COLUNAS

Pra Libertar Meu Coração – Por Alexandre Barbalho

Por Alexandre Barbalho

Certa vez, o modernista paulista Oswald de Andrade anunciou: “a alegria é a prova dos nove”. Esta boutade – para usar uma palavra ao gosto do cosmopolitismo colonizado de início do século passado – oswaldiana ressoa até hoje em parte significativa da produção cultural brasileira. Nem tinha como não ser, em um país que tem na festa popular, algumas de dimensões extraordinárias como o carnaval e as festas juninas, um dado constituinte de seu caráter nacional, apesar de, ou justamente por conta de toda dimensão trágica da sua história e do seu presente.

Pois bem, a exposição “Bloco do Prazer”, que ocupou um andar do Museu de Arte do Rio (MAR) de abril e agosto de 2024 e agora está no Museu de Arte Museu de Arte Contemporânea do Ceará (MAC), no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura em Fortaleza (www.dragaodomar.org.br/espacos/museu-de-arte-contemporanea), dialoga com essa sentença existencial. Com curadoria de Marcelo Campos, Amanda Bonan e Bitu Cassundé, a festa se organiza nas salas do museu ao som da música homônima, fruto da parceria do poeta-letrista cearense Fausto Nilo com o cantor-compositor baiano Moraes Moreira e que fez e faz muito sucesso nos carnavais brasis afora na voz da também baiana Gal Costa.

Lançada em 1978, início oficial da “abertura lenta, gradual e segura” que marcou a transição entre o regime militar e regime democrático no Brasil, a letra, o som e os sentidos da canção remetem a esse momento de respiro, ainda que curto, que o povo vivia naquele ano no país do carnaval. Dez anos após o Tropicalismo, Fausto, Moraes e Gal anunciam, não um movimento, mas um novo momento, um novo balancê. E forneceram, para a multidão que estava nas ruas naquele final de década, um grito para libertar os corações. A alegria sendo a prova dos nove.

Esse é o espírito de época que acompanha o público que vai à exposição. São quase 250 obras, mas, na atual versão, a exposição ganha novas obras de artistas cearenses, alguns que vivenciaram aqueles tempos de chumbo e a abertura política, como Eduardo Frota, e outros, mais jovens, que vivenciam os atuais desafios de se fazer da vida não apenas um corre constante, mas também celebração, a exemplo do painel de Charles Lessa.

A exposição, nesse diálogo entre artes visuais e música, está repleta de ícones de nossa cultura pop e/ou popular. Talvez o mais emblemático seja a faixa vermelha onde se lê em amarelo – FA – TAL -, um trabalho do artista e designer gráfico cearense Luciano Figueiredo para o show e depois LP duplo de Gal, onde se destacam a direção e as letras do poeta baiano Wally Salomão. Isso porque o show e o disco, com registro das músicas ao vivo no Teatro Tereza Raquel no Rio de Janeiro em 1971, sendo um dos suspiros finais do Tropicalismo no momento mais cruel da ditadura, foram uma possibilidade de viver a sociablidade e a liberdade da potência do encontro, quando o espaço público não era mais livre.

Poucos anos depois, sobrevivendo aos tempos sombrios, Gal (e nós, hoje, na/com a exposicão), por meio de Fausto e Moraes, pôde conclamar: Pra libertar meu coração/Eu quero muito mais/Que o som da marcha lenta/Eu quero um novo balancê/O bloco do prazer/Que a multidão comenta/Não quero oito, nem oitenta/Eu quero o bloco do prazer/E quem não vai querer?

 

 

 

 

 

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