Por Maria Fernanda Schofield
Quando pensamos em debates globais sobre as mudanças climáticas, a dimensão cultural raramente aparece como primeira referência. Pensamos nos “Objetos”, no próprio clima em si. Mas a Cultura é fundamental para compreender tanto os impactos quanto as possíveis soluções para a crise climática que vivenciamos na atualidade. Isso ficou ainda mais evidente nas últimas semanas, durante a 30ª edição da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, a COP 30, realizada no Brasil.
A cultura define nossa relação com a natureza, ela orienta o que consideramos valioso, como entendemos o mundo e de que forma nos relacionamos com o ambiente que nos cerca. Quando se fala em preservação, crise climática e regeneração, não podemos ignorar como diferentes sociedades e grupos sociais possuem formas diferentes de perceber e agir sobre o território e a natureza. Diferentes modelos de produção de bens e serviços e as consequentes diferenças culturais influenciam diretamente a facilidade, ou a dificuldade, de adotar práticas sustentáveis. Daí a necessidade de se constituir pactos globais que considerem as especificidades culturais e econômicas, mas que unam todos em torno de consensos para salvar o planeta e impactem efetivamente no dia a dia.
Um exemplo marcante são os povos indígenas, cuja relação com a natureza não se baseia apenas em critérios econômicos, mas em uma visão que reconhece a interdependência entre a vida humana e a natureza. A terra, para eles, é um espaço de vida, memória, espiritualidade e identidade. Paradoxalmente, os povos tradicionais e especialmente, os grupos sociais em situação de vulnerabilidade, são aqueles que melhor cuidam do planeta, mas são também os que sofrem as piores consequências da crise climática que vivemos. Diversas sociedades e culturas dependem diretamente do clima para sua existência. O desequilíbrio ambiental e as ameaças da crise climática, como longas secas, enchentes, furacões e outros eventos extremos, colocam em risco comunidades inteiras e histórias únicas.
Modos de produção não sustentáveis orientam comportamentos e hábitos de consumo igualmente devastadores da saúde do planeta e das pessoas. Todos os hábitos do nosso cotidiano – a forma como nos alimentamos, como nos deslocamos, como nos relacionamos com os objetos e com o tempo – são práticas moldadas econômica e culturalmente. Uma discussão climática eficaz precisa considerar esses comportamentos nas diferentes sociedades, uma vez que mudanças reais exigem transformações nos modelos de produção e nas práticas de consumo, nos valores e nos estilos de vida. Apenas alterar leis não garante as transformações necessárias. É indispensável que ocorram mudanças profundas de posturas pessoais e institucionais, capazes de sustentar práticas mais sustentáveis no curto, médio e longo prazo.
Desse modo, se não é possível estabelecer uma solução universal que se aplique normativa e uniformemente a todas as culturas, é necessário e urgente que o pacto global assegure compromissos políticos, econômicos e éticos universais. As políticas públicas voltadas à proteção e regeneração do meio ambiente precisam dialogar com tradições, realidades locais e as inovações necessárias para que existam respostas plurais e eficazes à crise climática.
É essencial destacar o papel da cultura como plataforma fundamental de mobilização nos debates climáticos. Por meio de manifestações artísticas, profissionais ou amadoras e de memória constrói-se engajamento e consciência sobre o tema, tanto para as gerações mais jovens quanto para as mais antigas. A cultura é, portanto, uma das principais forças de sensibilização social frente à crise climática.
A realização da COP30 em Belém transformou a Amazônia em um palco cultural. A capital do Pará, não foi escolhida por acaso. A cidade foi selecionada como forma de colocar a Amazônia no centro do debate global sobre o clima. Sua localização geográfica destaca, no cenário internacional, a riqueza ambiental e cultural brasileira, representada ali pela cultura Amazônica, elemento fundamental da identidade nacional.
Além disso, a realização do debate na região Amazônica evidencia que as discussões sobre o clima não podem permanecer centralizadas nas nações ocidentais ricas, precisam ser deslocadas para outros centros, enquanto outras partes do mundo também enfrentam de forma intensa os impactos das mudanças climáticas. É fundamental que esse debate seja ampliado, incorporando as diversidades de culturas e realidades, para que se construam soluções mais justas e eficazes.
Dentro da própria Conferência, representantes do Ministério da Cultura do Brasil (MinC) participaram de diversas atividades voltadas ao papel da cultura na ação climática global. O MinC tem assumido um importante papel no esforço global de integração entre cultura e clima, sendo a inclusão da temática cultural na Agenda da COP30 um dos frutos desse protagonismo.
A Agenda do Ministério buscou pautar a cultura como fator de resiliência e de uma nova forma de pensar as nossas cidades, centradas nas pessoas e em seus modos de vida. Dentre as diversas programações, destacaram-se plenárias que reuniram artistas e ativistas climáticos globais para discutirem o papel de todas as artes, da música, do cinema e das narrativas culturais como instrumentos de transformação e de promoção de futuros climáticos resilientes. Além disso, as atividades realizadas durante a Conferência buscaram articular políticas e iniciativas culturais com medidas concretas de enfrentamento às mudanças climáticas. A Diversidade Biocultural trata da relação da diversidade de expressões culturais com a forma com a qual indivíduos e povos lidam com a biodiversidade. Assim, a COP30 serve para lembrar que a promoção da diversidade biocultural é condição básica para a superação da crise climática.
CHAMADA PARA PUBLICAÇÃO Revista Observatório da Diversidade Cultural, volume 104, nº 01/2026 Diversidade Cultural e Ação Comunitária: possibilidades, experiências e desafios Período para submissão: 09 de março a 04 de maio de 2026 A Revista do Observatório da Diversidade Cultural convida pesquisadoras(es), gestoras(es) culturais, educadoras(es), artistas, estudantes, lideranças comunitárias e integrantes de coletivos culturais […]
O Observatório da Diversidade Cultural, por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte, patrocínio do Instituto Unimed, realiza o ciclo de formação GESTÃO CULTURAL PARA LIDERANÇAS COMUNITÁRIAS. Período de realização: 10, 17 e 24 de outubro de 2024 Horário: Encontros online às quintas-feiras, de 19 às 21h00 Carga horária total: 6 […]