s), que perspectivas trouxeram para a esfera pública os/as artistas e os movimentos artísticos que ganharam força a partir dos anos 1990, colocando em cena lugares de fala até então pouco visíveis ou mesmo invisibilizados?
Em outras palavras, como, a partir da retomada da democracia brasileira, os/as artistas (de todas as linguagens) vêm reinventando o Nordeste, para além daqueles estereótipos que, historicamente, foram construídos basicamente por homens brancos católicos, héteros e descendentes de uma elite decadente – ainda que alguns pudessem até ser progressistas?
Múltiplos nordestes estão surgindo desse processo. A própria peça do Grupo Carmim é um exemplo. Outro é a exposição coletiva “Nordeste expandido: estratégias de (re) existir”, com curadoria de Jacqueline de Medeiros e curadoria adjunta de Cecília Gallindo Cornélio. A mostra resulta do programa “Banco do Nordeste – novas aquisições” que tinha como objetivo atualizar o acervo artístico da instituição. Por essa política, foram adquiridas obras de artistas de diversas áreas de atuação, por meio de um processo de curadoria compartilhada entre o Banco Nordeste Cultural e curadores locais. Com isso, incorporaram-se ao acervo 216 obras de 110 artistas. Foi sobre esse material que a curadoria de “Nordeste Expandido” trabalhou.
A exposição que já passou por Recife, Fortaleza, Natal, São Luís, Teresina, João Pessoa, Aracajú e Rio de Janeiro, e que vai continuar sua itinerância por outros estados brasileiros, expande o processo contínuo de invenção do Nordeste. E de diversos modos e meios pela criação contemporânea de artistas indígenas, negros, quilombolas, LGBTQIAPN+, mulheres e na interseccionalidade entre esses e outros marcadores sociais de diferença.
Um Nordeste diverso, como sempre foi, mas que não aparecia nas representações hegemônicas tradicionais. E com ele, um país mais complexo também a ser expandido em sua noção de nação.
CHAMADA PARA PUBLICAÇÃO Revista Observatório da Diversidade Cultural, volume 104, nº 01/2026 Diversidade Cultural e Ação Comunitária: possibilidades, experiências e desafios Período para submissão: 09 de março a 04 de maio de 2026 A Revista do Observatório da Diversidade Cultural convida pesquisadoras(es), gestoras(es) culturais, educadoras(es), artistas, estudantes, lideranças comunitárias e integrantes de coletivos culturais […]
O Observatório da Diversidade Cultural, por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte, patrocínio do Instituto Unimed, realiza o ciclo de formação GESTÃO CULTURAL PARA LIDERANÇAS COMUNITÁRIAS. Período de realização: 10, 17 e 24 de outubro de 2024 Horário: Encontros online às quintas-feiras, de 19 às 21h00 Carga horária total: 6 […]