REPRODU脟脙O: O Joio e O Trigo
Por Fl谩via Schiochet
Foto: ISA/Enciclop茅dia dos alimentos yanomami (san枚ma) – Peixe assado na folha, banana verde assada e beiju com pimenta em p贸
Imagine uma mesa de caf茅 da manh茫. Qualquer que seja a composi莽茫o desta refei莽茫o na sua cabe莽a, 茅 certo que ele estar谩 l谩: o caf茅. A naturalidade com que o brasileiro encara uma x铆cara para come莽ar o dia 茅 uma constru莽茫o hist贸rica. Como toda tradi莽茫o, 茅 o resultado da repeti莽茫o ao longo dos tempos, que traz a sensa莽茫o de que essa 茅 n茫o s贸 uma escolha inata, como tamb茅m a mais adequada a esse tipo de refei莽茫o e momento do dia. A resposta varia de acordo com a cultura alimentar de cada um 鈥 um indiano diria que 茅 o ch谩 preto com especiarias; um chin锚s optaria por ch谩 verde.
Esse exemplo, ainda que gen茅rico, 茅 um bom exerc铆cio para compreender as diferen莽as culturais ligadas 脿 alimenta莽茫o. Quanto mais se aproxima a lupa da mesa da nossa popula莽茫o, mais particularidades se encontram: p茫o, banana-da-terra, mandioca, cuscuz ou tapioca podem ser as bases. Ovo, geleia, fruta fresca, lingui莽a ou queijo podem ser os complementos. 鈥淣o Cear谩, o caf茅 da manh茫 gen茅rico 茅 caf茅, leite, cuscuz com sal, queijo coalho ou carne de sol. A menos de 500 quil么metros daqui, ainda na regi茫o Nordeste, o pernambucano come de manh茫 inhame, carne guisada e macaxeira鈥, exemplifica a antrop贸loga Vanessa Moreira, coordenadora do Laborat贸rio de Cria莽茫o em Cultura Alimentar e Gastronomia da Escola de Gastronomia Social Ivens Dias Branco, em Fortaleza.
O jeito que se come 茅 uma caracter铆stica t茫o complexa quanto o desenvolvimento de uma l铆ngua, segundo o historiador da alimenta莽茫o Massimo Montanari. Assim como as l铆nguas e dialetos evoluem e se transformam, as formas de produzir alimentos, prepar谩-los e consumi-los tamb茅m. Manter operante essa variedade de conhecimentos ligados 脿 comida 茅 uma forma de manter viva a cultura de um povo. E o Brasil tem m煤ltiplas culturas alimentares.
鈥淎 cultura 茅 o produto da capacidade sem igual de cria莽茫o e de transmiss茫o de conhecimentos do Homo sapiens. A alimenta莽茫o humana, portanto, 茅 antes de tudo um ato cultural, o que quer dizer diverso, associado a diferentes formas de conceber o mundo鈥, define Paulo Eduardo Moruzzi Marques, professor de Socioantropologia da Alimenta莽茫o da Universidade de S茫o Paulo (USP).
A partir de recursos naturais dispon铆veis, conhecimentos compartilhados e necessidades, os grupos humanos constru铆ram estrat茅gias para produzir e consumir alimentos, criando significados e padr玫es 鈥 em outras palavras, identidade. Quando se dificulta ou se retira de um sujeito o acesso a alimentos que ele reconhece como comida, 茅 tamb茅m sua humanidade que est谩 sendo negada. Por isso, n茫o se mata a fome com uma ra莽茫o, como a farinata proposta por Jo茫o D贸ria em 2017.
鈥淨uando se toma a cultura alimentar como orienta莽茫o para a a莽茫o pol铆tica, a inten莽茫o consiste em valorizar a diversidade cultural em torno da alimenta莽茫o, diante de tend锚ncias homogeneizantes impostas por interesses econ么micos poderosos鈥, completa Moruzzi Marques.
Minist茅rio da Cultura sem cultura alimentar
Apesar de conter a palavra 鈥渃ultura鈥, o conceito de cultura alimentar 茅 mais encontrado em debates e pol铆ticas p煤blicas da 谩rea de seguran莽a alimentar e nutricional do que nas pol铆ticas culturais brasileiras. Na 谩rea cultural, tem prevalecido outro termo: 鈥済astronomia鈥. Embora seja uma parcela da cultura alimentar, a gastronomia est谩 intrinsecamente ligada 脿 economia e 脿 comercializa莽茫o de produtos.
脡 por isso que, desde o primeiro momento, a luta de v谩rios movimentos da sociedade civil tem sido promover o conceito de cultura alimentar e reduzir a participa莽茫o da gastronomia em espa莽os de discuss茫o de pol铆ticas culturais. 鈥淨uando falamos de cultura alimentar, n茫o estamos falando da dimens茫o econ么mica e do trabalho como dimens玫es priorit谩rias. Estamos falando de cultura como dimens茫o priorit谩ria鈥, frisa Tain谩 Marajoara, cozinheira e fundadora do Ponto de Cultura Alimentar Iacitat谩, em Bel茅m, Par谩.
Essa luta teve um primeiro ponto alto em 2013, durante a 3陋 Confer锚ncia Nacional de Cultura (CNC). No modelo de participa莽茫o social brasileiro, as confer锚ncias s茫o o 谩pice: 茅 nelas que s茫o definidas as diretrizes pelas quais os agentes pol铆ticos devem se pautar nos pr贸ximos anos. Tain谩, em conjunto com outras pessoas, apresentou uma mo莽茫o no encontro solicitando que, dali pra frente, o termo 鈥済astronomia鈥 fosse substitu铆do por 鈥渃ultura alimentar鈥, e que fosse inclu铆do no Conselho Nacional de Pol铆tica Cultural (CNPC) um setorial, ou seja, um grupo de representantes da 谩rea. Os participantes da confer锚ncia aprovaram a mudan莽a, e a cultura alimentar passou a ser um tema do conselho.
O CNPC, criado em 1992, 茅 um 贸rg茫o colegiado do Minist茅rio da Cultura que se re煤ne a cada tr锚s meses. Composto por representantes de diversas linguagens art铆sticas e patrim么nios culturais 鈥 como teatro, dan莽a, museus, chamados de setoriais 鈥 al茅m de membros do poder p煤blico, o conselho serve como um espa莽o onde a sociedade civil orienta as a莽玫es do minist茅rio, analisa editais, al茅m de formular recomenda莽玫es e propostas para diretrizes e programas de governo. O CNPC tamb茅m 茅 respons谩vel por criar planos com estrat茅gias espec铆ficas para cada 谩rea cultural, e o Plano Nacional de Cultura (PNC), atualizado a cada dez anos para definir as metas e prioridades das pol铆ticas culturais do pa铆s.
A participa莽茫o social nas pol铆ticas federais foi praticamente extinta pelo governo Bolsonaro em 2019, quando o MinC foi rebaixado 脿 Secretaria Especial da Cultura. Foi nesta mudan莽a que o Conselho Nacional de Pol铆tica Cultural foi eliminado, e os representantes da sociedade civil ficaram sem espa莽o de articula莽茫o junto ao governo.
Bolsonaro tamb茅m dissolveu o Conselho de Seguran莽a Alimentar e Nutricional (Consea), ligado 脿 Presid锚ncia da Rep煤blica, no qual a diversidade cultural alimentar era uma pauta trazida pela sociedade civil. Em 2023, as atividades do Consea, assim como o MinC, foram retomadas pelo governo Lula.
A expectativa dos movimentos sociais era que o MinC retomasse a composi莽茫o do conselho com todos os setoriais que estavam em opera莽茫o at茅 sua extin莽茫o, mas a escolha do minist茅rio foi a estaca zero: por meio de uma portaria em mar莽o de 2023, o CNPC foi restitu铆do na sua vers茫o sem representantes da sociedade civil e o 贸rg茫o colegiado est谩 passando por um processo de reestrutura莽茫o a partir de reuni玫es com conselheiros de cultura estaduais.
Em novembro de 2023, a Confer锚ncia Livre Nacional de Seguran莽a Alimentar e Nutricional sobre Cultura Alimentar, ligada ao Consea, teve a presen莽a da secret谩ria de Comit锚s de Cultura, Roberta Martins, que sinalizou que organizaria uma reuni茫o sobre cultura alimentar junto 脿 ministra Margareth Menezes. Segundo Tain谩 Marajoara, em um ano, o MinC nunca os recebeu. O MinC n茫o respondeu sobre esta quest茫o at茅 o fechamento desta reportagem.
E a铆 a sociedade civil voltou a bater na tecla: a mesma solicita莽茫o de substitui莽茫o da gastronomia por cultura alimentar foi feita por Tain谩 Marajoara, Socorro Almeida e Sulamita Santos com a mo莽茫o 46 na 4陋 CNC, em mar莽o de 2024.
鈥淥 Minist茅rio da Cultura tem uma resist锚ncia ao termo 鈥榗ultura alimentar鈥 e 脿 complexidade que ele abrange. Entendemos isso como racismo estrutural, uma vez que 茅 defendido por mulheres de povos origin谩rios e negras鈥 diz Tain谩, citando que a luta pela cultura alimentar 茅 protagonizada por lideran莽as como Edna Marajoara e a m茫e Rita Santos, da Associa莽茫o Nacional das Baianas de Acaraj茅.
鈥淨uando esse minist茅rio assume e retoma os processos [interrompidos no governo Bolsonaro], reduz o significado do conceito de cultura alimentar, apartando-o da gastronomia. Isso abre brechas para pr谩ticas que n茫o t锚m a dimens茫o cultural como priorit谩ria sejam pass铆veis de serem contempladas pelos editais鈥, aponta Tain谩. Como exemplo, ela citou a categoria Gastronomia/Alimenta莽茫o, do Edital Escolas Livres de Forma莽茫o em Arte e Cultura do Programa Olhos d鈥櫭乬ua, lan莽ado pelo MinC em agosto de 2023.
O documento n茫o cita nem define cultura alimentar e, da forma como foi redigido, a categoria permite a inscri莽茫o e aprova莽茫o de iniciativas sem teor cultural. Em nota, o MinC respondeu que tem 鈥渁 linha de atua莽茫o cultura alimentar que aponta para as 鈥榩r谩ticas educativas na 谩rea de gastronomia e alimenta莽茫o’鈥. A cita莽茫o 茅 parte do descritivo da categoria Gastronomia/Alimenta莽茫o, que n茫o menciona em momento algum cultura alimentar.
A falta de conceitua莽茫o de cultura alimentar em um edital como o do Programa Olhos d鈥櫭乬ua 茅 um sintoma de que a cultura alimentar 茅 vista como algo distinto da gastronomia, e que se expressaria em grupos espec铆ficos, quando na verdade ela permeia a alimenta莽茫o de todos os seres humanos. Em pol铆ticas culturais, a gastronomia precisa estar atrelada ao saber-fazer de um grupo, seguindo um entendimento antropol贸gico da cultura, ou seja, reconhecendo que a culin谩ria vai al茅m do ato de cozinhar e inclui tradi莽玫es, hist贸rias e identidades compartilhadas.
Desse ponto de vista, a cozinha do imigrante italiano na Serra Ga煤cha poderia ser enquadrada como gastronomia, mas antes de ser algo comercializado, 茅 uma tradi莽茫o ligada ao territ贸rio. Um festival de cozinha de imigrantes italianos, portanto, poderia ser realizado no Sul do pa铆s, mas estaria descontextualizado em uma regi茫o como o Norte. Esta 茅 a principal quest茫o apontada por Tain谩 Marajoara: quando o edital cita apenas o termo gastronomia, os crit茅rios para sele莽茫o dos projetos ficam mais frouxos, e propostas puramente comerciais podem se valer da brecha.
Caso o Conselho Nacional de Pol铆ticas Culturais tivesse sido restitu铆do com os setoriais, esse edital (e outros documentos) poderiam ter sido revisados e discutidos pelos representantes de cultura alimentar. Teria sido poss铆vel, por exemplo, propor a mudan莽a de nome da categoria e a reda莽茫o de uma defini莽茫o mais espec铆fica.
A exce莽茫o, na an谩lise de Tain谩, 茅 o entendimento e defini莽玫es de cultura alimentar pela Secretaria da Cidadania e Diversidade Cultural. A partir da Lei Cultura Viva, a secretaria reconhece e incentiva espa莽os e iniciativas ligados 脿 manuten莽茫o da cultura alimentar, como o financiamento de projetos que preservam receitas e pr谩ticas culin谩rias ancestrais.
脡 poss铆vel pensar que categorias como Cultura dos Povos Ind铆genas, Culturas Populares e Express玫es Art铆sticas Culturais Afro-Brasileiras trazem, intrinsecamente, o conceito de cultura alimentar 鈥 o que n茫o deixa de ser verdade. Mas elas n茫o exaurem a diversidade de culturas do Brasil. O conceito, por ser interdisciplinar, precisa ser discutido em diferentes inst芒ncias para basear pol铆ticas de 谩reas distintas para que se complementem e se reforcem. E a铆 a participa莽茫o popular 茅 fundamental.
鈥溍 num setorial de cultura alimentar em um conselho de cultura que vai ter a participa莽茫o desses povos em coletivos: ind铆genas, quilombolas, pescadores, povo de terreiro, ribeirinhos, ciganos. Todos se unem para discutir estrat茅gias e apresentar a莽玫es e sugest玫es para o minist茅rio, para que eles apreendam o patrim么nio alimentar brasileiro. 脡 necess谩rio ampliar os setoriais de cultura alimentar dentro do MinC, do Minist茅rio da Educa莽茫o, do Desenvolvimento Agr谩rio, em que as sementes crioulas e estrat茅gias alimentares de resgate e de salvaguarda s茫o parte dessa forma de fazer agricultura鈥, exemplifica agricultor e pesquisador ind铆gena Mateus Trememb茅, membro do Conselho Estadual de Pol铆tica Cultural do Cear谩 no assento de Gastronomia e da Cultura Alimentar.
Fortalecimento na 谩rea de seguran莽a alimentar e nutricional
A fome e inani莽茫o dos Yanomami, no in铆cio de 2023, 茅 um exemplo de como a cultura alimentar de povos origin谩rios corre mais riscos em momentos de crise. Como a莽茫o emergencial, o Minist茅rio de Desenvolvimento Social (MDS) fez uma compra de cestas b谩sicas cuja composi莽茫o foi listada em nota t茅cnica pela Funai e pela Secretaria Especial de Sa煤de Ind铆gena do Minist茅rio da Sa煤de (Sesai). Mesmo que o documento recomendasse alimentos que fazem parte da cultura alimentar Yanomami, a dificuldade foi encontrar fornecedores de prote铆nas adequadas.
Resultado: charque e sardinha em lata foram as op莽玫es. 鈥淥 charque foi uma p茅ssima escolha, a sardinha em lata teve menos rejei莽茫o. Esses alimentos estavam longe de serem os ideais para a popula莽茫o, mas era para resolver a emerg锚ncia鈥, relembra Lilian Rahal, titular da Secretaria Nacional de Seguran莽a Alimentar e Nutricional (Sesan).
O MDS recebeu uma s茅rie de cr铆ticas pela falta de contexto dos produtos. Os Yanomami s茫o ca莽adores e agricultores e, sem a possibilidade de plantar, pescar e ca莽ar at茅 se restabelecerem, eles ter茫o de receber cestas b谩sicas para sua alimenta莽茫o. 鈥溍 dif铆cil comprar mil cestas de cada tipo de composi莽茫o porque h谩 muitos produtos que n茫o t锚m escala para atender a uma grande compra. Logo em seguida, come莽amos a nos organizar para prover o que as pessoas precisam para recuperar sua capacidade produtiva, produzir os grupos alimentares que consomem via agricultura, pesca e ca莽a鈥, completa a secret谩ria.
A partir do Programa de Aquisi莽茫o de Alimentos (PAA) ind铆gena, a Sesan espera ter uma rede de fornecedores mais adequada para as pr贸ximas ocasi玫es e, segundo Rahal, um grupo da secretaria est谩 sistematizando os sistemas alimentares ind铆genas para tom谩-los como refer锚ncia para novas pol铆ticas p煤blicas.
Mesmo com percal莽os como o envio de charque para o povo Yanomami, o conceito de cultura alimentar aparece com mais nitidez e como balizador de pol铆ticas p煤blicas no Minist茅rio do Desenvolvimento Social (MDS), via Sistema Integrado de Seguran莽a Alimentar e Nutricional (Sisan). 鈥淒urante minha pesquisa de mestrado [em 2017], observei como a cultura alimentar vinha sendo levantada e aprofundada muito mais pelos militantes, ativistas e representantes governamentais de diversas 谩reas ligadas 脿 alimenta莽茫o no 芒mbito de pol铆ticas de seguran莽a alimentar e nutricional, e n茫o em pol铆ticas culturais鈥, conta Gabriella Pieroni, diretora da Associa莽茫o Slow Food do Brasil, mestre em preserva莽茫o do patrim么nio cultural pelo Instituto do Patrim么nio Hist贸rico e Art铆stico Nacional (Iphan) e doutoranda em gest茫o da cultura e do patrim么nio na Universidade de Barcelona.
Ainda que n茫o contenha a express茫o cultura alimentar, a ideia est谩 difundida na lei que cria o Sisan 鈥 o conceito de seguran莽a alimentar e nutricional 茅 fundamentado pelo respeito 脿 diversidade cultural e pelo direito 脿 alimenta莽茫o adequada. A legisla莽茫o 茅 considerada um arcabou莽o que protege as diferentes express玫es alimentares do Brasil, e essa foi a base para a recente defini莽茫o da nova cesta b谩sica, sem ultraprocessados e com uma proposta de respeito 脿s culturas alimentares.
鈥淥 processo de amplia莽茫o da participa莽茫o popular na formula莽茫o de pol铆ticas p煤blicas abriu espa莽o para que outros saberes e conhecimentos sejam inclu铆dos nas defini莽玫es. Voc锚 abre espa莽o para trazer aspectos culturais ligados 脿 forma de produzir alimenta莽茫o, de pensar a vida e o mundo鈥, analisa Juliana Casemiro, professora do Instituto de Nutri莽茫o da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, conselheira do Consea representando o F贸rum Brasileiro de Soberania e Seguran莽a Alimentar.
A experi锚ncia do Cear谩
Uma discuss茫o dentro da Secretaria da Juventude do Cear谩 (SEJUV) sobre como profissionalizar jovens em condi莽玫es socioecon么micas vulner谩veis resultou na cria莽茫o de uma escola p煤blica de gastronomia. 鈥淎 ideia inicial era construir uma pol铆tica p煤blica que desse oportunidade em uma linguagem que fizesse brilhar o olho. A juventude 茅 a fase mais criativa e produtiva do ser humano, e por isso muitas vezes criam coisas extraordin谩rias em moda, tecnologia e gastronomia鈥, recorda Selene Penaforte, que esteve na assessoria da SEJUV 脿 茅poca. A Escola de Gastronomia Social Ivens Dias Branco (constru铆da pelo Grupo M. Dias Branco, detentor de marcas de ultraprocessados, que tamb茅m doou o terreno e equipamentos ao governo do Cear谩) foi inaugurada em 2018 como uma primeira experi锚ncia dessa pol铆tica p煤blica, ligada 脿 Secretaria da Cultura.
Uma das atividades da Escola 茅 o Laborat贸rio de Cria莽茫o em Cultura Alimentar e Gastronomia, que est谩 em sua s茅tima edi莽茫o e j谩 fomentou 24 projetos de pesquisa, muitos em territ贸rios de povos e comunidades tradicionais no Cear谩, como a cria莽茫o de um sorvete usando mandioca da comunidade quilombola Concei莽茫o dos Caetanos, e a sistematiza莽茫o do processo tradicional de produ莽茫o do 贸leo de batiput谩 do povo Trememb茅.
鈥淣ingu茅m consegue vislumbrar a forma莽茫o em gastronomia sem passar pela discuss茫o da cultura alimentar. Tem que conhecer quem planta, quem pesca, quem est谩 construindo na raiz aquilo que a gente historicamente come. Entendemos a escola de gastronomia social como um lugar que estuda e pesquisa para ajudar as pessoas a melhorar suas vidas com inova莽茫o e tecnologia social sem perder de vista a valoriza莽茫o da tradi莽茫o 鈥, diz Selene. A gastronomia, nesse entendimento, est谩 a servi莽o da manuten莽茫o da cultura alimentar, tendo espa莽o para a cria莽茫o, mas sem invisibilizar o conhecimento de uma popula莽茫o.
Alinhada 脿 ideia de considerar a cultura alimentar a base para pol铆ticas p煤blicas, em 2021, entrou em vigor no Cear谩 a Lei n潞 17.608, que institui a Pol铆tica Estadual da Gastronomia e da Cultura Alimentar. A legisla莽茫o cria um marco para desenvolvimento de pol铆ticas p煤blicas integradas e que salvaguardam a diversidade de express玫es culturais na alimenta莽茫o do estado.
A partir da铆, a Secretaria de Desenvolvimento Agr谩rio (SDA) do estado come莽ou a desenvolver invent谩rios participativos da cultura alimentar em parceria com a Associa莽茫o Slow Food do Brasil. A metodologia 茅 uma adapta莽茫o da identifica莽茫o de patrim么nio imaterial do Iphan para sistemas agr铆colas tradicionais e de cultura alimentar. O Slow Food executou dois projetos-piloto, do povo Trememb茅 e do povo Tabajara, financiados pelo Fundo Internacional de Desenvolvimento Agr谩rio. Os projetos receberam o Pr锚mio Rodrigo Melo Franco de Andrade do Iphan no ano passado. 鈥淓ssas conquistas todas est茫o dentro desse processo hist贸rico em que a sociedade civil se movimenta. Nada vem de m茫o beijada de cima para baixo, 茅 sempre a sociedade civil construindo e refletindo em pol铆ticas p煤blicas鈥, arremata Gabriella Pieroni, que presta consultoria da metodologia para a SDA.
Diversidade homog锚nea das cidades
Morar em um grande centro 茅 ser inundado pela variedade a cada esquina. 脡 poss铆vel que uma mesma pessoa tome um caf茅 da manh茫 ao estilo estadunidense, almoce uma massa italiana e jante um churrasco coreano. Compre um p茫o de fermenta莽茫o natural 脿 francesa, uma pasta de gergelim 谩rabe, um chutney indiano. Prepare um cuscuz com manteiga de garrafa, cozinhe com tucupi amaz么nico e escolha um cacho de uvas vindos de Petrolina, no sert茫o pernambucano, tudo na mesma semana, na mesma cidade.
O gosto adquirido, esse fen么meno de adapta莽茫o do paladar e constru莽茫o de prefer锚ncia por alimentos, 茅 um processo individual e bastante urbano. O acesso 脿 variedade das metr贸poles d谩 a impress茫o de que h谩 diversidade e representatividade de culturas alimentares, e que basta saber navegar para acessar cada uma delas. Mas 茅 uma fal谩cia: em cidades menores, menos cosmopolitas 鈥 como era a maior parte do Brasil quatro d茅cadas atr谩s 鈥 os restaurantes s茫o menos onipresentes no dia a dia e a oferta nos supermercados 茅 mais comedida. Padarias, feiras e mercearias s茫o os com茅rcios que abastecem a popula莽茫o com ingredientes e produtos cotidianos, e a variedade e disponibilidade sofrem influ锚ncias externas.
鈥淎 diversidade se sustenta pelo mercado local. 脡 um desafio apontar pro ser urbano como 茅 essa perda de cultura alimentar, como seria para eles perceberem. Para a gera莽茫o nova, a mem贸ria j谩 茅 do supermercado, de uma diversidade que acaba sendo igual no mundo todo: as mesmas esp茅cies de banana, de manga, de uva鈥, diz Bibi Cintr茫o, pesquisadora aut么noma na 谩rea de seguran莽a alimentar do Centro de Refer锚ncia em Soberania e Seguran莽a Alimentar e Nutricional, vinculado ao Programa de P贸s-Gradua莽茫o de Ci锚ncias Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.
Para a antrop贸loga Vanessa Moreira, a cultura alimentar n茫o 茅 assunto de especialistas: deve ser discutida nos centros urbanos diante do aumento das doen莽as cr么nicas decorrentes da alimenta莽茫o. 鈥淐om o crescimento da fome e o aumento da alimenta莽茫o industrializada, 茅 preciso que existam inst芒ncias apropriadas para essa discuss茫o. A cultura alimentar n茫o 茅 uma oposi莽茫o 脿 alimenta莽茫o industrializada, porque nessa quantidade de pessoas que temos no mundo, precisamos dessa escala, e processos de inova莽茫o na produ莽茫o s茫o importantes鈥, pontua.
A produ莽茫o local e a manuten莽茫o de uma sociobiodiversidade ativa s茫o o caminho apontado por Vanessa, ao que Bibi Cintr茫o faz coro. 鈥溍 medida que se incentiva o mercado local, com o PAA, voc锚 refor莽a a cultura local. 脌s vezes, s茫o efeitos colaterais. Quando o PNAE [Programa Nacional de Alimenta莽茫o Escolar] foi lan莽ado, o objetivo n茫o era refor莽ar a cultura local, mas fazer circular o dinheiro localmente. Por isso 茅 chamado de investimento estruturante, porque gera um ciclo positivo de fortalecimento local. E um efeito colateral foi fortalecer a cultura alimentar鈥, analisa.
O efeito colateral tamb茅m acontece por omiss茫o, como no caso da reforma agr谩ria ou da demarca莽茫o de terras de povos tradicionais. 鈥淎 principal estrat茅gia hoje para a manuten莽茫o de muitas culturas alimentares depende da demarca莽茫o de terras e territ贸rios. Os povos e comunidades tradicionais v锚m refor莽ando em suas incid锚ncias pol铆ticas que sem terra e territ贸rio n茫o existe cultura alimentar, sociobiodiversidade, patrim么nio gen茅tico, conhecimentos tradicionais associados鈥 E isso est谩 se perdendo muito r谩pido鈥, alerta Gabriella Pieroni. O Minist茅rio do Desenvolvimento Agr谩rio (MDA) n茫o retornou ao pedido de entrevista e informa莽玫es do Joio at茅 o fechamento desta reportagem.
鈥淣um pa铆s que tem a possibilidade de ter uma produ莽茫o de alimentos para exercer consumo local de forma sustent谩vel, temos diretrizes que levam para outro lugar. A possibilidade de ter a cultura alimentar como base de uma pol铆tica p煤blica reverbera nas pr谩ticas alimentares de acordo com as identidades. Pensar a cultura alimentar de forma estrat茅gica em pol铆ticas p煤blicas 茅 uma forma de adiar o fim do mundo鈥, destaca Vanessa Moreira.
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