NOTÍCIAS

Lei Rouanet cresce no Norte e Nordeste, com aumento de mais de 60% no valor captado

Em comparação a 2023, dados do Ministério da Cultura indicam que programas especiais levaram recursos a regiões historicamente menos contempladas pela Lei, assim como às periferias e aos interiores do Brasil

Por Alexandre Briozo Filho

Publicado originalmente em 20 de outubro de 2026, pelo Nonada Jornalismo.

Reprodução integral autorizada pelo Nonada Jornalismo, conforme suas normas de republicação.

Fonte: Nonada Jornalismo

Leia a publicação original: Lei Rouanet cresce no Norte e Nordeste, com aumento de mais de 60% no valor captado – Nonada Jornalismo

Foto: Victor Vec/MinC

 

Uma das principais críticas feitas à Lei Rouanet, principal lei de incentivo à cultura no Brasil, é a centralização do aporte de seus recursos na região Sudeste, notadamente no eixo Rio-São Paulo. Historicamente, as demais regiões, com destaque para o Norte, o Nordeste e o Centro-Oeste, berços de grande parte das expressões culturais do país, tiveram baixos índices de captação de recursos para projetos culturais a partir da Lei. Nos últimos anos, houve avanço no volume de recursos captados por proponentes desses territórios, com 60,7% de crescimento no Nordeste e mais de 80% no Norte. O Nonada buscou compreender quais mudanças ocorreram desde então.

Uma das novidades foi a criação dos programas especiais da Rouanet, que surgiram com o objetivo de reduzir essas desigualdades na distribuição dos recursos.  Criados entre 2023 e 2025, os programas Rouanet Norte, Rouanet Favelas e Rouanet Nordeste investiram R$69 milhões em projetos culturais de impacto social e econômico. Ao todo, os três programas contemplaram cerca de 277 projetos nessas regiões. O Rouanet Centro-Oeste, programa especial mais recente, com edital divulgado em junho deste ano, prevê o investimento de R$29 milhões em até 91 projetos culturais da região. Os dados são do Ministério da Cultura (MinC).

Desde o lançamento dos programas, o Norte, o Nordeste e o Centro-Oeste quase duplicaram a captação de recursos incentivados por empresas pela Rouanet, em comparação com os valores de 2023. O valor captado com esses projetos passou de R$64,6 milhões (em 2023) para R$119 milhões em 2026, um crescimento de 84,5%. No Nordeste, esse crescimento foi de 60,7% no mesmo período, com a captação indo de R$148,5 milhões para R$238,7 milhões. Já o Centro-Oeste registrou crescimento de 98%, com um avanço de R$65,4 milhões para R$129,6 milhões em captação.

Outro aumento resultante dos programas foi no número de projetos aprovados em cada uma das regiões. No Norte, a quantidade de projetos aprovados passou de 292 para 566, um aumento de 93,8% em relação a 2023, quando ainda não havia os programas. No Nordeste, o aumento foi de 81%, com os projetos aprovados passando de 1.265 para 2.290. No Centro-Oeste, o aumento foi de 51,5%, indo de 565 para 856 projetos aprovados. A aprovação na Rouanet, entretanto, não garante a captação dos recursos, que devem ser buscados pelos proponentes junto às empresas.

Uma reportagem publicada pelo Nonada em 2023 mostrou que a porcentagem de recursos captados e de projetos aprovados pela Rouanet nessas regiões era baixa no início dos anos 2020. Na região Sudeste, a realidade era diferente. De acordo com o Painel de Dados do Observatório Itaú Cultural, em 2021, 78% dos recursos aportados em projetos culturais via incentivo fiscal se concentraram na região. No Nordeste, essa porcentagem foi de 4,3%. No Centro-Oeste, de 2,9%. No Norte, 0,8%. À época, artistas ouvidos pelo Nonada já apontavam a necessidade da criação de mecanismos que mudassem esse cenário.

Descentralizar os recursos
Uma das iniciativas contempladas pelos programas especiais foi a mostra Xumucuís: Arte Contemporânea Digital Amazônica. Realizada em 2024, a partir do primeiro edital da Rouanet Norte, a quarta edição do projeto reuniu 14 artistas amazônicos que trabalham a arte contemporânea a partir de plataformas digitais numa exposição em Belém, no Pará. O projeto de arte digital amazônica surgiu em 2010 e foi idealizado pelo curador Ramiro Quaresma e pela museóloga Deyse Marinho.  Com um aporte financeiro de R$181 mil, o projeto também realizou intervenções multimídia em Abaetetuba e Bragança, cidades do interior do estado.

A iniciativa busca “fortalecer o circuito artístico e cultural da região e democratizar o acesso à arte digital de maneira inovadora e inclusiva”. Os trabalhos presentes reúnem múltiplas linguagens artísticas, como música, colagens , performance, teatro, audiovisual e ilustrações, explorando temas como ancestralidade, cultura popular ribeirinha, imaginário indígena e expressionismo urbano. A ideia é oferecer um “panorama vibrante e diverso da arte contemporânea digital amazônica”.

“De certa forma, a gente carece de recursos aqui na nossa região, de um modo mais potente”, explica o curador Ramiro Quaresma. Desde que surgiu o projeto, os idealizadores do Xumucuís recorrem às leis de incentivo à cultura como forma de subsistência.

“A gente está sempre na luta por editais. Na verdade, o nosso projeto é fruto apenas dos editais, da democratização desses recursos, tanto de forma estadual como federal. A gente acha que esses mecanismos são fundamentais para executar projetos na nossa região Norte. A gente já espera uma próxima edição da Rouanet Norte”, comenta o curador.

Os programas especiais da Rouanet
Em nota enviada ao Nonada, o MinC detalha essas informações e destaca que os programas são uma política de regionalização dos investimentos da Rouanet, visando a descentralização (chamada de nacionalização pelo Ministério)  desses recursos para alcançar regiões e grupos da sociedade que historicamente não tiveram acesso à Lei. Uma estratégia que “busca criar condições para a democratização do acesso ao fomento cultural, fortalecer as cadeias produtivas culturais de cada região brasileira e reduzir a concentração regional dos recursos da Lei Rouanet na região Sul-Sudeste”.

Em 2023, o programa Rouanet Norte contemplou 125 projetos com R$24 milhões em investimentos, além de uma reserva mínima de 50% dos projetos aprovados para populações historicamente sub-representadas. O Rouanet Favelas, também em 2023, apoiou 26 projetos com um investimento de R$5 milhões, direcionando recursos a iniciativas culturais desenvolvidas em favelas e periferias brasileiras. Lançada neste ano, a segunda edição do programa tem previsão de investir o dobro, R$10 milhões, em até

Para o curador Ramiro Quaresma, os programas impactam os produtores culturais da região, que enfrentam mais dificuldade para captar na modalidade geral. Foto: Divulgação/Nonada

50 projetos culturais de oito capitais diferentes, definidas no edital. A seleção recebeu um total de 587 propostas culturais de todas as regiões atendidas,  apresentando um crescimento de  100,3% em relação à primeira edição do programa, que recebeu 293 propostas em 2024.

Já o Rouanet Nordeste, cujo primeiro edital foi divulgado em agosto de 2025, apoiou 126 projetos com um investimento de R$40 milhões, com foco na seleção de proponentes iniciantes, grupos em vulnerabilidade social e manifestações culturais. Além do critério regional, “os editais também estabelecem critérios territoriais e ações afirmativas voltadas a mulheres, pessoas negras, indígenas, quilombolas, comunidades tradicionais, pessoas com deficiência, população LGBTQIA+ e outros grupos historicamente sub-representados”, completa a nota da Pasta.

Na esteira desses programas, a política de nacionalização da Rouanet também contemplou outras regiões do país. Em 2024, o Rouanet Emergencial RS destinou R$26 milhões à salvaguarda de projetos culturais impactados pelas enchentes que devastaram o estado do Rio Grande do Sul em maio daquele ano, objetivando a continuidade das atividades culturais. Em 2026, o programa Rouanet no Interior destinou R$6 milhões a iniciativas culturais de municípios de menor porte, valorizando a participação de novos proponentes, os saberes locais e as culturas populares. Foram escolhidas regiões nos interiores da Bahia, de São Paulo, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Distrito Federal.

O Rouanet Centro-Oeste, programa mais recente, com edital divulgado em junho deste ano, prevê o apoio de até 91 projetos com um investimento de R$29 milhões para iniciativas da região.

Os programas, além do financiamento, também incluem oficinas de capacitação de agentes culturais na elaboração e execução de projetos. Em termos de formação cultural, o programa Rouanet da Juventude, parceria do MinC lançado em fevereiro de 2025, investiu R$6 milhões em iniciativas de capacitação, formação artística e empreendedorismo destinadas a jovens de 15 a 29 anos das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.

O projeto Xumucuís: Arte Contemporânea Digital Amazônica, contemplado pelo programa Rouanet Norte, exibiu a produção de jovens artistas amazônidas. Foto: Divulgação/Nonada

Entraves nas periferias
Na avaliação do coordenador do Observatório Ibira 30, Allan Anjos, ainda que contribuam com a descentralização dos investimentos da Rouanet e que sejam recursos estratégicos para proponentes do Norte, do Nordeste e das favelas e periferias, ainda há mais a ser feito pela descentralização efetiva desses recursos. “Se a gente somar a Rouanet Norte, Nordeste, Juventudes e Favelas, a gente tem algo próximo de R$80 milhões, que é um valor bem significativo, mas quando distribuído entre os territórios, é um valor pequeno, insuficiente, principalmente com o montante de recursos aportados via Lei Rouanet.”

Segundo o Relatório de Impacto Econômico da Lei Rouanet divulgado no início do ano, a Lei atingiu pouco mais de R$3 bilhões em renúncia fiscal efetiva, relativa aos valores captados junto às empresas. “A gente está falando de 2,5% desse recurso total, é muito pouco, dadas as necessidades”, diz Allan.

Como associação, o Observatório Ibira 30 também se inscreve nos programas especiais da Rouanet, além de trabalhar  com capacitação para acesso a esses processos seletivos. “Enquanto estrutura, enquanto sistema, a gente tem a nossa crítica dada a proporção do recurso total. A gente entende [que esses programas] deveriam ter uma proporção muito mais significativa do orçamento geral da Lei Rouanet”, destaca Allan Anjos.

O Observatório Ibira 30 é uma iniciativa do Bloco do Beco, organização que atua há 25 anos com comunidades do Jardim Ibirapuera, periferia de São Paulo, através de atividades ligadas à cultura, como festas juninas, carnaval, oficinas de carimbó, música e dança. O observatório surgiu, em 2022, como um núcleo de pesquisa do Bloco a partir da necessidade da construção de programas com maior capacidade de atrair os moradores do território. Hoje, a iniciativa realiza pesquisas que medem, com dados, o impacto de atividades culturais, hábitos alimentares e investimento em cultura e educação.

No comparativo com outros programas especiais, o Rouanet nas Favelas 2 ocupa a quinta posição em número de inscrições de propostas, atrás do Rouanet Nordeste (2,8 mil), Rouanet Centro-Oeste (1.270), Rouanet Norte (1.074) e Rouanet da Juventude (988). Foto: Giba/MinC
Apesar da atuação consolidada no território e de estar no eixo regional que mais possui acesso aos financiamentos da Lei Rouanet, o Bloco do Beco não conseguia ser contemplado por esses recursos, “como grandes outros movimentos das periferias paulistanas também não”. O que o Observatório Ibira 30 observou, a partir da pesquisa Lei Rouanet e a Periferia, que analisou o cenário de financiamentos pela Lei em São Paulo, foi a desigualdade regional relativa ao acesso desses recursos na região. De acordo com o estudo, 88,86% dos recursos captados se concentram nas regiões centrais da cidade, enquanto 1,38% desses recursos chegaram à periferia, onde vive mais da metade da população.

“A gente entendeu que cerca de 96% desses recursos estão centralizados num raio de 5km da Avenida Paulista, do ponto de vista da captação. E todos os outros proponentes que têm o CNPJ alocado nas periferias paulistanas não acessam esse recurso”, comenta. Allan destaca que a Rouanet Favelas é um caminho possível para a descentralização desses financiamentos, mas que também é necessário um sistema de cotas para grupos sub-representados. Esse sistema já é aplicado  nas políticas de fomento direto, como a Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura.

Visando a construção de uma rede nacional para pressionar mudanças nessas normativas, o observatório encabeçou a Coalizão + Rouanet, que conta já com representantes de 11 estados da federação, buscando a descentralização ainda maior desses recursos, “seja a nível regional, seja a nível estadual ou seja dentro do seu próprio município, a nível local”. Dentre as movimentações realizadas pela Coalizão para alcançar esse objetivo, está a diminuição das barreiras existentes entre empresas e coletivos culturais através das rodadas de negócios, espaços idealizados para aproximar esses setores. Em sua carta-compromisso, a Coalizão afirma, entre outros, o objetivo de atuar para que, até 2030, no mínimo 30% dos recursos captados via Lei Rouanet sejam destinados a projetos em periferias, territórios indígenas, quilombolas, zonas rurais e de populações sub-representadas, acarretando justiça territorial e uma Rouanet antirracista.

Fonte: Lei Rouanet cresce no Norte e Nordeste, com aumento de mais de 60% no valor captado – Nonada Jornalismo

 

Deixe aqui o seu comentario

Todos os campos devem ser preenchidos. Seu e-mail não será publicado.

ACONTECE

Chamada para publicação – Revista ODC V. 104, N. 01/2026

CHAMADA PARA PUBLICAÇÃO Revista Observatório da Diversidade Cultural, volume 104, nº 01/2026 Diversidade Cultural e Ação Comunitária: possibilidades, experiências e desafios Período para submissão: 09 de março a 04 de maio de 2026   A Revista do Observatório da Diversidade Cultural convida pesquisadoras(es), gestoras(es) culturais, educadoras(es), artistas, estudantes, lideranças comunitárias e integrantes de coletivos culturais […]

CURSOS E OFICINAS

Gestão Cultural para Lideranças Comunitárias – Online

O Observatório da Diversidade Cultural, por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte, patrocínio do Instituto Unimed, realiza o ciclo de formação GESTÃO CULTURAL PARA LIDERANÇAS COMUNITÁRIAS. Período de realização: 10, 17 e 24 de outubro de 2024 Horário: Encontros online às quintas-feiras, de 19 às 21h00 Carga horária total: 6 […]

Mais cursos
https://hastenbahaiwomen.com/
https://somospqfomos.com
https://katarinabeauty.si/
https://thenytrust.org/
https://www.thisacademiclife.org/
https://edu.tizino.com/
https://dcn-dietist.nl/
https://dcn.nu/
https://cpdiq.co.uk/news/
https://clubcaddie-university.com/
https://medsocmedtac.com/about-us/
https://sakoon.com.pk/
https://bimpacc.com/
https://sabor.com/about-sabor/
https://academy.businesskul.com/
angkabet
https://dl4all.nitda.gov.ng/workshop/
https://bestowhospitals.com/
angkatoto
https://rastgar-co.com/
https://pmx.com.pk/
https://harton.be/
slot thailand
SLOT88
https://hpaoht.ca/