Por Thais Oliveira
Há acontecimentos que parecem técnicos à primeira vista, mas que carregam mudanças profundas na forma como um país compreende a si mesmo. O lançamento em português do Marco de Estatísticas Culturais 2025 da UNESCO, apresentado no Brasil durante o I Encontro Brasileiro de Observatórios de Economia Criativa, é um desses acontecimentos.
Para quem vive da cultura, trabalha com arte, produz eventos, pesquisa territórios, cria projetos, escreve editais, gere equipamentos culturais ou formula políticas públicas, falar de estatísticas culturais pode parecer algo distante. Mas não é. Medir a cultura é também uma forma de reconhecê-la. É uma maneira de dizer que aquilo que artistas, mestres, coletivos, técnicos, produtores, comunidades, grupos populares, empreendedores criativos e instituições culturais realizam todos os dias tem valor simbólico, social, econômico, territorial e político.
O Marco de Estatísticas Culturais, ou Framework for Cultural Statistics – FCS, vem de uma trajetória internacional construída pela UNESCO para apoiar países na produção de dados culturais confiáveis, comparáveis e úteis para políticas públicas. Segundo o Instituto de Estatísticas da UNESCO, os Estados-membros da organização adotaram o primeiro Marco de Estatísticas Culturais em 1986. Depois, o documento foi atualizado em 2009 e novamente em 2025, acompanhando mudanças globais, novas prioridades de política cultural e os impactos da digitalização sobre a cultura e a criatividade.
Isso significa que o Marco não é apenas uma publicação nova. Ele é parte de uma tentativa histórica de responder a uma pergunta complexa: como medir a cultura sem reduzir sua força simbólica, social e política a números frios? A própria UNESCO apresenta o FCS como o único padrão internacional abrangente e reconhecido para estatísticas culturais, com a função de definir a cultura para fins estatísticos e oferecer ferramentas para a produção de dados confiáveis e comparáveis entre países.
A versão de 2025 surge em um momento em que as indústrias culturais e criativas ganham cada vez mais importância econômica, social e política. A UNESCO afirma que o novo Marco foi desenvolvido diante da necessidade urgente de ferramentas mais fortes para captar o papel da cultura no desenvolvimento sustentável. Ele foi elaborado pelo Instituto de Estatísticas da UNESCO, em colaboração com o Setor de Cultura da UNESCO, e lançado oficialmente no contexto da MONDIACULT 2025, em Barcelona, encontro internacional dedicado às políticas culturais e ao desenvolvimento sustentável.
A atualização de 2025 também dialoga com as prioridades colocadas pela MONDIACULT 2022, que reforçou a necessidade de instrumentos mais consistentes para compreender e medir o papel da cultura no desenvolvimento. O documento foi elaborado por meio de um processo consultivo global, com participação de Estados-membros da UNESCO, institutos nacionais de estatística, ministérios da cultura, pesquisadores, estatísticos e organizações internacionais de diferentes regiões do mundo.
Em termos práticos, o Marco de Estatísticas Culturais 2025 é composto por duas partes. A Parte I – Conceitos e Definições – apresenta o escopo da cultura para fins de mensuração, trabalha a ideia de ecossistema cultural e criativo, estabelece domínios culturais e transversais e propõe um modelo atualizado de geração de valor, considerando as transformações recentes da produção e das práticas culturais.
A Parte II – Guia de Classificação – oferece orientações práticas para implementação do Marco, utilizando classificações internacionais atualizadas. Ela apresenta uma matriz que relaciona os domínios culturais ao modelo de geração de valor, identifica fontes de dados e métodos possíveis e deverá ser atualizada com mais frequência, acompanhando os ciclos de revisão das classificações internacionais.
O lançamento da versão em português do Marco possui um significado especial para o Brasil. No dia 18 de maio de 2026, o Ministério da Cultura realizou, em São Paulo, no Itaú Cultural, o I Encontro Brasileiro de Observatórios de Economia Criativa, promovido em parceria com a UNESCO Brasil e a Fundação Itaú. No mesmo dia aconteceu o lançamento oficial da Rede Brasileira de Observatórios de Economia Criativa, reunindo pesquisadores, gestores públicos, organismos internacionais, universidades e instituições de pesquisa em torno de uma agenda colaborativa voltada à produção de conhecimento, à articulação institucional e ao fortalecimento de políticas públicas para a economia criativa no país.
Esse ponto é fundamental: o Marco chega ao Brasil não apenas como um documento técnico traduzido, mas como parte de um movimento maior de fortalecimento da pesquisa, da produção de dados e da governança da economia criativa. Ao ser incorporado ao contexto brasileiro, ele ajuda a alinhar metodologias, indicadores e formas de organizar informações, ampliando a capacidade do país de acompanhar, avaliar e aprimorar suas políticas culturais. Nesse mesmo caminho, o Ministério da Cultura instituiu o Programa Observatório Celso Furtado de Economia Criativa — OBEC e criou a Rede Brasileira de Observatórios de Economia Criativa, reforçando a construção de uma base comum de conhecimento sobre o setor, capaz de apoiar pesquisas, decisões públicas e estratégias institucionais mais conectadas com a realidade da cultura e da economia criativa no Brasil.
A criação dessa rede é decisiva porque o Brasil não pode ser lido por um único centro de dados. A economia criativa brasileira acontece nos grandes centros urbanos, mas também nas periferias, nos territórios tradicionais, nas pequenas cidades, nas festas populares, nos circuitos independentes, nas redes digitais, nas universidades, nos coletivos, nos pontos de cultura, nos mercados locais e nas iniciativas comunitárias. Uma rede de observatórios permite que diferentes olhares, territórios e metodologias participem da construção desse retrato.
Além disso, o MinC anunciou uma parceria entre a Secretaria de Economia Criativa e o CNPq para fomentar pesquisas em economia criativa no Brasil, com investimento de R$ 2 milhões. A chamada pública será voltada a projetos de pesquisa alinhados aos eixos temáticos prioritários da Secretaria de Economia Criativa, contribuindo para fortalecer a produção de conhecimento baseado em evidências e aprimorar políticas públicas para o setor cultural.
Outra ação importante é o Portal Brasil Criativo, lançado pelo Ministério da Cultura como uma plataforma digital para reunir políticas, oportunidades, diretrizes, conteúdos e informações sobre economia criativa. Segundo o MinC, o portal organiza os principais pilares da Política Nacional de Economia Criativa: financiamento e fomento; mercados e empreendedorismo; territórios; formação; e estudos e pesquisas.
Nesse contexto, o Marco de Estatísticas Culturais pode representar um salto de maturidade para a indústria cultural e criativa brasileira. Ele oferece uma base para organizar melhor cadeias produtivas, compreender mercados, mapear ocupações, identificar gargalos, planejar investimentos, formular editais, avaliar impacto e defender políticas de longo prazo.
Para artistas e produtores, o Marco ajuda a tornar visível aquilo que muitas vezes permanece invisível: o trabalho de criação, gestão, circulação, formação, técnica, mediação, cuidado e articulação que sustenta a vida cultural do país. Para pesquisadores, ele abre caminhos para estudos mais consistentes e conectados a debates internacionais. Para gestores públicos, oferece parâmetros para diagnósticos e políticas mais eficazes. Para comunidades e territórios, pode fortalecer a reivindicação por reconhecimento, financiamento e presença nas estatísticas oficiais.
Mas é preciso fazer uma defesa importante: medir a cultura não significa empobrecê-la. O risco existe quando os indicadores são usados apenas para contar público, bilheteria, retorno financeiro ou impacto econômico imediato. O avanço do Marco está justamente em propor uma visão mais ampla do ecossistema cultural e criativo, considerando diferentes formas de expressão, produção, participação e geração de valor.
A cultura gera economia, sim. Mas também gera memória, identidade, pertencimento, saúde, educação, inovação, vínculos comunitários e imaginação política. Por isso, dados culturais não devem servir apenas ao mercado. Eles devem servir também à democracia cultural, à distribuição de recursos, ao reconhecimento dos territórios e à construção de políticas públicas mais justas.
O grande desafio, a partir de agora, será traduzir o Marco para a prática brasileira. Não basta lançar o documento. Será necessário formar pessoas, criar metodologias adaptadas aos territórios, alimentar bases de dados, escutar os agentes culturais, integrar sistemas de informação, considerar desigualdades regionais e garantir que os indicadores não apaguem a diversidade que pretendem representar.
O Marco de Estatísticas Culturais chega, portanto, como uma ferramenta técnica, mas também como uma provocação política. Ele nos pergunta: que cultura estamos conseguindo enxergar? Que trabalhos continuam invisíveis? Que territórios ainda não aparecem nos dados? Que dimensões da vida cultural brasileira seguem fora dos relatórios, orçamentos e políticas públicas?
Apresentar esse Marco à comunidade é abrir uma conversa urgente. É dizer que dados culturais não pertencem apenas aos especialistas. Pertencem também aos artistas, produtores, educadores, pesquisadores, gestores, trabalhadores da cultura e comunidades que constroem diariamente a economia criativa brasileira.
Porque quando a cultura passa a ser melhor medida, ela também pode ser melhor defendida. E quando seus dados são produzidos com diversidade, rigor e escuta, eles deixam de ser apenas números. Tornam-se instrumentos de reconhecimento, memória, planejamento e transformação.
UNESCO Institute for Statistics — Framework for Cultural Statistics
Página oficial do Instituto de Estatísticas da UNESCO sobre o Marco de Estatísticas Culturais, com histórico desde 1986 e informações sobre as versões de 2009 e 2025.
https://www.uis.unesco.org/en/methods-and-tools/framework-cultural-statistics
UNESCO Institute for Statistics — 2025 UNESCO Framework for Cultural Statistics Sets New Global Standard for Measuring Culture
Texto da UNESCO sobre o lançamento global do Marco de Estatísticas Culturais 2025, sua relação com a MONDIACULT e seu processo consultivo internacional.
https://www.uis.unesco.org/en/node/256
UNESCO — Marco de Estatísticas Culturais 2025, Parte I: Conceitos e Definições — versão em português
Documento oficial em português da Parte I do Marco de Estatísticas Culturais 2025, dedicado aos conceitos, princípios e definições gerais.
https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000398156
UNESCO — Marco de Estatísticas Culturais 2025, Parte II: Guia de Classificação — versão em português
Documento oficial em português da Parte II do Marco de Estatísticas Culturais 2025, voltado à classificação dos domínios, atividades e práticas culturais.
https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000398156
Ministério da Cultura — MinC lança Rede Brasileira de Observatórios de Economia Criativa em São Paulo
Aviso de pauta sobre o I Encontro Brasileiro de Observatórios de Economia Criativa, a apresentação da versão em português do Marco de Estatísticas Culturais 2025 e o anúncio da parceria entre a Secretaria de Economia Criativa do MinC e o CNPq.
https://www.gov.br/cultura/pt-br/centrais-de-conteudo/sala-de-imprensa/avisos-de-pauta/minc-lanca-rede-brasileira-de-observatorios-de-economia-criativa-em-sao-paulo
Ministério da Cultura — MinC institui Observatório Celso Furtado de Economia Criativa e fortalece produção de dados para o setor
Notícia sobre a criação do Observatório Celso Furtado de Economia Criativa e o fortalecimento da produção de dados, indicadores e informações estratégicas para o setor cultural e criativo.
https://www.gov.br/cultura/pt-br/assuntos/noticias/minc-institui-observatorio-celso-furtado-de-economia-criativa-e-fortalece-producao-de-dados-para-o-setor
Ministério da Cultura — OBEC: Observatório Celso Furtado de Economia Criativa
Página oficial do Observatório Celso Furtado de Economia Criativa, com informações sobre sua missão, objetivos, estrutura e eixos estratégicos.
https://www.gov.br/cultura/pt-br/assuntos/brasil-criativo/obec/obec
Ministério da Cultura — Brasil Criativo
Página oficial do programa Brasil Criativo, iniciativa voltada ao fortalecimento da economia criativa no Brasil.
https://www.gov.br/cultura/pt-br/assuntos/brasil-criativo
Ministério da Cultura — Brasil Criativo ganha portal e abre novo capítulo para a economia criativa no país
Notícia sobre o lançamento do portal Brasil Criativo, seus eixos estruturantes e sua relação com a Política Nacional de Economia Criativa.
https://www.gov.br/cultura/pt-br/assuntos/noticias/brasil-criativo-ganha-portal-e-abre-novo-capitulo-para-a-economia-criativa-no-pais
Ministério da Cultura — Marcos Legais do Brasil Criativo / Portaria MinC nº 284, de 23 de abril de 2026
Página com os marcos legais do Brasil Criativo, incluindo a Portaria MinC nº 284/2026, que institui o Programa Observatório Celso Furtado de Economia Criativa e a Rede Brasileira de Observatórios de Economia Criativa.
https://www.gov.br/cultura/pt-br/assuntos/brasil-criativo/marcos-legais/marcos-legais
Firjan — Indústria Criativa
Página institucional da Firjan sobre indústria criativa, com conteúdos, estudos e informações sobre a relevância econômica dos setores criativos.
https://firjan.com.br/firjan/empresas/competitividade-empresarial/industria-criativa/default.htm
Casa Firjan — Mapeamento da Indústria Criativa
Publicação da Casa Firjan com dados, análises e indicadores sobre a indústria criativa no Brasil.
https://www.casafirjan.com.br/publicacoes/mapeamento-da-industria-criativa
CHAMADA PARA PUBLICAÇÃO Revista Observatório da Diversidade Cultural, volume 104, nº 01/2026 Diversidade Cultural e Ação Comunitária: possibilidades, experiências e desafios Período para submissão: 09 de março a 04 de maio de 2026 A Revista do Observatório da Diversidade Cultural convida pesquisadoras(es), gestoras(es) culturais, educadoras(es), artistas, estudantes, lideranças comunitárias e integrantes de coletivos culturais […]
O Observatório da Diversidade Cultural, por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte, patrocínio do Instituto Unimed, realiza o ciclo de formação GESTÃO CULTURAL PARA LIDERANÇAS COMUNITÁRIAS. Período de realização: 10, 17 e 24 de outubro de 2024 Horário: Encontros online às quintas-feiras, de 19 às 21h00 Carga horária total: 6 […]