por Kenia Cuna
Após treze anos a viver em Moçambique, concretizo finalmente uma ponte de comunicação entre o Índico e o Atlântico — um desejo antigo que agora ganha forma. É curioso como esses dois oceanos se encontram simbolicamente aqui, no Observatório da Diversidade Cultural (ODC). Na verdade, esse encontro é mais do que simbólico: é profundamente significativo e oportuno. Depois de pouco mais de uma década a viver em terras de África, há muito o que dizer sobre a diversidade cultural, as relações sociais, os diferentes processos e fatos observados, experienciados e pesquisados. Por isso, escolher o primeiro tema não foi algo trivial. Mas minha intuição instigou-me a começar por um processo de comunicação muito peculiar em África — que, em Moçambique, na língua Xichangana, é denominado Kupathla.
O Kupathla pode ser definido como um processo de comunicação com os espíritos antepassados, realizado pelos seus descendentes. Ocorre, geralmente, ao pé de uma árvore, como também nas portas principais das habitações. O objetivo é chamar a atenção dos antepassados para alguma necessidade dos vivos, como partilha, proteção ou agradecimento. Em diferentes países de África, as pessoas mortas ocupam um lugar proeminente na organização social dos grupos étnicos, e os antepassados — ou os ancestrais, como são conhecidos na literatura antropológica — desempenham um papel central, tanto no que diz respeito à estrutura social, como no que se refere àquilo que Victor Turner (1984) 1 denominou communitas, que pode ser entendido como um senso de coletividade, como a parte das relações sociais desprovida das diferenciações e estratificações da estrutura social.
Em Moçambique, independentemente do grupo étnico, é possível observar de maneira pungente essa centralidade dos antepassados — que, em Xichangana, se diz Mikwémbú — nos conceitos que as pessoas utilizam para organizar seus valores, crenças, relações e práticas sociais. Esse é um aspecto especialmente importante, pois os Mikwémbús fazem parte de um conjunto de fatos relacionados à cosmopercepção 2 local, juntamente com noções relacionadas a feitiços, malefícios, prosperidade, bem-estar e interpretação dos fatos da vida. Todas essas noções são observáveis nas interações sociais, práticas quotidianas e naquelas relacionadas à suspeição da ordem, ligadas às práticas rituais.
A dimensão ritual está fortemente presente na sociedade moçambicana. Há rituais de nascimento, morte, casamento, iniciação, cura, purificação de malefícios, agrícolas, celebração dos antepassados, entre outros. Em todos eles, os Mikwémbús desempenham algum papel, e há a necessidade de se comunicar com eles.
Uma das formas mais diretas dos membros de uma linhagem se comunicarem com os seus Mikwémbús é o Kupathla. O descendente — geralmente um membro sénior da linhagem — deposita ao pé de uma árvore uma bebida tradicional ou vinho branco, rapé e, dependendo da finalidade da comunicação, o sangue de algum animal, que pode ser galinha, cabrito e/ou vaca. É estabelecido um monólogo, através do
qual o descendente verbaliza o motivo da comunicação, que pode ser um pedido de proteção, agradecimento, auxílio para cura, auxílio para ter uma boa época agrícola, uma permissão para realizar algo, aconselhamento, ajuda na resolução de um conflito ou problema, ou simplesmente uma reverência. Durante o Kupathla, seja qual for a finalidade, é como se os descendentes reconhecessem que os antepassados estão sempre com eles e, ao mesmo tempo, reafirmassem que eles também estão sempre com os antepassados.
A primeira vez que tive uma maior percepção da importância do Kupathla foi em 2013, quando realizava uma pesquisa relacionada a um processo de remoção de sepulturas de uma comunidade — denominadas localmente de campas. As campas deveriam ser removidas devido à instalação do projeto de uma barragem de abastecimento de água. Durante a realização de um grupo focal, as pessoas foram inquiridas sobre o porquê de ser necessário fazer Kupathla, e um dos participantes respondeu: “Porque os mortos precisam dos vivos e os vivos precisam dos mortos!”. Nunca mais me esqueci dessa frase, e desde então ela tem atravessado a maioria das pesquisas e estudos que tenho realizado em Moçambique — a forma como observo e procuro compreender as relações sociais, as estratificações e hierarquias, as regras costumeiras, os ritos, os valores e as crenças, como também os principais conceitos que incidem sobre práticas que, por vezes, são classificadas por um olhar etnocêntrico como obscurantistas — coisas de pessoas atrasadas, sem acesso à educação, que são apegadas a práticas tradicionais que deveriam ser deixadas de lado, caso o país (Moçambique) queira se desenvolver.
Apesar dessas perspetivas dicotómicas que são imputadas aos conceitos e práticas que compõem a cosmopercepção dos grupos étnicos em Moçambique, esse ponto de contato entre vivos e mortos — e essa dupla necessidade — não se resume apenas ao âmbito das linhagens ou ao comunitário. Outrossim, ela atravessa o nível institucional e político da sociedade moçambicana, haja vista que não há uma obra do governo moçambicano que não seja precedida de uma cerimónia de Kupathla, a fim de pedir aos Mikwémbús daquele local licença, permissão para que uma estrada, uma escola, uma ponte etc. possam ser construídas.
Ter o Kupathla como o tema da minha primeira coluna para o ODC é também um pedido de licença — para os Mikwémbús do Atlântico e do Índico. Afinal, estamos a construir uma ponte que possibilitará a travessia de várias narrativas, reflexões, questionamentos, encontros e desencontros que aproximam e distanciam esses universos. Tenho certeza de que eles estão a fazer Nkúlúngwána 3 de alegria!
Figura 1 Cerimónia de Kupathla, realizada pelo líder tradicional Carlos Matingane, nomeado localmente como Régulo, na comunidade de Nhoquene, localizada no Distrito da Moamba, em Moçambique, em agradecimento aos antepassados, devido a construção de uma escola.
1 TURNER, Victor. O processo ritual: estrutura e antiestrutura. Petrópolis: Editora Vozes, 1974.
2 Trata-se de um conceito utilizado por Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí como crítica ao termo cosmovisão, que, em sua perspectiva, não corresponde à organização do mundo e às práticas das sociedades africanas. Para maiores detalhes, ver: OYĚWÙMÍ, Oyèrónkẹ́. A invenção das mulheres: construindo um sentido africano para os discursos ocidentais de gênero. Rio de Janeiro: Editora Bazar do Tempo, 2021 [1998].
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