Em uma conversa com o historiador e crítico de arte suíço Hans Ulrich Obrista, o filósofo e escritor martinicano Édouard Glissant disse que o mundo estava nele e ele estava no mundo, pois “o mundo é uma mistura”, e era preciso tirar proveito da diversidade que este tout-monde oferece e diante do qual “somos todos jovens”.
Nascido em um arquipélago caribenhi em 1928, Glissant escreveu uma extensa e fundamental obra, parte dela já publicada no Brasil, onde transita por várias linguagens: ensaio, romance, dramaturgia, poesia. Parte de sua vida transcorreu em um território que é ainda hoje um departamento ultramarino francês, que no século XVII deportou os povos originários da colônia e que introduziu o trabalho escravo com pessoas africanas. Com essa memória e esse presente coloniais, o escritor não se esquivou de assumir seu papel de intelectual. Esteve à frente, junto com outros e outras, como Frantz Fanon, também martinicano, em diversos embates de cunho marcadamente antiimperialista.
Seu engajamento político-cultural, que o levou, entre outras instituições, a atuar na UNESCO, se alimentou de e alimentou seu pensamento e assim, por meio de sua práxis, surge uma poética da relação com o “pensamento do outro” e o “outro do pensamento”. Nesta lógica relacional, na tensão entre identidade e alteridade, não há lugar para essencialismos, substancialismos ou outros ismos fixadores. Ele dizia: “Como ser si mesmo sem fechar-se ao outro, e como abrir-se ao outro sem perder-se a si mesmo?”. E como sublinha Annick Marie Belrose, no pensamento de Glissant, “existir em relação é ser um elemento de um processo em constante mutação e sempre diversificado”.
Pois bem, parte desse universo pode ser visto na mostra A terra, o fogo, a água e os ventos – Por um Museu da Errância com Édouard Glissant (https://www.institutotomieohtake.org.br/exposicoes/a-terra-o-fogo-a-agua-e-os-ventos-por-um-museu-da-errancia-com-edouard-glissant/), com curadoria de Ana Roman e Paulo Miyada e em exposição no Instituto Tomie Otake. O título vem de uma coletânea homônima organizada por Glissant onde reúne alguns autores e algumas autoras que dão vozes a tout-monde.
Este museu errante operado pela e na exposição gira em torno de duas “ideias-chave”: a palavra da paisagem e a paisagem da palavra. Neste arquipélago de imagens, pode-se ver uma parte da coleção de pinturas, esculturas e gravuras que Glissant foi reunindo no convívio com artistas, muito deles com trajetórias diaspóricas como a do martinicano. Somam-se a essa paisagem, as obras de outros tantos artistas que dialogam com seu pensamento, além de documentos e vídeos, com destaque para o diálogo dele com Patrick Chamoiseau, escritor martinicano e seu parceiro intelectual, gravado em 2008.
Esse museu errante em forma de exposição pode ser pensado como uma utopia. Como disse em sua conversa com Obrist, a utopia não é um objetivo, uma meta ou um sonho, mas o que “nos falta no mundo”. Por isso, faz-se necessário o pensamento ou a poética do “tremor” para botar abaixo as ideias fixas: “Temos de aceitar que nosso mundo muda, de forma constante e radical, e que ele muda conosco e em nós, e que é nossa obrigação perceber, intuir, sentir essa mudança. É assim que alcançamos a utopia”.
Referências:
Annick Marie Belrose. Alguns conceitos operatórios da contrapoética de Edouard Glissant. In: Estudos de cultura: abordagens e perspectivas. Antônio Carlos Sardinha, David Júnior de Souza Silva e Yuji Gushiken (organizadores). Macapá: UNIFAP , 2020.
Édouard Glissant e Hans Ulrich Obrist. Conversas do arquipélago. Rio de Janeiro: Cobogó, 2023.
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