Foto: Marcelo Paix茫o (https://ihateflash.net/)
Ao longo do m锚s de maio, o ODC realizou uma programa莽茫o dedicada 脿 Diversidade Cultural, que contou com uma s茅rie de conversas ao vivo na Plataforma Youtube. A primeira delas, realizada no dia 04 de maio, teve como tema a contribui莽茫o da cultura para os Objetivos de Desenvolvimento Sustent谩vel (ODS) da Dimens茫o Social da Agenda 2030 das Na莽玫es Unidas. Um dos projetos convidados foi o grupo de Teatro N贸s do Morro, representado na ocasi茫o por Luciano Vidigal. Antes disso, no dia 23 de mar莽o de 2021, foi realizada (pela ferramenta Google Meet) a seguinte entrevista com Guti Fraga(1), fundador do grupo, e as integrantes Luciana Bezerra e Tatiana Delfina, da qual tamb茅m participou Ester Moreira, ex-integrante do grupo.
Qual a trajet贸ria do Grupo N贸s do Morro?
Guti Fraga – Quando fundei o N贸s do Morro, n茫o queria simplesmente um grupo de teatro no Vidigal, mas um grupo de teatro com filosofia de vida, pensando no coletivo que chamamos N贸s, nas ideias multiplicadoras. Da mesma forma que voc锚 tem oportunidade, pode passar para outras pessoas. H谩 o princ铆pio cultural, respeito hier谩rquico, essa coisa toda. O N贸s do Morro foi fundado em 1986, com o Luiz Paulo, meu querido amigo, o Fred Pinheiro, que j谩 se foi, e o Fernando Melo, que j谩 se foi. Foram dois amigos que estiveram conosco o tempo inteiro e sempre acreditaram na ideia. A gente vem passando por v谩rios momentos de dificuldade, momentos bons, momentos lindos. Acho que o melhor momento foi quando tivemos o primeiro patroc铆nio da Petrobras, n茫o como grupo social, mas como grupo sociocultural. Foi quando come莽amos a dar um salto maior, que foi n茫o fazer temporada s贸 no Vidigal. Fizemos a primeira temporada no teatro Laura Alvim, em Ipanema (Rio de Janeiro).聽
Eu trabalhava com pessoas maravilhosas. Trabalhei com Domingos Oliveira e, depois, com Mar铆lia P锚ra, por cinco anos. Foi justamente quando estava com Mar铆lia P锚ra em Nova Iorque, que deu esse “click” na minha vida. Em Nova Iorque eu vi, realmente, o acesso que as pessoas tinham a tudo, principalmente a artes pl谩sticas, teatro. Em salas pequenininhas, em que cabiam dez pessoas, havia um teatro. Comecei a ver essa possibilidade. Era off, off. Todo mundo ia para a Broadway. Eu s贸 ia para off, off. Eu queria ver a 鈥渘egada local鈥. Foi isso que me estimulou a fundar o N贸s do Morro. Vim de l谩 decidido. Quando entrei no avi茫o, falei com Fred Pinheiro, que era iluminador da Mar铆lia P锚ra, e perguntei se ele topava me dar uma for莽a se eu fundasse um projeto de teatro no Vidigal. Est谩vamos sem grana e paramos tudo. Sabe aquela coisa? Voc锚 luta a vida toda para ter uma vida bacana, viver por meio da arte e, de repente, larga tudo e volta 脿 estaca zero. Mas n茫o abri m茫o. Foi assim que come莽amos. Agrade莽o aos produtores de elenco da Globo porque eles me chamavam e eu n茫o podia ser contratado, mas falava: “preciso pagar meu aluguel”. Eles me chamavam para uma participa莽茫o. Assim foi vindo, os meninos foram crescendo, crescendo, crescendo. De brincadeira, passaram-se 35 anos.聽
S茫o v谩rios divisores de 谩gua no N贸s do Morro. Um momento muito importante foi quando fizemos Cidade de Deus [filme de 2002, dirigido por Fernando Meirelles e K谩tia Lund]. Eu fiz a prepara莽茫o b谩sica do Cidade de Deus. A Luciana Bezerra e o Luciano Vidigal foram meus parceiros, os assistentes que sa铆ram pelo Rio de Janeiro inteiro, atr谩s de n茫o atores, de atores, de pessoas da periferia. Ficamos com eles durante tr锚s meses. Desses tr锚s meses surgiu o elenco de Cidade de Deus. O tempo inteiro, durante esse tempo todo, brigamos contra o estere贸tipo. 脡 sempre o estere贸tipo: 茅 um grupo de teatro de favela. N茫o, 茅 o aprendizado di谩rio. Fomos criando essa universalidade com v谩rios instrumentos.聽
Tivemos um momento muito bacana com a聽Rosane聽Svartman, antes da funda莽茫o do N煤cleo de Cinema do N贸s do Morro, quando fizemos parceria com o Chapit么, um projeto de Lisboa (Portugal). Juntamos jovens da Alemanha, Fran莽a, Portugal e Col么mbia. Fal谩vamos sobre estere贸tipos. Fizemos um filme chamado Outros olhares, outras vozes. Esses jovens vieram para o Rio, ficaram conosco no Vidigal. Fizemos 70% do filme no Rio e 30% em Lisboa. Isso quebra barreiras incr铆veis. Outro grande divisor de 谩guas foi uma parceria que fizemos com a Royal Shakespeare Company. Foi quando conhecemos a Cicely Berry, diretora de voz da Royal Shakespeare, que tamb茅m j谩 faleceu. Era uma mulher maravilhosa, um g锚nio. Houve uma mostra de obras completas de Shakespeare e somente dois pa铆ses foram convidados a entrar. Um deles foi o Brasil. O N贸s do Morro representou o pa铆s com Two Gentlemen of Verona [Dois Cavalheiros de Verona]. A Tatiana tamb茅m estava nessa viagem. Foi muito importante ficar um m锚s em Stratford, onde a economia da cidade 茅 teatro, n茫o 茅 televis茫o, n茫o 茅 cinema, 茅 teatro. Foi importante ficar com a Cicely, que adotou a todos n贸s como filhos. Foi uma coisa muito linda. Aprendemos muitos costumes. J谩 t铆nhamos esse crit茅rio filos贸fico, mas l谩, ent茫o: 7h n茫o s茫o 7h01. Depois fizemos o Barbican tamb茅m. Foi muito importante. O Zuenir Ventura estava l谩. Um dia, est谩vamos no Barbican e a Mar铆lia Furac茫o, uma atriz que trabalha como diarista justamente para poder fazer teatro, de repente, veio 脿 coxia, chorando, contando: “A dona Clotilde est谩 a铆!”. Era sua ex-patroa, que tinha mudado para Nova Iorque, ficou sabendo da pe莽a e foi para Londres nos assistir. Tem umas hist贸rias de pirar mesmo!
Por que o N贸s do Morro foi fundado no Vidigal?
Guti Fraga – Eu nasci em Mato Grosso, na terra de Vanessa da Matta, em uma cidade chamada Alto Gar莽as. Fui morar em Goi芒nia com dez anos. Minha fam铆lia era muito pobre. Nessa 茅poca, a sociedade era muito bonita em rela莽茫o 脿 educa莽茫o. Praticamente n茫o existiam escolas particulares. Ent茫o, a sociedade se encontrava dentro da escola. A maioria dos meus amigos eram ricos. Eu era paup茅rrimo. 脌s vezes eu ia de bicicleta, passava por um lugar que era s贸 mato, chorava de medo. Chegava em casa e o almo莽o era uma farofa de ora-pr贸-nobis. S贸 que tinha um amigo, o Guilherme, cujo av么 foi o primeiro prefeito de Goi芒nia. Sua m茫e era dona da 煤nica escola de etiqueta que havia l谩. O L茅o 茅 meu amigo, irm茫o de f茅 at茅 hoje, mora no Rio, tem a Casa da Feijoada em Ipanema. Eles sempre foram de classe alta e eu era paup茅rrimo. N贸s nunca tivemos diferen莽as. Essas coisas todas me fortaleceram, seguiram meus intuitos, meus sentimentos, meus 铆mpetos.聽
L谩 em Goi芒nia, eu comecei a fazer teatro com Hugo Zorzetti, que se foi tamb茅m no ano passado. Era um cara maravilhoso. Ele tinha uma kombi, uma rotunda e tr锚s refletores. N贸s 铆amos de cidade em cidade, par谩vamos, acamp谩vamos, dorm铆amos dentro da kombi mesmo. Tent谩vamos ganhar uma merreca para chegar 脿 pr贸xima cidade. Assim foi minha vida de teatro em Goi芒nia. Houve um festival no Paran谩, em Curitiba, e n贸s fomos. Fomos tamb茅m ao festival em Ouro Preto (Minas Gerais). Foi onde minha cabe莽a mudou. O trio era formado por Guilherme, L茅o e Nadir de Castro. Nadir de Castro era filha de uma esquerdista. Eu n茫o entendia nada de pol铆tica. Quando estava no Festival de Ouro Preto, a Nadir me ligou, falando que havia surgido a oportunidade de ir para Moscou, e perguntou se eu queria ir. Falei: “脡 tudo o que eu quero!” Imagina! O ber莽o do teatro. N贸s acredit谩vamos naquilo tudo. S贸 que, quando voltei para Goi芒nia, dan莽ou. Rolou outra possibilidade: o irm茫o dela ia morar na Argentina. Falei: “Eu quero ir”. Mas n茫o tinha como. Minha m茫e era pobre, meu pai tamb茅m. Eles fizeram o que n茫o tinham para me ajudar. Eu fui morar na Argentina e foi lind茫o. Morei primeiro em C贸rdoba, depois fui morar em Mendon莽a. Eu fazia medicina de manh茫, agronomia 脿 tarde e teatro 脿 noite.聽
Teve o golpe da Isabelita e tive que voltar para Goi芒nia. Casei-me com a Gal, que era uma parceirona tamb茅m. Fomos para o Rio, moramos um m锚s em Copacabana, mas um amigo meu falava do Vidigal. Alugamos um apartamento no Vidigal, em um duplex que havia l谩. Era uma 茅poca maravilhosa. A Gal Costa morava no subsolo desse pr茅dio. O Danilo Caymmi… todo mundo morava por ali. Comecei minha rela莽茫o com o Vidigal assim. Fui fazer jornalismo da UFRJ. Mas minha vida j谩 era Vidigal. S贸 sa铆a para ir ao teatro, para ver a Escola de Teatro Martins Pena. Em 1980, eu me formei. Pensava em um jornalismo diferenciado. N茫o acreditava no jornalismo de censura, gostava da liberdade de escrever. Eu e uma amiga chamada Helena Carone fizemos uma mat茅ria para o jornal O Pasquim. Nessa 茅poca, eu j谩 tinha tido uma atitude rebelde: n茫o colei grau at茅 hoje. Eu queria, quando chamassem o meu nome, falar uma poesia de Drummond: “Precisamos descobrir o Brasil, escondido atr谩s das florestas, com 谩guas do rio no meio, o Brasil est谩 dormindo…” N茫o deixaram e n茫o colei grau.聽
Fiz a mat茅ria para O Pasquim quando o Papa esteve no Brasil pela primeira vez. No Vidigal, eu j谩 tinha um jornal chamado O Mural. Foi nessa 茅poca que conheci o Luiz Paulo, que me ajudava e escrevia tudo muito bem. T铆nhamos murais na comunidade. Faz铆amos no carbono e preg谩vamos nos lugares. O Paulo fez uma mat茅ria muito importante, que falava assim: “por que n茫o cal莽ar o caminho para as senhoras lavadeiras com lata d’谩gua na cabe莽a e cal莽ar para o papa?”. Eu me lembro at茅 hoje do t铆tulo da minha mat茅ria para O Pasquim: “O Papa nas Bocas”. Ele passava na frente de duas bocas para chegar 脿 capela. O Vidigal ficou acordado a noite toda, esperando o Papa. Viramos a noite no Bar do Celeste e fomos esperar o Papa 脿s 7h da manh茫. Chegou o Papa pela primeira vez. O Papa usava Landau. Eu me lembro: “L谩 vem ele no seu Landau”. A mat茅ria come莽ava assim. Quando o Papa chegou, o Vidigal inteiro se emocionou. N贸s voltamos ao Celeste, ao barraco, para tomar a “saideira”. Quando estava tomando a saideira, vi um carro parado. Quando falei “Celeste, me d谩 a saideira”, veio um cara, bateu no meu ombro. Olhei e ele falou: “Isso aqui 茅 para voc锚, jornalista鈥. Me deu um soco na cara. Quando ele foi pegar o rev贸lver, eu sa铆 correndo. Havia uma escada. Eu fiquei umas quatro horas escondido atr谩s de uma caixa d’谩gua, at茅 eles desistirem. Falei: “N茫o quero escrever mais nada na minha vida. S贸 quero continuar com o teatro”. Assim foi com o teatro. Comecei a trabalhar com o Domingos Oliveira. Ele me apresentou a Mar铆lia P锚ra. S茫o Paulo-Rio entrou na minha vida. O Brasil inteiro entrou na minha vida. Fui parar em Nova Iorque e aconteceu essa “chave” de que falei. Est谩 contado.
Como o N贸s do Morro atua na comunidade e contribui para a dimens茫o social dos ODS?
Luciana Bezerra: Eu tive a possibilidade de escrever um livro que se chama Meu destino era o N贸s do Morro [Editora Hunter Books, 2012]. Foi uma provoca莽茫o feita por Helo铆sa Buarque de Holanda聽a v谩rios jovens, que naquele momento j谩 eram adultos, mas que eram provenientes de grupos sociais, como N贸s do Morro e CUFA [Central 脷nica de Favelas], entre outros. O Marcus Vin铆cius Faustini tamb茅m faz um trabalho nessa edi莽茫o. 脡 um trabalho memor谩vel, que se chama Guia Afetivo da Periferia [Editora Aeroplano, 2009]. Helo铆sa Buarque de Holanda聽faz uma provoca莽茫o e pergunta: “Quem 茅 esse jovem?” “Que tipo de jovem procura o N贸s do Morro?” “Que tipo de jovem em especial fica no N贸s do Morro?” “Quem s茫o esses que est茫o se tornando artistas?” Eu investigava a mim e a meus amigos, tentando responder. Mas o que mais tenho de respostas 茅 que n茫o tinha a ver s贸 com esse jovem. Tinha a ver tamb茅m com quem angariava esses jovens. Eu digo em agradecimento aos meus mestres do N贸s do Morro o quanto o Guti 茅, realmente, um pescador de homens, de almas, de pessoas que ele percebe que possam dividir esse sonho. Isso foi muito especial dentro da sua trajet贸ria. Um a莽oitador de sonhos. Quer dizer, o tempo inteiro, a partir do momento que voc锚 se torna um colaborador dessa figura ou um integrante do N贸s do Morro, voc锚 tamb茅m 茅 impulsionado loucamente a acreditar nas coisas que bota na cabe莽a, a acreditar que 茅 poss铆vel. Acho que, por tr谩s de toda ideia, o que o teatro mais nos ensinou e mais nos emprestou foi no 芒mbito da vida.聽
Primeiro, fui uma plateia N贸s do Morro, em 1987, quando o grupo surgiu e trouxe 脿 tona seu primeiro espet谩culo, que se chama Encontros. Foi um espet谩culo de extrema import芒ncia para uma gera莽茫o inteira que vivia no Vidigal naquele momento e que se viu da noite para o dia. Aquele grupo trabalhava em sil锚ncio dentro do teatro h谩 mais ou menos um ano, at茅 que surgiu o espet谩culo. Para n贸s, mudou tudo. Nunca t铆nhamos ido ao teatro e, de repente, havia um teatro que mostrava a vida da nossa comunidade com uma vis茫o cr铆tica: isso 茅 teatro, n茫o 茅 simplesmente uma reprodu莽茫o da vida. N贸s nos v铆amos, nos reconhec铆amos nele. Eu reconhecia a Dona Maria. Eu j谩 ajudei minha amiga a fugir do col茅gio 脿 noite. Ela estava namorando e fui l谩 avisar: “Sua m茫e veio te buscar, corre, pula o muro, vai por tr谩s. Vamos falar para ela que voc锚 j谩 foi”. Eram situa莽玫es que aquela gera莽茫o estava vivendo, presenciando no palco. Isso foi muito importante. Foi empoderador. A partir da铆, acho que come莽a no Vidigal uma semente muito forte. Mas quem est谩 l谩? Os obstinados. Foram muitos anos sem patroc铆nio. Em 1998, o N贸s do Morro fez seu primeiro ensaio de patroc铆nio. A prefeitura deu uma pequena verba para que lev谩ssemos o repert贸rio ao Lauro Alvim. N贸s levamos o espet谩culo Machadiando, que j谩 era premiado, sem nenhuma verba. Levamos o Abalou,聽que j谩 era premiado. Tinha ficado dois anos e meio em cartaz dentro do Vidigal, trazendo pessoas de fora. Isso tamb茅m 茅 uma for莽a muito grande dos territ贸rios culturais. O N贸s do Morro alcan莽ou para o Vidigal essa liberdade do territ贸rio cultural. Eu tenho medo de ir 脿 favela, mas ao N贸s do Morro eu posso ir. 脡 liberado. Assim como depois veio a CUFA, veio o Afro Reggae, veio a Temporada de Curtas, as maravilhas que o territ贸rio da cultura criou em muitos lugares, os o谩sis da cultura.聽
A situa莽茫o n茫o mudou muito em compara莽茫o com o que o Guti descrevia no jornal O Mural quando ele dizia “o Papa nas bocas”. Eu moro no Beco do Papa. Fa莽o o trajeto da rampa at茅 a capela do Papa, que existe at茅 hoje, 茅 hist贸rica. J谩 quiseram derrubar, j谩 quiseram transformar em pouso, em posto policial, em tudo… Mas, sem o olhar cat贸lico, s贸 com o olhar hist贸rico, eu acho que ela precisa permanecer ali porque tamb茅m faz parte. A vinda do Papa para o Vidigal foi muito mais do que s贸 uma vinda do Papa. Ela 茅 o selo de perman锚ncia da favela, que brigava h谩 anos com uma remo莽茫o. Existia uma articula莽茫o pol铆tica, uma articula莽茫o tamb茅m da pastoral de favelas. 脡 um marco. At茅 hoje, passamos por duas bocas como o Papa passou. At茅 hoje n贸s brincamos ali. Tem um filme que eu adoro, que se chama Duas vezes mulher [1986], de Eunice Gutman. Eu descobri agora. 脡 um filme que se passa no Vidigal. S茫o duas mulheres vidigalenses, que falam sobre a constru莽茫o do Vidigal. Estamos em 1985, a favela j谩 existia h谩 anos. O Papa j谩 havia vindo aqui h谩 cinco anos. Mas elas falam basicamente da constru莽茫o de uma pequena pavimenta莽茫o em um trecho de escada e beco que era barro puro, um barro vermelho. Quando chove n茫o tem como subir, n茫o tem como descer. As pessoas subiam na corda. Isso em 1985. Todo mundo j谩 usava jeans, j谩 havia telefone. J谩 havia computador no mundo! Isso n茫o mudou muito. As mudan莽as urban铆sticas, as mudan莽as sociais, todas essas coisas, s茫o muito lentas.聽
Ent茫o, o que sobra? Sobra a arte, sobra o sonho, sobra projetar o tempo inteiro um futuro. N茫o 茅 projetar no sentido de ficar parado e falar: “o futuro…”. N茫o, 茅 no sentido do fazer. Eu acho que vou chegar a um ponto muito N贸s do Morro, que 茅 um bem e um mal, como institui莽茫o. 脌s vezes, esperamos pouco para fazer coisas. Isso nos mete em encrencas financeiras. Quando voc锚 tem tempo, voc锚 pode planejar, voc锚 pode captar um projeto por dez anos, segurando seu valor. N贸s n茫o temos tempo, n贸s temos urg锚ncia sempre. Voc锚 v锚: nasce da urg锚ncia do Guti de ver que ao redor existia a Off-Off-Broadway, mas nada estava acontecendo. A partir da铆, nasce um pouco em n贸s tamb茅m esse sentido da arte de urg锚ncia, da arte de necessidade. 脌s vezes essa arte se atropela tamb茅m. Acho que, por isso, foi tanto tempo, foi de 1986 a 1989, sem ver uma grana. Em 1995, j谩 construindo um teatro.
Quando o poder p煤blico chega 脿 favela, o Vidigal tem um teatro. Foi feito pelo N贸s do Morro. 脡 mantido pelo N贸s do Morro, embora tenha 35 anos de trabalho de cultura e educa莽茫o dentro deste territ贸rio. Ainda assim, n茫o veio o prefeito, n茫o veio o governador, n茫o veio ningu茅m nos dar o teatro, nem mesmo dizer: “Vamos dar um ‘upgrade’ neste e vamos fazer voc锚s terem um ‘puta’ teatro”. Voc锚 percebe tamb茅m que o terreno 茅 bem 谩rido. Ningu茅m est谩 a fim de regar aqui. Somos muito rent谩veis para o tipo de governo que temos, o tipo de engrenagem, sendo bem anti-imperialista. Para qu锚? Vou fazer essas pessoas atravessarem os muros intelectualmente para qu锚?聽
Qual a rela莽茫o entre o N贸s do Morro e os movimentos sociais, culturais e art铆sticos no Brasil?聽
Ester Moreira: Acho que uma primeira rela莽茫o vem pelo Guti, que continua circulando por esses off, off do Rio de Janeiro. De uma maneira geral, pelo menos no Rio de Janeiro, o N贸s do Morro 茅 praticamente o primeiro grupo a se formar com essas caracter铆sticas. Por muito tempo ele foi 煤nico, mesmo que tenham surgido outros grupos. O que lhe d谩 essa caracter铆stica 煤nica? O fato de ser um movimento de periferia. 脡 um grupo art铆stico que se forma numa comunidade que 茅 considerada perif茅rica. Ainda que fique no cora莽茫o da Zona Sul do Rio de Janeiro, por uma quest茫o social, 茅 considerada perif茅rica. O grupo 茅 fundado e forma as pessoas da sua comunidade. Depois surgem outros grupos, inspirados na pr贸pria experi锚ncia do N贸s do Morro, mas muitas vezes constitu铆dos por pessoas externas 脿s comunidades, que v茫o para essas comunidades com algum tipo de trabalho que acham que seja importante. Vou dar um exemplo. A Eliana Souza e Silva e seu marido, Jailson de Souza e Silva, s茫o da comunidade da Mar茅, v茫o estudar na UFRJ, tornam-se intelectuais e fundam um projeto dentro da sua comunidade, que come莽a como Observat贸rio das Favelas e, depois, tem uma dimens茫o maior, tem v谩rios projetos dentro de outros projetos. Por exemplo, o projeto de dan莽a foi um grupo de bailarinos da Zona Sul do Rio de Janeiro que levou para l谩, em parceria com o Jailson e a Eliana. H谩 v谩rios outros exemplos de projetos art铆sticos, sociais e socioculturais que v茫o para as comunidades como uma a莽茫o de fora para dentro. Eu acho que a principal caracter铆stica que distingue o N贸s do Morro desde o seu nascimento 茅 que ele 茅 fundado e formado e at茅 hoje 茅 da comunidade, 茅 feito por pessoas da comunidade, para a comunidade. O objetivo 茅 dar acesso 脿 arte para a comunidade, com qualidade, como diz o Guti.
Outro aspecto 茅: do in铆cio a meados nos anos 1990, quando j谩 n茫o h谩 o governo militar, come莽a a redemocratiza莽茫o, a sociedade come莽a a se reorganizar. At茅 ent茫o, a sociedade civil estava totalmente abafada, n茫o podia haver grupos de mais de 3, 4, 5 ou 6 pessoas andando nas ruas porque iam presos. Com a redemocratiza莽茫o, a sociedade civil come莽a a se reorganizar e come莽am a surgir as famosas Ongs [Organiza莽玫es n茫o Governamentais]. No Brasil, o processo 茅 bastante lento.聽Mas come莽am esses movimentos sociais e de luta de categoria, movimento negro… O Guti acaba tendo rela莽茫o com essas pessoas. Como ele 茅 “o” N贸s do Morro, o fundador e a imagem do N贸s do Morro, acaba tendo esse v铆nculo. Depois, voc锚 tem essa gera莽茫o que come莽a e cresce dentro do N贸s do Morro e vai ampliando esses v铆nculos com outros grupos, com outros processos, com outros projetos, que v茫o se misturando. O N贸s do Morro vai estabelecendo essa rela莽茫o e participando, de alguma forma, de projetos maiores, encontrando-se com esses outros ativistas da arte, da cultura e da sociedade. O Ponto de Cultura 茅 uma dessas janelas [O N贸s do Morro 茅 um dos primeiros Pontos de Cultura do Brasil].聽
Guti Fraga – O Ponto de Cultura, para mim, foi uma das maiores revolu莽玫es que aconteceram, independentemente do partido, do governo. Foi um olhar para o Brasil de ponta a ponta. N茫o foram privilegiados do Rio de Janeiro, da favela, de S茫o Paulo, da perifa… N茫o, foi o Brasil inteiro. Abriu-se uma oportunidade globalizada dentro do Brasil atrav茅s dos Pontos de Cultura. Tenho muito orgulho de ver o quanto todo mundo tem o direito e a necessidade desse acesso. Acho que o Ponto de Cultura foi isso, um olhar com a lente buscando em toda parte do Brasil. Quando estava na Funarte [Guti Fraga foi Presidente da Funarte entre 2013 e 2015] e viajava, o que mais me encantava era ver a qualidade art铆stica e cultural nos lugares. A qualidade no Amazonas 茅 t茫o grande quanto a de S茫o Paulo ou a do Rio. N贸s nos fechamos no local. Acho que o Ponto de Cultura foi isso: ele abriu tudo isso. J谩 a Lei Aldir Blanc, para mim, foi o respirar de uma possibilidade dentro do nada. O momento que estamos vivendo 茅 t茫o dif铆cil na vida. Como resistir nas pequenas coisas? Como resistir? Eu acho que veio para dar uma pequena possibilidade de respiro. N茫o posso negar o quanto isso tem sido importante para tantos projetos. 脡 um respirar, pequeninho, mas j谩 vale a pena: “Tudo vale a pena se a alma n茫o 茅 pequena鈥. “H谩 metaf铆sica bastante em n茫o pensar em nada. Que penso eu da vida? Se adoecesse, pensaria nisso”. [Cita莽玫es de Fernando Pessoa]
ODC 鈥 Para al茅m da forma莽茫o art铆stica, o projeto estimula uma transforma莽茫o pol铆tica nos jovens que participam? [pergunta formulada e respondida durante a live(2)]
Luciano Vidigal 鈥 Certamente. O N贸s do Morro 茅 um instrumento transformador 鈥 e tenho muito orgulho de falar isso. Quando eu era crian莽a eu n茫o entendia por que eu tinha que trabalhar muito para ajudar minha m茫e, e as diferen莽as e complexidades sociais que eu encontrava ao lado de onde eu morava, no Leblon, bairro do Rio de Janeiro. Eu costumo dizer que a arte, com o poder que ela tem, heroico, me fez enxergar o mundo. Antes eu via o mundo, hoje em dia eu enxergo o mundo, eu entendo a profundidade dessas diferen莽as. Ela me instigou a isso, a debater, a questionar e a subverter 鈥 adoro esta palavra! E como subverter isso? Usamos a arte como est铆mulo. Tamb茅m gostamos muito de refor莽ar que o N贸s do Morro faz um trabalho em parceria com a educa莽茫o. 脡 muito importante a gente estar junto com a educa莽茫o, com um est铆mulo 谩rduo 脿 leitura, com o est铆mulo para que as escolas venham ao teatro… Al茅m disso, a nossa diretora atual, Luciana Bezerra, que tem um trabalho muito bonito no cinema e no teatro, desenvolve tamb茅m um trabalho de feminismo exemplar, trabalha essa consci锚ncia sobre causas muito importantes hoje no Brasil, que 茅 o da refer锚ncia de uma mulher preta que tem um olhar muito importante para a forma莽茫o, e que promove tamb茅m a consci锚ncia sobre a quest茫o do racismo e do necess谩rio combate ao racismo estrutural que existe em nosso pa铆s.
Para saber mais sobre o grupo N贸s do Morro, acesse: https://grupo-nos-do-morrooficial.negocio.site/聽
(1)聽Parte desta entrevista foi extra铆da da pesquisa 鈥淧oetas em tempos de pen煤ria: Investiga莽玫es sobre a articula莽茫o em rede de artistas e profissionais da cultura para a elabora莽茫o de pol铆ticas p煤blicas para o setor鈥, realizada na C谩tedra Olavo Setubal de Arte Cultura e Ci锚ncia (parceria do Instituto de Estudos Avan莽ados da Universidade de S茫o Paulo 鈥 IEA/USP com o Ita煤 Cultural), durante a titularidade do Prof. Dr. N茅stor Garc铆a Canclini (2020/2021), que investiga 鈥淎 Institucionalidade da Cultura no Contexto Atual de Mudan莽as Socioculturais”.
(2) Link da live Cultura e Desenvolvimento Sustent谩vel – Dimens茫o Social: https://www.youtube.com/watch?v=MQZmUaM-hso&t=13s聽
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O Observat贸rio da Diversidade Cultural, por meio da Lei Municipal de Incentivo 脿 Cultura de Belo Horizonte, patroc铆nio do Instituto Unimed, realiza o ciclo de forma莽茫o GEST脙O CULTURAL PARA LIDERAN脟AS COMUNIT脕RIAS. Per铆odo de realiza莽茫o: 10, 17 e 24 de outubro de 2024 Hor谩rio: Encontros online 脿s quintas-feiras, de 19 脿s 21h00 Carga hor谩ria total: 6 […]