Imagem: Marcelo Camargo / Agência Brasil (Banco de imagens público e gratuito)
Dia 22 de agosto é denominado o Dia do Folclore. Oficializado em 1965, em plena Ditadura Militar, pelo General Humberto Castelo Branco e por seu Ministro da Educação Flávio Suplicy de Lacerda, por meio do Decreto nº 56.747, o objetivo original era “assegurar a mais ampla proteção as manifestações da criação popular, não só estimulado sua investigação – estudo, como ainda defendendo a sobrevivência dos seus folguedos e artes, como elo valioso da continuidade tradicional brasileira.” Entretanto, a realidade se mostrou mais complexa e desafiadora, resultando na necessidade de revisões conceituais contínuas sobre a pertinência do conceito e, especialmente, a construção de uma visão crítica sobre o lugar das culturas populares e tradicionais na sociedade brasileira.
Referência importante na compreensão das tradições, mas considerado um modelo insuficiente de abordagem, o debate sobre o folclore suscita ainda uma forte crítica à ineficiência das políticas públicas para a proteção e promoção, das expressões tradicionais da cultura brasileira. Segundo José Cesar Gnaccarini, professor da USP, podemos definir folclore da seguinte forma:
0 objeto do folclore enquanto disciplina humanística é o de desvelar os significados da tradição para os indivíduos e os grupos de uma dada civilização, como o fizeram, por exemplo, Mário de Andrade e Amadeu Amaral, iluminando e desenvolvendo, com instrumentos formais apropriados e particularmente por meio de uma rica experimentação formal, estilos de pensamento, de sensibilidade artística e de juízo moral produzidos em condições de contato pessoal e transmissão oral na vida grupal. Se estas condições são, modo geral, próprias das camadas populares, estes produtos não deixam de exprimir o intercâmbio continuado e ativo entre as várias camadas e classes de uma sociedade complexa. (GNACCARINI, José Cesar, FOLCLORE E CONSCIENCIA NACIONAL: A VISÃO CRÍTICA DE FLORESTAN FERNANDES, Revista USP n. 5, 1987)
Apagamento e identidade
No início do ano, a plataforma de streaming Netflix lançou o seriado “Cidade Invisível”, que aborda o folclore brasileiro e suas lendas e crenças nativas. Porém, a série gerou controvérsia pela falta de representatividade indígena, tanto nos bastidores, quanto no elenco.
A socióloga e pesquisadora nas áreas de relações étnico-raciais e encarceramento indígena, Lai Munihin, criticou a plataforma de streaming dizendo que “se quisessem ter feito isso bem feito, teriam contratado indígenas para toda a parte de produção de roteiro, enredo, para além da questão de escolha de atores”. Ela não foi a única a se pronunciar. Entre vários outros, Fabrício Titiah, ativista da tribo Pataxó HãHãHãe, exaltou a produção, mas apontou os erros. “É uma grande produção nacional, uma pena que erraram. Faltou estudar mais e ser respeitoso. Eu e outros parentes podemos contar a história que realmente representa as tradições originárias, a representatividade já começa aí”.
Para contribuir com a compreensão mais atual e crítica sobre o folclore em diferentes perspectivas, o Observatório da Diversidade Cultural recomenda algumas leituras.
A Coleção Primeiros Passos da Editora Brasiliense, trouxe em 1982, uma importante contribuição do antropólogo e professor da UNICAMP, Carlos Rodrigues Brandão, abordando sob a ótica da Antropologia as possibilidades e limites do termo e a potência das culturas tradicionais e identitárias. No livro O QUE É FOLCLORE, Brandão busca responder às seguintes questões: “O que estuda e a que se liga o folclore? Maneiras curiosas e pitorescas de o povo ser, criar, cantar e dançar? Ou o próprio significado da cultura, através do trabalho criativo dos muitos tipos de povos de cada era da história, de cada sociedade? Quais as diferenças entre o folclórico e o popular? O que uma cultura diz através do folclore? A função do pesquisador do fato folclórico é justamente buscar compreender o próprio sentido dos significados da cultura. Do homem e seu mundo, portanto”. A obra continua sendo editada e disponível para aquisição.
Para compreender o pensamento e as contribuições essenciais que Mario de Andrade e Luís da Câmara Cascudo trouxeram para o tratamento da cultura folclórica como elemento fundamental de uma identidade nacional, o livro CÂMARA CASCUDO E MÁRIO DE ANDRADE: CARTAS 1924-1944, organizado por Marcos Antonio de Moraes e publicado em 2010 configura-se como rico material histórico.
AS DUAS FACES DA TRADIÇÃO. O CLÁSSICO E O POPULAR NA MODERNIDADE LATINO AMERICANA, escrito pelo antropólogo e professor da UNB José Jorge de Carvalho. Escrito em 1987 e publicado em 1991, o texto mantém-se muito atual na medida em que convida quem o lê a refletir sobre a questão da tradição e seu lugar na cultura contemporânea.
Outro texto interessante e esclarecedor é CULTURA POPULAR: DO FOLCLORE AO PATRIMÔNIO, do antropólogo e professor da UFF Gilmar Rocha. Em seu texto, publicado em 2009, analisa 3 possibilidades conceituais e históricas de se estudar as culturas populares: a sociologia do folclore, a ideologia política da cultura popular e a antropologia do patrimônio.
Em o CONCEITO DE FOLCLORE, de Roberto Benjamin, ex-professor da UFRPE e falecido em 2013, um sucinto, claro e convincente panorama das transformações acadêmicas e institucionais no que se refere à concepção e abordagem sobre o folclore é apresentado. Já em TRADIÇÃO E TRADUÇÃO DE SABERES PERFORMÁTICOS NAS UNIVERSIDADES BRASILEIRAS, escrito por Luciana Hartmann, José Jorge de Carvalho, Renata de Lima Silva e Joana Abreu, e publicado em 2019, seus autores refletem sobre “a inserção de saberes das tradições populares – especialmente no que tange a práticas expressivas/performáticas que integram música, dança, teatro e vestimentas tradicionais– nas universidades brasileiras”, com especial ênfase nas experiências pelo projeto Encontro de Saberes, iniciado na Universidade de Brasília, que inclui mestres e mestras da cultura popular a atuarem como professores.
Boa leitura!!!
CHAMADA PARA PUBLICAÇÃO Revista Observatório da Diversidade Cultural, volume 104, nº 01/2026 Diversidade Cultural e Ação Comunitária: possibilidades, experiências e desafios Período para submissão: 09 de março a 04 de maio de 2026 A Revista do Observatório da Diversidade Cultural convida pesquisadoras(es), gestoras(es) culturais, educadoras(es), artistas, estudantes, lideranças comunitárias e integrantes de coletivos culturais […]
O Observatório da Diversidade Cultural, por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte, patrocínio do Instituto Unimed, realiza o ciclo de formação GESTÃO CULTURAL PARA LIDERANÇAS COMUNITÁRIAS. Período de realização: 10, 17 e 24 de outubro de 2024 Horário: Encontros online às quintas-feiras, de 19 às 21h00 Carga horária total: 6 […]