Por Paula Gotelip
Ainda estou organizando o que foi vivido no Primeiro Encontro Nacional de Teatros para Infâncias e Juventudes da ASSITEJ Brasil. Nos próximos meses, talvez seja possível me deter com mais cuidado nas conversas, nas urgências apontadas e nos caminhos que se abriram a partir desse encontro. Por ora, interessa registrar algumas primeiras impressões sobre a experiência realizada em São João del-Rei, no interior de Minas Gerais, na sede do Teatro da Pedra.
A escolha do território foi um dos gestos mais significativos do encontro. Realizar uma reunião nacional sobre teatro para infâncias e juventudes fora dos grandes centros desloca o eixo habitual de circulação dos debates e afirma a importância de reconhecer experiências que se constroem no interior do país. Ao mesmo tempo, embora houvesse presenças de diferentes regiões brasileiras, também se evidenciou uma lacuna territorial importante, especialmente em relação às regiões Norte e Centro-Oeste, quando comparadas à presença mais expressiva de pessoas vinculadas ao eixo Rio de Janeiro–São Paulo. Essa constatação não diminui a força do encontro; ao contrário, ajuda a compreender os desafios ainda colocados para uma descentralização efetiva do campo.
Nesse contexto, é significativo que a atual presidência do CBTIJ/ASSITEJ Brasil esteja com Luciana Comin, artista e pesquisadora sediada em Salvador, vinculada ao Grupo TECA Teatro e Outras Artes. Sua presença na condução da entidade parece ampliar o olhar para outras territorialidades e fortalecer um movimento de deslocamento simbólico e político para além do Sudeste. Ainda assim, permanece a necessidade de observar como os mecanismos de reconhecimento do teatro para infâncias e juventudes no Brasil continuam, muitas vezes, atravessados por circuitos concentrados. Quando os espetáculos mais legitimados são majoritariamente aqueles que conseguem circular ou permanecer em temporada no Rio de Janeiro e em São Paulo, também se define, ainda que indiretamente, quais produções passam a ser vistas como referência nacional.
Por isso, a descentralização precisa ser pensada não apenas como deslocamento geográfico de encontros e eventos, mas também como revisão dos critérios de visibilidade, circulação, premiação e memória. O que se entende como teatro para infâncias no Brasil não pode ser construído apenas a partir dos territórios que possuem maior estrutura de produção, crítica e difusão. É preciso escutar com mais atenção o que vem sendo criado nos interiores, nas periferias, nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, nos Pontos de Cultura, nos grupos comunitários e nas experiências que sustentam práticas artísticas consistentes sem alcançar os mesmos canais de legitimação.
A sede do Teatro da Pedra mostrou-se uma escolha acertada: trata-se de um coletivo que atua como Ponto de Cultura e que articula pesquisa artística, formação, circulação, relação comunitária e democratização do acesso. Durante a semana, estiveram reunidas em São João del-Rei pessoas de diferentes regiões do Brasil, com trajetórias importantes na história do teatro feito para e com crianças e jovens. Eram artistas, pesquisadoras, gestores, educadoras e criadoras com saberes diversos. Havia ali uma oportunidade de intercâmbio entre gerações, territórios, modos de produção e perspectivas sobre a infância.
Nesse sentido, chamou atenção a ausência de pessoas vinculadas à universidade local, que tem cursos de licenciatura e bacharelado em teatro, especialmente professores, estudantes e pesquisadores da área. Como pesquisadora que transita entre a prática artística e a academia, essa ausência me causou estranhamento. Não se trata de afirmar, sem conhecer as razões, por que essa aproximação não aconteceu, mas de registrar o quanto teria sido enriquecedor que a universidade estivesse mais presente. Em uma semana em que São João del-Rei recebeu artistas e pensadores do campo do teatro para infâncias e juventudes, havia uma possibilidade concreta de troca entre saberes acadêmicos, artísticos e comunitários.
Essa presença poderia ter contribuído, inclusive, para adensar algumas questões que apareceram ao longo do encontro: os conflitos geracionais, as diferenças entre modos de produção, os desafios de transmissão de memória e a necessidade de construir pontes entre quem abriu caminhos e quem vem formulando novas perguntas.
A programação contou com espetáculos de grupos associados à ASSITEJ Brasil, apresentados ao longo dos dias. O Teatro da Pedra organizou também a presença de crianças de escolas públicas da região, garantindo que elas pudessem assistir às apresentações.
Merece destaque o cuidado da equipe do Teatro da Pedra na organização do encontro. A programação começava cedo, terminava tarde e exigia uma estrutura intensa de acolhimento. Mesmo assim, havia uma atenção constante aos detalhes nas refeições, na recepção, no esforço para que o encontro acontecesse com uma marca de hospitalidade própria daquele território.
Um dos momentos mais significativos foi a apresentação do espetáculo Okan, realizada pelo próprio Teatro da Pedra. Para quem acompanhava o encontro, a apresentação funcionou quase como uma síntese sensível daquilo que o grupo constrói em sua trajetória: uma prática artística atravessada por pesquisa, comunidade, escuta e presença.
Este primeiro texto é apenas uma introdução. O encontro levantou questões que merecem ser retomadas com mais tempo: a circulação nacional, a memória do teatro para crianças no Brasil, a relação com a América Latina, os desafios de produção, os atravessamentos geracionais, a acessibilidade e os modos como a infância é compreendida nas práticas artísticas. Por ora, fica o registro de uma experiência importante, realizada em um território que soube acolher o encontro com generosidade.
CHAMADA PARA PUBLICAÇÃO Revista Observatório da Diversidade Cultural, volume 104, nº 01/2026 Diversidade Cultural e Ação Comunitária: possibilidades, experiências e desafios Período para submissão: 09 de março a 04 de maio de 2026 A Revista do Observatório da Diversidade Cultural convida pesquisadoras(es), gestoras(es) culturais, educadoras(es), artistas, estudantes, lideranças comunitárias e integrantes de coletivos culturais […]
O Observatório da Diversidade Cultural, por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte, patrocínio do Instituto Unimed, realiza o ciclo de formação GESTÃO CULTURAL PARA LIDERANÇAS COMUNITÁRIAS. Período de realização: 10, 17 e 24 de outubro de 2024 Horário: Encontros online às quintas-feiras, de 19 às 21h00 Carga horária total: 6 […]