COLUNAS

Marabela e Tr谩gica – Coluna Alexandre Barbalho 13/08/2024

Por聽Alexandre Barbalho

Em um ponto os rios Itacai煤nas e Tocantins se encontram. Nesse territ贸rio entre margens surge Marab谩, que em Tupi significa 鈥渇ilho da mistura鈥. Uma das narrativas sobre o nome da cidade diz ele que veio do poema hom么nimo de Gon莽alves Dias: 鈥淓u vivo sozinha; ningu茅m me procura!/Acaso feitura/N茫o sou de Tup谩?/Se algum dentre os homens de mim n茫o se esconde,/鈥 Tu 茅s, me responde,鈥 Tu 茅s Marab谩!鈥 Da铆 ser conhecida como 鈥渃idade poema鈥.

Na p谩gina oficial da prefeitura na internet se l锚 que a hist贸ria da cidade tamb茅m 茅 narrada em poesia. Que o diga 鈥淓h Marab谩鈥, um dos poemas da guerrilha do Araguaia que foram publicados no jornal Resist锚ncia, em fevereiro de 1979:

Eh Marab谩

um canto rebelde a teus fuzis!

um canto global

cheirando a ar de madrugada

um canto dessa gente brasileira

de arrast茫o arrastando rede

barca莽a subindo e descendo rio

um canto de enxada e suor na terra

aboio dolente ninando a noite

um canto

dessa gente apressada das cidades

polu铆do com fuma莽a

chamin茅 e sirenes de f谩bricas

Eh Marab谩

norte, b煤ssola, bandeira

estrela da manh茫

carta de marear

o teu povo se integra em ti!

Eh Marab谩

do fundo da noite

da impot锚ncia do bra莽o

longos anos te esperamos!

Mas hoje sabemos

que o teu bra莽o de oprimido

茅 maior que o Empire State

que o clar茫o de mil napalms

devastando o matagal

Norte, b煤ssola, bandeira

estrela da manh茫

carta de marear

Eh Marab谩

Os oprimidos aprendem o caminho!

 

Marabela 茅 o que diz o grafite visto de quem vem da praia do Tucunar茅, a praia do rio Tocantins na ilha que fica em frente 脿 Marab谩 velha. Mas a beleza da cidade tem muito de tr谩gico que se expressa pelo fato de ser cortada pela Transamaz么nica, parte do projeto de 鈥渋ntegra莽茫o nacional鈥 do Regime Militar, e em seus ciclos socioecon么micos.

No Museu Municipal Francisco Coelho, nome do fundador oficial do munic铆pio, aprende-se, de forma ufanista, sobre os tais ciclos que marcaram a cidade: o ciclo da borracha extra铆da do caucho (e n茫o resta mais essa 谩rvore); o ciclo da castanha (e hoje j谩 n茫o h谩 mais castanheiras); o ciclo da minera莽茫o, que permanece at茅 hoje (e a imagem do formigueiro humano que foi Serra Pelada e o que restou dele, um imenso lago contaminado por merc煤rio, diz tudo); e o ciclo da agropecu谩ria (e a destrui莽茫o da mata nativa para virar pasto que o criat贸rio extensivo demanda, tamb茅m diz tudo).

A I Bienal das Amaz么nias, que ocorreu em Bel茅m no ano passado, come莽ou sua itiner芒ncia em vers茫o reduzida pelo espa莽o amaz么nico e a primeira parada est谩 sendo em Marab谩. Um dos trabalhos expostos, 鈥淪inergia Provis贸ria鈥, 茅 uma instala莽茫o feita com ganchos de ferro, do tipo que 茅 utilizado para pendurar as reses abatidas pelos grandes frigor铆ficos, como os que existem em Marab谩. O sudeste do Par谩 茅 a regi茫o que concentra o maior n煤mero de rebanho paraense e dos oito frigor铆ficos habilitados para exporta莽茫o um est谩 em Marab谩.

Marcone Moreira, autor da obra, nasceu em Pio XII, Maranh茫o, vive e trabalha em Marab谩. Como situa Pedro Lima, Moreira trabalha com materiais distintos e diretamente relacionados 脿 cidade. Para tanto, 鈥渃oleta peda莽os de embarca莽玫es, carrocerias de caminh玫es e outros meios de transporte, isopores de ambulantes, engradados de garrafa, telhados, todos encontrados no munic铆pio, e exp玫e esses objetos a partir da sele莽茫o de um fragmento. O resultado s茫o fragmentos de madeira, ferro e nylon, com superf铆cies irregulares, cobertas por pinturas desgastadas鈥. Ainda segundo Lima, 鈥渁o trabalhar com fragmentos dos objetos que elege, na maior parte das vezes Marcone amplia o processo de desacoplamento desses com seus usos originais. Novas informa莽玫es e sentidos s茫o incorporados, sem que se percam as informa莽玫es dos usos anteriores鈥.

A sinergia apresentada por Moreira em sua obra funciona como uma esp茅cie de s铆ntese da for莽a das commodities em Marab谩. Mateus Nunes chama aten莽茫o para o fato de que os ganchos que sustentam a carne fazem analogia 鈥渁o corpo humano perfurado, estigmatizado por pr谩ticas violentas de explora莽茫o鈥 e, ao mesmo tempo, 鈥渆ndere莽a essas quest玫es ao viver pr贸ximo a Caraj谩s, no sudeste do Par谩, onde se situa a maior mina de min茅rio de ferro do mundo鈥.

O tr谩gico 茅 que essa sinergia n茫o parece ser provis贸ria, mas bastante consolidada naquele e em outros peda莽os da Amaz么nia. Acontece que a vida e a arte continuam pulsando. Vide o document谩rio Adeus capit茫o, de Vincent Carelli e Tatiane Almeida que retrata a luta do povo ind铆gena Gavi茫o que vive na regi茫o de Marab谩 para manter sua mem贸ria e sua cultura (obrigado Cezar Migliorin e Andr茅 Brasil, por me falarem desse filme).

 

Refer锚ncias:

Ivania da Silva Pereira de Melo. Os poemas da guerrilha do Araguaia: uma po茅tica da resist锚ncia.聽Narrares Journal, v. 1, n. 2, p. 97-115.

Mateus Nunes. Rotas diasp贸ricas, rotas migrat贸rias. Dispon铆vel em https://www.sp-arte.com/editorial/rotas-diasporicas-rotas-migratorias/.

Pedro Ernesto Freitas Lima. A travessia de Marcone Moreira por estradas, rios e mem贸rias marabaenses.聽Revista Poi茅sis, v. 17, n. 28, p. 161-178, 2016.

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