Entre 29 de agosto e 30 de novembro de 2025, ocorreu em Belém a II Bienal das Amazônias (https://www.bienalamazonias.com.br/). O mundo estava de olho na capital paraense por conta da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025, ou simplesmente COP30 ou ainda COP da Amazônia. Mas quem esteve pela cidade e foi visitar a Bienal teve a oportunidade ímpar de ampliar seu olhar sobre a realidade deste imenso território. Com aproximados 6,74 milhões km² e onde vivem cerca 47 milhões de pessoas, a chamada Pan-Amazônia é formada por Colômbia, Peru, Venezuela, Equador, Bolívia, Guiana, Guiana Francesa, Suriname e Brasil. Portanto, diferentes matrizes naturais e culturais compõem esse vasto mosaico. E é nele que se situa e atua a Bienal.
Na sua primeira edição, em 2023, reuniu 123 artistas e coletivos dos países pan-amazônicos, além do Canadá e da Suíça, e de 17 estados brasileiros, e foi reconhecida com o prêmio “Destaques Regionais – Região Norte” da Associação Brasileira de Críticos de Arte.
O mote daquela edição foi a noção de “dibubuísmo”, extraída da obra do escritor paraense João de Jesus Paes Loureiro, com
o tema Bubuia: águas como Fonte de Imaginações e Desejos. Paes Loureiro, escritor, pesquisador e gestor cultural, diz que ir de bubuia ou dibubuiar, é aproveitar “a intercorrência de ação exterior com a interior, navegação e devaneio, sintoma de atitude reveladora de inteligente convivência do nativo com o ambiente”. Não se trata de reação ao trabalho prático, portanto não se confunde o “ócio criativo”, mas de uma “alternância compatibilizadora com ele [trabalho prático] e parceria de harmonização com a natureza”.
A II Bienal também teve inspiração literária: o conceito Verde-distância extraído do livro Verde Vagomundo, de outro escritor paraense, Benedicto Monteiro – um romance cujas “construções paisagísticas”, como apontam Adonai da Silva de Medeiros e Raphael Bessa Ferreira, se aproximam de obras de Monet e Van Gogh.
Curada por Manuela Moscoso e Sara Garzón, como curadora adjunta, além de Jean da Silva como co-curador do programa público e Mônica Amieva na curadoria pedagógica, a segunda edição reuniu obras de 74 artistas da Pan-Amazônia, além do Caribe. Tendo como horizonte o verde vagomundo amazônico, a curadoria partiu da escuta do território para descentralização as práticas artísticas em um gesto poético-político ou político-cultural. Como defende Moscoso, “viajar pelos territórios pan-amazônicos significa mergulhar em contextos profundamente distintos e, ao mesmo tempo, conectados por fluxos de água, memórias e saberes”. Nesta imersão, “cada experiência foi intensa. Pude conhecer processos experimentais sobre formas de habitar o mundo, a manutenção da memória e práticas transdisciplinares no cinema, além de investigações que abordam a exploração territorial e as cosmologias indígenas. Mais do que simplesmente ver as obras, o fundamental foi ativar conversas, escutar os artistas e compreender como suas pesquisas dialogam com as urgências do nosso tempo”
Lugar estratégico na geopolítica, entendida em seu sentido “duro” de disputas e interesses entre Estados pelas riquezas materi
ais de um território, a região amazônica ganhou com a Bienal uma outra centralidade, geopolítico-cultural, agregando aos incontornáveis conflitos e desafios em torno da produção material uma dimensão de bons afetos fundado na irmandade possível entre povos. Mas também repleta de significados poético-políticos em um contexto no qual as taxas de desmatamento da floresta podem levar a um colapso sem volta do bioma.
Se a bioeconomia se coloca como a melhor saída para gerar emprego e renda para as amazônidas e os amazônidos, a Bienal pode ser a expressão artística dessa aposta em proteger a floresta e seus povos, conectando os artistas da região ao poderoso circuito global das artes visuais e, consequentemente, chamando atenção para as realidades econômicas, social, políticas e culturais da Pan-Amazônia.
Referências
Adonai da Silva de Medeiroe Raphael Bessa Ferreira Revista. Contemplação interpretativa das criações das paisagens impressionistas em Verde Vagomundo: uma aproximação entre Benedicto Monteiro, Claude Monet e Van Gogh. Água Viva, Volume 6, Número2, mai-ago.2021
Patricia Rousseaux. Poética do Imaginário. Conversa com o Professor João de Jesus Paes Loureiro. Disponível em https://artebrasileiros.com.br/arte/poetica-do-imaginario/
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