Ávila Soares por Pixabay

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Favela Revela: “no gueto, subúrbio, povoado, quilombo, aldeia e em qualquer lugar, nossa história é viva”

Imagem de capa: Foto de Iago Ávila Soares por Pixabay (iagoavila13) – Banco de imagens gratuito

O Favela Revela é mais um dos projetos apresentados no evento Diversidade, Cultura e Desenvolvimento: contribuições para os ODS, realizado no mês de maio pelo Grupo de Pesquisa Observatório da Diversidade Cultural (ODC). Esse projeto integrou a roda de conversa sobre Cultura e a Dimensão Econômica, realizada em 11 de maio e pode ser assistida pelo canal do YouTube do ODC.

Para apresentar o Favela Revela recebemos na live Natureza França que coordena o projeto juntamente com um coletivo de jovens moradores de periferias das cidades de Salvador e Rio de Janeiro.

Observatório da Diversidade Cultural (ODC) – Nos fale um pouco da sua história e quais as motivações que a levaram a fazer o que você faz hoje no território em que habita, em Salvador. Porque investir em projetos culturais? O que isso tem a ver com o desenvolvimento local?

Natureza França – Eu nasci no Recôncavo baiano, em Cachoeira e desde os dois anos de idade moro em Tubarão, Subúrbio Ferroviário de Salvador, na beira da maré da Baía de Todos os Santos. Foi aqui que eu cresci, filha de professora e ferroviário. Meu pai é maquinista aposentado da Rede Ferroviária. Cresci neste território gozando de muitos privilégios e enfrentando os desafios de morar em uma periferia.

Um olhar mais atento sobre a minha presença, enfrentamentos e privilégios possibilitam que eu vá entendendo o meu papel dentro do território. Além de me permitir acessar a história da região pré-colonial do Subúrbio Ferroviário de Salvador, território Tupinambá que resistiu à invasão portuguesa no século XVI.

O conhecimento que vou acessando sobre mim, através da história da minha comunidade, encontra os conhecimentos que vou tecendo em outros lugares e se fortalecem com os instrumentos que vou adquirindo no encontro com a outra, o outro. Investir em projetos culturais é consagrar a memória de nossas heroínas que não estão nos livros da escola, e toda história que não foi e não será contada porque se trata de um olhar alheio e estrangeiro. Ao promover a arte e a cultura nas periferias, nós estamos promovendo potências que foram invisibilizadas no decorrer da história desses lugares. Eu acredito, antes de tudo, na educação como uma resposta à longo, médio e curto prazo para a nossa sociedade.

Promover o diálogo entre a arte, a história e as memórias das periferias, envolver a comunidade e potencializar suas habilidades através de uma educação comprometida com a cultura e emancipação são alguns dos objetivos de projetos culturais como o Favela Revela, que propõe o desenvolvimento sustentável e responsável para as periferias.

ODC – Dentre os projetos citados o que é o Projeto Favela Revela e como se dá a sua realização? Porque esse nome?

Natureza França – Favela Revela é uma plataforma multimídia que promove iniciativas, pessoas e territórios historicamente marginalizados, realizada através da aprendizagem e protagonismo de jovens de periferias em sua atuação no cenário cultural. Em exercício desde 2020, quando lançado através da Mostra Poesia Favela Revela, que premiou com 240 reais três poetisas moradoras de periferias de Salvador, Recife e Rio de Janeiro, além de promover outros 17 artistas dando espaço à sua arte, valorizando e reconhecendo-a também como trabalho.

Além de ser um projeto de divulgação e promoção de artistas e personalidades discriminadas por desigualdades históricas de raça, gênero, classe e território, o Favela Revela é um espaço de protesto, rebatendo a mídia tradicional, como jornais e televisão que evidenciam a periferia como lugar de violência e crime e escrevem nossa história de forma cruel.

Idealizei o Favela Revela em 2016, pensando em promover, divulgar, ou seja, revelar as potencialidades das favelas, as coisas boas que acontecem nas periferias brasileiras. Enquanto educadora, a minha ideia era e continua sendo, além de promover esses conteúdos sobre territórios, artistas e articuladoras de todo o Brasil, oferecer contribuições através da educação e capacitação, para suas iniciativas, a partir da produção de conhecimento dentro dos nossos próprios territórios. Então o Favela Revela é para revelar. Os jovens integrantes da equipe atuam na pesquisa e produção de conteúdo da plataforma multimídia.

A plataforma busca valorizar, fortalecer e promover as periferias, enquanto isso os jovens vão sendo instrumentalizados para que eles possam, a partir dessa produção enriquecer seus currículos e suas trajetórias. Nesse momento estamos realizando um ciclo de oficinas, justamente para instrumentalizar a turma para trabalhar e fazer melhor para o Favela Revela e para todo o lugar em que atuem.

Estamos aqui para mostrar que a favela tem muita arte e muita cultura para revelar.

ODC – Quais os propósitos do Favela Revela e quais produtos que se encontram na cena?

Natureza França – O Favela Revela atua para diminuir as desigualdades históricas de raça, gênero e classe. Essa atuação se dá com e para as periferias, no sentido de valorizar e dar visibilidade a artistas, agentes culturais e produções de diversas localidades no Brasil e no mundo; promover capacitação e desenvolvimento de habilidades dos jovens integrantes do Favela Revela, através de experiências fecundas para atuação em produção cultural; produzir e democratizar o conhecimento através de estudos históricos e culturais; promover e difundir referências que representam e valorizam as periferias; descolonizar a arte e a cultura e promover o protagonismo das juventudes periféricas.

Atualmente mantemos quadros semanais no Instagram com conteúdo atual na visão do povo periférico, seja filme, música, entrevistas e outros, além de conteúdo que revela a produção da favela criativa. Além disso, prestamos serviços de fotografia, produção cultural, produção audiovisual, designer gráfico, atividades artísticas/culturais e turismo suburbano/intercâmbio cultural, através da produção artística e cultural e difusão de conteúdo, o Favela Revela promove o conhecimento e apresenta referências para as juventudes, caminhos e trajetórias como possibilidades, inspirando e motivando o protagonismo nas quebradas.

Artistas consagradas e iniciantes juntes em uma plataforma que evidencia as potências, desafios e conquistas comuns aos territórios de periferia. Os impactos contribuem para os sujeitos e territórios com autoestima, valorização, reconhecimento de potenciais, estratégias de criação e produção sustentáveis, obter recursos e sustentar o projeto com atividades culturais.

ODC – Que contribuições esse projeto oferece para a profissionalização dos jovens envolvidos? Quais estratégias e atividades estão sendo desenvolvidas para promover a sustentabilidade do projeto? Quais os principais desafios?

Natureza França – O acesso a recursos financeiros é um desafio para a maioria das pessoas que vive nas periferias e isso implica em manter os jovens dentro do projeto, pois estes normalmente precisam contribuir com a renda familiar desde cedo. Visando manter a juventude presente e ainda preparar para o futuro no Favela revela ou em outras iniciativas, desenvolvemos ações com o objetivo de instrumentalizar esses jovens para atuação nas áreas em que o projeto atua. Por exemplo: área comercial vai ofertar, dialogar, negociar, produtos, captar recursos; A área administrativa vai organizar os processos e as produções. A equipe de elaboração de projetos precisa estar afiada para produzir e apresentar propostas atraentes aos patrocinadores. Então, estamos trabalhando com o ciclo de oficinas para capacitar a juventude que está no grupo a se integrar a essas temáticas na perspectiva do Favela Revela. Pretendemos oferecer as oficinas ao público posteriormente.

Uma outra estratégia é investir na captação de recursos através da venda direta de produtos e serviços do Favela Revela: criações, cards, conteúdos fotográficos e audiovisuais para negociantes, artistas, iniciativas da periferia com custos acessíveis.

Além disso estamos investindo na captação de recursos oriundos de editais, de instituições públicas ou privadas, que possam financiar a realização do nosso projeto.

A vaquinha eletrônica é uma estratégia que utilizamos na Mostra Poesia e o resultado foi positivo. Pretendemos realizar uma nova mostra com essa estratégia que compartilha com a sociedade civil a responsabilidade na distribuição de renda no Brasil. Dessa forma, convidamos as pessoas, o cidadão e a cidadã para que elas possam contribuir e participar também, com esse investimento para artistas e agentes culturais das periferias.

Essa instrumentalização se dá para capacitar o jovem para uma atuação na área da produção cultural e, aí ao mesmo tempo, a gente trabalha com elaboração e interpretação de textos. Toda essa capacitação se dá de forma horizontal, já que dentro de grupo temos um corpo multidisciplinar, jovens que estão estudando letras, administração, outros que já escrevem e lançaram livros de poesias, pessoas ligadas ao áudio visual, ou seja, dentro fazemos essa troca em circularidade. Eu, enquanto coordenadora pedagógica, venho com elementos, instrumentos e metodologias que possam direcionar esse aprendizado.

Trabalhamos a profissionalização desse corpo de jovens, através da formação, mas também da própria prática dentro do Favela Revela.

ODC – Como você classificaria o público do Favela Revela?

Natureza França – O público do Favela Revela é esse povo todo, jovens que integram o projeto, a comunidade em si que não é a comunidade, são as comunidades, que hoje o Favela Revela está em Salvador e no Rio de Janeiro, com pessoas que integram o projeto diretamente, mas nós atuamos em outros estados, através de pessoas e artistas que indicam nomes e contatos, para que possamos alcançar outros estados e países.

Nosso público é composto principalmente por pessoas de periferia ou pessoas que tenham interesse nessas temáticas, em territórios de identidade, representatividade a partir de território, de raça, de gênero e de classe.  Pessoas que estão e vivem na periferia ou que acreditam na potência de nossos territórios.

ODC – Considerando que o Favela Revela tem seu público-alvo na juventude das periferias, e que mobiliza pessoas de faixas etárias, classes sociais e territórios diversos, nos fale mais de como isso impacta na dinâmica territorial.

Natureza França – O impacto que o Favela Revela promove na dinâmica territorial é inicialmente o do protagonismo e representatividade, porque o jovem que está no Favela Revela, seja produzindo conteúdo, seja aquele que está na capa do nosso quadro Do Lado de Cá, por exemplo, esses jovens estão ali, sendo revelados, promovidos por essa plataforma que é também promovida por elas e eles.

Isso vai movimentando e mostrando para cada território, para cada jovem que, muitas vezes estão ali sem muitas perspectivas, dizendo “olha, fulana foi por esse caminho, olha que legal onde ela está agora”.  As vezes não está chegando dinheiro ainda, a pessoa ainda não está conseguindo promover bem o seu trabalho, porque não é fácil, mas só o fato dela estar ali, de ter algum veículo de comunicação que produziu um conteúdo sobre ela, isso é protagonismo e representatividade.

ODC – Você afirmou na live que o objetivo maior é investir para a diminuição das desigualdades históricas – raça, gênero e classe- e, cita a atuação das mulheres, especialmente na manutenção da vida, nesse espaço que é a periferia. Quais as ações do Favela Revela contribuem para a valorização da mulher no território?

Natureza França – As ações do Favela Revela, pensando na valorização da mulher está, especialmente no olhar atento da equipe. Inicialmente, nós dialogamos essencialmente no feminino, trazendo a sutileza, mesmo que o grupo seja composto também por meninos, buscamos sempre falar no feminino, fazer esse diálogo dentro da iniciativa. Além disso, cuidamos para que as nossas postagens, publicações e ações sejam equilibradas, para que a mulher, a mulher preta, a mulher indígena – essa que temos cada vez mais buscado uma aproximação para ela, estejam ali representadas.

Entre junho e julho de 2021, apresentamos a série Personalidades que inspiram e nela escolhemos apresentar apenas um homem. Ainda temos muitas demandas e desafios pela frente, estamos em processo de formação e capacitação da equipe, bem como estruturando as diferentes áreas que compõem o Favela Revela, mas o protagonismo feminino está sempre presente nos nossos diálogos e encontros de embasamento teórico, trazendo falas, os pensamentos e a presença histórica e fundamental da mulher em nossa sociedade.

ODC – Poderia nos explicar melhor sobre como a arte e a cultura influenciam para o fortalecimento da autoestima, e autonomia da comunidade?

Natureza França – O acesso à cultura e à história contribuem para o sentimento de pertença da juventude por seus territórios, através de informação e do diálogo vêm a consciência de que existe poder, valorização, beleza e força dentro da comunidade. Se esperarmos que a notícia seja sempre de fora para dentro, sempre ouviremos o que está lá, estampado nos jornais, que é a violência. E nós sabemos que dentro das comunidades essa não é a maior e tão pouco a única realidade.

Falando em números, o percentual de pessoas que estão envolvidas com o tráfico dentro de uma comunidade, isso é pequeno, não é grande, mas a mídia em si, insiste em nos colocar nesse lugar de violência, como se tivesse sempre uma arma apontada para nossa cabeça, o que não é verdade. Então, quando expressamos a cultura e arte presentes no território e, ainda assim, quando propomos a criação artística, estamos propondo liberdade de expressar a própria história, propondo que essa juventude que acessa o conhecimento, a cultura, possa reconhecer, criar e publicizar suas narrativas, inspirando outras pessoas.

A arte permite que a gente tenha liberdade para criar as nossas próprias narrativas a partir das nossas próprias histórias. Por isso que é tão importante que os educadores e educadoras que atuam com juventudes de periferia, sejam crias das periferias, isso é muito importante para mim, porque por mais que você tenha uma pesquisa de mestrado e doutorado voltados para a periferia tem coisas que você só vai entender se vivenciar, se você for atravessada, se fizer parte do organismo da periferia.

ODC – Como o Favela Revela, se articula em rede? E o que significa essa articulação numa perspectiva de transformação das realidades em que o projeto se insere?

Natureza França – Nos articulamos com coletivos e iniciativas que estão fora e dentro da academia, muitas pessoas vêm da minha rede de contatos e da rede de contatos dos próprios jovens. Fizemos uma viagem de intercâmbio para o Rio de Janeiro e, encontramos grupos e iniciativas de territórios periféricos que estão ali movimentando, mobilizando e promovendo ações e conhecimentos dentro desses territórios.

A articulação em rede apresenta possibilidades e viabilidade às coisas que fazemos. No entanto, como somos uma iniciativa que é novinha e está passando por esse processo de estruturação e não tem um amparo financeiro mensal, que não tem recursos, então vamos caminhando com passos mais lentos do que se tivéssemos recursos financeiros. Mesmo assim, nos articulamos e promovemos trocas, conhecimento e práticas e saberes com outras iniciativas como com o Observatório da Diversidade Cultural, com o Rede ao Redor, com o Observatório das Favelas, Guiadas Urbanas, a Pontos Diversos.

ODC – Numa perspectiva mais globalizada como avalia a articulação e mobilização das diferentes iniciativas artístico-culturais desenvolvidas nas periferias do nosso país?

Natureza França – Para mim essa perspectiva de globalização só se sustenta se for embasada em contextos locais. Em 2020 fui convidada pelo Professor Carlos Bomfim a mediar em conjunto com outras pessoas, a facilitar encontros da componente curricular Tópicos Especiais em Cultura, do Bacharelado Interdisciplinar do Instituto de Humanidades, Artes e Ciência da Universidade Federal da Bahia. Aberta ao público externo, participaram jovens representantes de grupos culturais de Salvador. Com o tema A Periferia é o Centro essa jornada diz muito para e sobre nós, pois apesar de usarmos bastante o termo periferia, sabemos que é daqui que estamos vivendo, registrando e promovendo nossas narrativas, que falam sobre nós e que ninguém em outro lugar terá propriedade, mandiga ou traquejo para promover.

O protagonismo da juventude da periferia é uma reparação histórica que estamos declarando porque todo mundo já entendeu que não existe linguagem ou contexto para falar que se sustente sem a nossa presença. Não temos mais tempo ou condição para manter a falácia de uma suposta verdade sobre nós, narrada por um olhar estrangeiro que, na real, nada diz sobre nós.

Pensando na questão de tecnologias, de informação, de redes e do acesso que, essa amplitude globalizada, esse universo da globalização traz para nós, a jovem tem o celular na mão, tem as tecnologias, elas e eles acessam, aprendem, tem coisa que precisa do recurso financeiro, mas o que não precisa, o que requer recurso intelectual, a galera dá conta e tira de letra, assim fácil, sabe. Tendo o caminho, o cenário, as possibilidades, os aportes necessários, a favela dão conta.

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