COLUNAS

Todos Devemos 脿 Terra: a morte e o senso de coletividade em Mo莽ambique – Por Kenia Cuna

Por Kenia Cuna

O tema desta coluna seria outro, seria sobre o Carnaval e o Festival da Marrabenta. Duas manifesta莽玫es culturais populares que evidenciam e d茫o voz 脿s pessoas que vivem fora da bolha da sociedade e que t锚m o poder de suspender a ordem social. Contudo, a morte atravessou o meu caminho nessas duas 煤ltimas semanas do m锚s de mar莽o. Ela veio primeiro do Atl芒ntico e agora se encontra presente no 脥ndico, a lembrar que essa 茅 uma travessia inevit谩vel. Por isso, resolvi escrever sobre ela. De toda forma, continuamos a falar da suspens茫o da ordem social, mas de outra perspetiva. N茫o mais da festa e da celebra莽茫o, mas das cerim么nias f煤nebres e do luto, que demarcam o fim da presen莽a corp贸rea de uma pessoa na exist锚ncia objetiva.

A morte em 脕frica 茅 um acontecimento social, possui sentidos m煤ltiplos e est谩 ligada a diferentes tipos de ritos. Quando passei a viver em Mo莽ambique, tive um estranhamento em rela莽茫o 脿 forma como a morte era tratada. Primeiro, estranhei a alta frequ锚ncia com que as pessoas que eu conhecia iam a falecimentos, a me esfregar na cara como que, em certas partes do mundo, a vida dura menos.

Outro aspeto que me causava estranhamento era: parecia que havia entre as pessoas daqui uma naturaliza莽茫o da morte ou uma aceita莽茫o passiva em rela莽茫o a ela. Quando morre algu茅m no Brasil, uma das primeiras perguntas que fazemos 茅: 鈥淢orreu de qu锚?鈥 N贸s precisamos dessa satisfa莽茫o como uma forma de prote莽茫o ou para justificar o cessamento da vida! Como se ela n茫o fosse findar independentemente da causa. Aqui, essa pergunta quase nunca 茅 respondida. H谩 v谩rios aspetos relacionados a esse sil锚ncio.

No sentido antropol贸gico, o sil锚ncio se d谩 porque as interpreta莽玫es relacionadas 脿s causas da morte n茫o se limitam ao adoecimento do corpo f铆sico, a fatalidades ou mesmo a atentados contra a pessoa. Haver谩, quase sempre, uma causa n茫o declarada que dever谩 ser devidamente interpretada por quem 茅 de direito e n茫o deve ser publicizada, pois 茅 um assunto do foro familiar.

Outro aspeto que a morte deixa manifesto sobre a sociedade mo莽ambicana 茅 a manifesta莽茫o pungente do sentimento de coletividade. Independentemente do contexto em que ela ocorre, nota-se uma suspens茫o das hierarquias sociais e uma mobiliza莽茫o org芒nica em torno de se amparar a fam铆lia enlutada. As pessoas s茫o movidas por uma for莽a, que as fazem participar de alguma forma desse momento. Enviar uma mensagem de consolo n茫o 茅 o bastante, elas precisam estar presentes, e a express茫o belamente usada que simboliza isso 茅 鈥渢emos que ir apertar a m茫o da Maria鈥.

Apertar a m茫o 茅 o mesmo que dizer: voc锚 n茫o est谩 sozinho, sozinha, n贸s estamos aqui. E quando isso n茫o ocorre, as pessoas se sentem mal por n茫o terem cumprido esse feito. Apertar a m茫o de algu茅m durante o luto 茅 muito mais que uma obriga莽茫o social, 茅 o reconhecimento coletivo da humanidade. Quando despidas das classifica莽玫es sociais, o que as pessoas s茫o? Humanas e nada mais. Independentemente de quem a pessoa seja, do poder aquisitivo que tenha, da posi莽茫o social que ocupe, da linhagem 脿 qual perten莽a, ela ser谩 abra莽ada pela morte, a sua ou de algu茅m que lhe 茅 muito caro. H谩 uma m煤sica em changana que diz isso de uma forma muito forte e aut锚ntica, onde uma das frases mais marcantes 茅: 鈥淗a deva kudiwa hi missava鈥[1] 鈥 鈥淭odos n贸s devemos ser comidos pela terra um dia鈥. N茫o adianta voc锚 ter bens materiais, achar que 茅 melhor do que os outros devido ao seu status social e dizer que n茫o deve nada a ningu茅m. O enredo da m煤sica diz mais ou menos isso.

Assim, a morte, nessas terras, tem a for莽a de demonstrar esse sentido de igualdade. Para se ter uma ideia dessa for莽a, n茫o h谩 urg锚ncia em se enterrar a pessoa falecida, a prioridade 茅 garantir que todas as pessoas tenham condi莽玫es de se fazer presentes, sobretudo os familiares que n茫o vivem perto. Um sepultamento pode demorar at茅 cinco dias para acontecer, por exemplo.

H谩 contribui莽玫es financeiras e alimentos de primeira necessidade para auxiliar a fam铆lia enlutada com os custos do funeral. Muitas pessoas passar茫o pela casa onde a pessoa falecida vivia. Mamanas[2] se unem na cozinha e varam a madrugada a preparar tachos de alimento, que quem n茫o sabe o motivo por detr谩s pode achar que est茫o a cozinhar para um casamento. Essa comida ser谩 servida depois da cerim么nia do sepultamento. Sim, ap贸s o enterro 茅 necess谩rio voltar 脿 casa onde o falecimento aconteceu, lavar as m茫os e comungar atrav茅s da refei莽茫o, como que num ato de limpeza e continuidade da vida.

Outro aspeto marcante s茫o os cantos entoados. Cantos em l铆ngua local envolvem o ambiente e possuem uma fun莽茫o de sustenta莽茫o energ茅tica. Uma voz canta sozinha e, depois, as outras vozes cantam juntas, repetindo os versos em un铆ssono. 脡 impressionante a afina莽茫o do coro: soa como se tivessem ensaiado, e de certa forma ensaiam, pois, cantar em funerais 茅 um gesto que se repete no ritmo do quotidiano.

O momento de apertar a m茫o faz com que des莽amos dos supostos degraus que nos separam e que, por um instante, nos igualemos em torno da dor inexor谩vel da perda. Ontem fui apertar a m茫o de algu茅m. Ela estava deitada no ch茫o, na esteira, como que em um gesto de se igualar 脿 mesma condi莽茫o da sua pessoa morta. Estava cercada de mulheres mais velhas. H谩 um cerco que 茅 realizado em torno de algumas pessoas enlutadas, como se fosse uma sustenta莽茫o. Isso varia conforme a rela莽茫o que possuem com a pessoa falecida. Parece que o intuito 茅 oferecer prote莽茫o, uma vez que a morte instaura um limbo e deixa as pessoas mais pr贸ximas da pessoa falecida mais vulner谩veis. A morte faz com que essas pessoas sejam desprovidas de qualquer classifica莽茫o, elas n茫o est茫o mortas e n茫o est茫o vivas, at茅 que as cerim么nias f煤nebres sejam finalizadas, incluindo o per铆odo de luto.

Amarrei minha capulana, descalcei-me, pisei na esteira e ajoelhei-me at茅 ela. N茫o havia express茫o em seu rosto, n茫o havia for莽a presente em seu corpo, a voz n茫o conseguia sair de si. Apertei muito forte as suas m茫os para ver se partilhava as minhas for莽as com ela. Pensei que n茫o havia sido o bastante, ainda com as m茫os a apertar as suas, lhe sussurrei: for莽a! Duas l谩grimas verteram dos meus olhos e vi alguma express茫o brotar em seu olhar, como se l谩grimas fossem verter dos seus olhos tamb茅m. Levantei-me mais confortada, pois percebi que ela estava ali, em algum lugar dentro de si.

Hoje, chove! 脡 um sinal dos Mikw茅mb煤s (Antepassados)! O limbo vai passar e a ordem das coisas ser谩 restabelecida!

[1] T铆tulo da m煤sica 鈥淗a deva鈥, letra de autoria do m煤sico mo莽ambicano Alberto Machavele, que foi regravada no estilo afro-jazz pelo m煤sico Mo莽ambicano Jimmy Dludlu, recebeu o pr茅mio de Melhor M煤sica Afro-Jazz de 脕frica no All Africa Music Awards (AFRIMA 2016). Link para ouvir a m煤sica: Jimmy Dludlu Ha Deva

[2] Termo em Xichangana utilizado para designar a m茫e, as irm茫s da m茫e e outras mulheres que n茫o se tem nenhum v铆nculo de parentesco, mas deseja-se referir de forma respeitosa.

Deixe aqui o seu comentario

Todos os campos devem ser preenchidos. Seu e-mail n茫o ser谩 publicado.

ACONTECE

Chamada para publica莽茫o 鈥 Revista ODC V. 104, N. 01/2026

CHAMADA PARA PUBLICA脟脙O Revista Observat贸rio da Diversidade Cultural, volume 104, n潞 01/2026 Diversidade Cultural e A莽茫o Comunit谩ria: possibilidades, experi锚ncias e desafios Per铆odo para submiss茫o: 09 de mar莽o a 04 de maio de 2026   A Revista do Observat贸rio da Diversidade Cultural convida pesquisadoras(es), gestoras(es) culturais, educadoras(es), artistas, estudantes, lideran莽as comunit谩rias e integrantes de coletivos culturais […]

CURSOS E OFICINAS

Gest茫o Cultural para Lideran莽as Comunit谩rias – Online

O Observat贸rio da Diversidade Cultural, por meio da Lei Municipal de Incentivo 脿 Cultura de Belo Horizonte, patroc铆nio do Instituto Unimed, realiza o ciclo de forma莽茫o GEST脙O CULTURAL PARA LIDERAN脟AS COMUNIT脕RIAS. Per铆odo de realiza莽茫o: 10, 17 e 24 de outubro de 2024 Hor谩rio: Encontros online 脿s quintas-feiras, de 19 脿s 21h00 Carga hor谩ria total: 6 […]

Mais cursos