O trabalho na 谩rea da cultura reflete a recorr锚ncia de situa莽玫es marcadas pela informalidade e precariza莽茫o, intermit锚ncia dos projetos e oferta pontual de editais, bem como projetos vinculados a interesses da iniciativa privada, vig锚ncia de contratos tempor谩rios, realiza莽茫o de v谩rias atividades profissionais ao mesmo tempo e aus锚ncia de prote莽茫o social. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domic铆lios Cont铆nua (PNAD Cont铆nua) mostram que em 2018 o setor ocupava mais de 5 milh玫es de pessoas, o equivalente a 5,7% do total de ocupados no pa铆s. Mais da metade eram mulheres (50,5%), pessoas de cor ou ra莽a branca (52,6%) e com menos de 40 anos de idade (54,9%).
Entre 2014 e 2018, houve redu莽茫o na propor莽茫o de empregados com carteira assinada (de 45,0% para 34,6%) e a informalidade passou de 38,3% para 45,2 Se comparado ao total das ocupa莽玫es, a pesquisa PNAD Cont铆nua (2018) aponta o maior percentual dos trabalhadores da cultura com n铆vel superior (26,9% no setor cultural ante 19,9% no total de ocupados).

Makely Ka, poeta e compositor: 鈥淭odos os dias recebemos not铆cias de grandes m煤sicos, instrumentistas e compositores em situa莽茫o de pen煤ria, a fam铆lia sem condi莽玫es de pagar seu tratamento鈥 (Cr茅dito: Marco Ant么nio Gon莽alves)
鈥淎 maioria dos trabalhadores da cultura vive na informalidade, sem garantias trabalhistas, sem qualquer tipo de seguridade social. Todos dependem u虂nica e exclusivamente de seu trabalho dia虂rio e cotidiano鈥, atesta o poeta e compositor Makely Ka. 鈥淭odos os dias recebemos not铆cias de grandes m煤sicos, instrumentistas e compositores em situa莽茫o de pen煤ria, a fam铆lia sem condi莽玫es de pagar seu tratamento鈥, afirma Makely. O autor do livro “Ego Exc锚ntrico” e do 谩lbum “Cavalo Motor” identifica a mobiliza莽茫o em torno de condi莽玫es de trabalho e garantias como maior desafio dos artistas.
鈥淭emos um hist贸rico de desmobiliza莽茫o, de desinteresse, pela pr贸pria estrutura de funcionamento do setor, que incentiva a competi莽茫o, a disputa, o individualismo鈥, completa Makely. Na luta coletiva por direitos, agentes culturais de diversos segmentos re煤nem esfor莽os no 芒mbito do F贸rum Permanente de Cultura de Minas Gerais, em prol do fortalecimento do setor e melhorias das condi莽玫es de atua莽茫o profissional. A bailarina Regina Amaral que integra o F贸rum e ocupa a posi莽茫o de titular da cadeira da Dan莽a no Conselho Estadual de Pol铆tica Cultural (Consec) destaca iniciativas que marcaram recentes posi莽玫es pol铆ticas dos trabalhadores.
Em 2019, o F贸rum repudiou, por meio de Carta Aberta, a fus茫o pastas de Cultura e Turismo. 鈥淚nfelizmente, apesar dos nossos esfor莽os, a fus茫o foi aprovada鈥, lamenta Regina, que integra ainda a C芒mara de Fomento 脿 Cultura Municipal de BH, 茅 membro fundadora do F贸rum da Dan莽a de Belo Horizonte e membro da Associa莽茫o Cultural Dan莽a Minas. Ela lembra ainda a discuss茫o da Lei 22.944/2018 que versa sobre o financiamento 脿 cultura que estipulou o percentual de 35% do valor do Incentivo Fiscal como contrapartida destinada ao Fundo Estadual de Cultura.

Regina Amaral, bailarina: 鈥淨ueremos que os recursos do Fundo Estadual de Cultura sejam aplicados em a莽玫es emergenciais para atender aos agentes culturais nesses tempos de isolamento social鈥 (Cr茅dito: Daniel Vidal)
J谩 o contingenciamento de 95,7% da verba do FEC, pelo governo estadual, motivou, 聽recentemente, a Carta Aberta 鈥淎 Cultura tem pressa鈥, assinada por centenas de entidades culturais e encaminhada ao governador Romeu Zema e aos Deputados da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). 鈥淨ueremos que os recursos do Fundo sejam aplicados em a莽玫es emergenciais para atender aos agentes culturais nesses tempos de isolamento social鈥, enfatiza Regina, referindo-se 脿s condi莽玫es adversas enfrentadas pelos trabalhadores da 谩rea em meio 脿 pandemia do COVID-19.
A rela莽茫o da classe com as esferas do Poder P煤blico, municipal, estadual e federal, sinaliza realidades distintas. 鈥淣o governo federal, n茫o h谩 sequer o Minist茅rio da Cultura. Os retrocessos s茫o in煤meros鈥. No 芒mbito estadual, a exemplo do segmento da dan莽a, considera fundamental o papel da Associa莽茫o Cultural Dan莽a Minas que promove o di谩logo com os trabalhadores, encaminhando as demandas ao Conselho Estadual de Pol铆tica Cultural. 鈥淛谩 no 芒mbito municipal estamos muito mais articulados com o poder p煤blico鈥, avalia, especificando o papel do F贸rum da Dan莽a de BH, criado em 2016, que se tornou refer锚ncia para a cria莽茫o de outros f贸runs setoriais e atualmente trabalha na elabora莽茫o do Plano Municipal Setorial e mapeamento de artistas, grupos e escolas de BH.
Escolaridade e renda
Os resultados da pesquisa 鈥Artista como trabalhador do presente: rela莽玫es entre trabalho, educa莽茫o superior e empreendedorismo鈥 (2016) contribuem para entendimento do perfil do profissional da 谩rea. Por meio da tese, a doutora e mestre em Sociologia (UFMG), Paloma Goulart, comprova a influ锚ncia do curso superior em 谩reas de forma莽茫o que envolvem conhecimentos art铆sticos (Artes; Belas Artes; M煤sica Artes C锚nicas, Audiovisual e Produ莽茫o de M铆dia; Design, Artesanato, Arquitetura) sobre a eleva莽茫o de renda, na ordem de 34,4%, em compara莽茫o com aqueles que possuem ocupa莽玫es em artes, mas que t锚m outra forma莽茫o superior n茫o art铆stica.

Tese de doutorado de Paloma Goulart atesta que deter um curso superior aumenta o rendimento de pessoas com ocupa莽玫es art铆sticas em, aproximadamente, 130,7% (Cr茅dito: arquivo pessoal)
A investiga莽茫o foi realizada com base nos dados do IBGE (2010), por meio de testes estat铆sticos com conjunto de pessoas que declararam ocupa莽玫es diversas e exclusivamente com pessoas que declararam ocupa莽玫es art铆sticas. Segundo o IBGE, total de 21,9% das pessoas que possu铆am ocupa莽玫es art铆sticas tinham curso superior. J谩 no banco geral composto por pessoas que declararam qualquer tipo de ocupa莽茫o no ano refer锚ncia, esse percentual foi de 11%.
O estudo confirmou rela莽茫o significativamente estat铆stica entre escolaridade superior e renda, ou seja, atesta que deter um curso superior aumenta o rendimento de pessoas com ocupa莽玫es art铆sticas em, aproximadamente, 130,7%. O aumento 茅 percentualmente menor em rela莽茫o ao conjunto geral de ocupa莽玫es do grupo no qual ter curso superior influencia na maior percep莽茫o de renda, em 173,4%.
A pesquisadora explica que a predomin芒ncia do exerc铆cio informal do trabalho art铆stico consiste em poss铆vel fator que condiciona a diferen莽a j谩 que, segundo dados do IBGE, os trabalhos sem carteira assinada, por conta pr贸pria, como empregador e sem remunera莽茫o correspondem a 74,9 % do conjunto. No grupo composto por ocupa莽玫es diversas, os v铆nculos trabalhistas formais correspondem 脿 metade das declara莽玫es (50%) e a outra metade relaciona-se a v铆nculos diferentes do trabalhista celetista, estatut谩rio ou militar.
A dimens茫o do empreendedorismo demonstrou impacto singular, considerando-se o fator da incerteza relacionada ao momento em que a obra est谩 acabada, aceita莽茫o das obras pelo p煤blico e exist锚ncia de oportunidades de trabalho, al茅m da baixa reserva de mercado. 鈥淯m cen谩rio que cria dificuldades para que as pessoas continuem se dedicando aos trabalhos e, ao mesmo tempo, impulsiona ao extremo a criatividade e o aprimoramento das habilidades art铆sticas鈥, observa a pesquisadora. O estudo mostra ainda que os trabalhadores residentes em regi玫es urbanas t锚m rendas acrescidas em 151%, em rela莽茫o aos que moram em regi玫es rurais.
Plano Nacional de Cultura
Ao apresentar princ铆pios, objetivos, diretrizes, estrat茅gias, a莽玫es e metas, alicer莽ados em tr锚s grandes perspectivas para abarcar a Cultura – express茫o simb贸lica, direito de cidadania e potencial para o desenvolvimento econ么mico – 聽o PNC (2010) orienta o poder p煤blico na formula莽茫o de pol铆ticas p煤blicas por 10 anos. A Doutoranda em Artes (EBA/UFMG) e Mestra em Artes C锚nicas (UFOP), bailarina e professora, L铆via Esp铆rito Santo, considera que 鈥渙 processo de elabora莽茫o e discuss茫o do Plano, a partir de 2003, foi um momento de abertura e di谩logo, de olhar para o Brasil considerando suas diversas manifesta莽玫es culturais; de incentivo e fomento ao exerc铆cio da democracia participativa e colaborativa entre entes federados e sociedade civil, atrav茅s de debates, f贸runs e consultas p煤blicas em todo o pa铆s e sob a supervis茫o do Conselho Nacional de Pol铆tica Cultural鈥.
No entanto, como avalia, o PNC 鈥渘茫o aborda, de forma efetiva e direta, uma pol铆tica potente para a cultura das artes e tamb茅m n茫o traz um marco legal para tratar das quest玫es trabalhistas nesse setor鈥. Ela exemplifica lacunas nas a莽玫es e estrat茅gias de n煤meros 4.2.4 e 4.4.1, como tratado em artigo escrito com o orientador da pesquisa sobre o tema e doutor em Comunica莽茫o e Cultura pela UFRJ, professor da PUC Minas e FAPP/UEMG, Jos茅 M谩rcio Barros, e da especialista em Gest茫o P煤blica pela FAPP/UEMG, Liliane Rosa. 鈥淎 primeira prop玫e um est铆mulo para que artistas, autores, t茅cnicos, produtores e demais trabalhadores da cultura fa莽am ades茫o a programas que ofere莽am planos de previd锚ncia p煤blica e complementar, espec铆ficos para esse segmento, mas n茫o especifica como isso pode se tornar realidade”.

Para a doutoranda L铆via Esp铆rito Santo, o Plano Nacional de Cultura n茫o aborda pol铆tica potente para a cultura das artes e n茫o traz marco legal para tratar das quest玫es trabalhistas no setor (Cr茅dito: arquivo pessoal)
A segunda a莽茫o ligada 脿 forma莽茫o e 脿 capacita莽茫o de artistas, para estimulo 脿 profissionaliza莽茫o, empreendedorismo e fortalecimento da economia da cultura 鈥渘茫o deixa claro de que maneira isso se realizar谩 e em que medida incidir谩 sobre a realidade do artista como trabalhador鈥.
No que se refere 脿s metas do PNC, apenas as de n煤meros 11 e 17 incidem diretamente sobre a condi莽茫o de trabalho do artista. A meta 17 incide sobre o reconhecimento e certifica莽茫o profissional de artistas a partir da atua莽茫o em diversas linguagens art铆sticas e culturais, aprendidas ou n茫o em espa莽os formais.聽 A meta 11 trata da valoriza莽茫o e reconhecimento dos trabalhadores, com amplia莽茫o do n煤mero de empregos formais no setor cultural. 鈥淥 texto da meta explicita que, para se alcan莽ar estes objetivos, ser茫o necess谩rias adequa莽玫es na legisla莽茫o trabalhista aplicada aos trabalhadores da cultura, bem como a regulamenta莽茫o de muitas profiss玫es que atuam neste setor鈥, enfatiza L铆via.
Em 2006, o Minist茅rio da Cultura, junto a um Grupo de Trabalho, elaborou relat贸rio sobre o trabalho e tributa莽茫o no campo das artes que elencou tr锚s problemas que praticamente continuam sem solu莽茫o – quest玫es de natureza trabalhista, quanto ao funcionamento de editais, altas taxas de importa莽茫o de material e equipamentos e funcionamento de leis de incentivo.
鈥淧ara que um problema se torne problema pol铆tico e que seja articulado na agenda pol铆tica, 茅 necess谩ria a mobiliza莽茫o para romper os estigmas e arqu茅tipos que demarcam no莽玫es romantizadas, fetichizadas ou excludentes que obscurecem, secundarizam e dificultam o debate sobre a realidade do artista como trabalhador e a precariza莽茫o de suas condi莽玫es trabalho鈥, defende L铆via, diante da realidade marcada pela informalidade e precariza莽茫o do trabalho. Ela menciona ainda a campanha realizada por artistas para cobran莽a de provid锚ncias da secret谩ria de cultura, frente 脿 situa莽茫o do setor em meio a pandemia do covid-19. 鈥淓m meio 脿 pandemia, cad锚 Regina? Como est茫o os encaminhamentos para reatualiza莽茫o e aprimoramento, a partir dos movimentos de monitoramento e avalia莽茫o e da realiza莽茫o de confer锚ncias nacionais, municipais e estaduais que se configuram como espa莽os de di谩logo entre poder p煤blico e sociedade civil previstos pelo PNC鈥?
CHAMADA PARA PUBLICA脟脙O – Boletim 103, n潞 01/2025 Os 20 anos da Conven莽茫o sobre a Prote莽茫o e Promo莽茫o da Diversidade das Express玫es Culturais Per铆odo para submiss茫o: 21 de maio a 08 de setembro de 2025 Este ano a Conven莽茫o sobre a Prote莽茫o e Promo莽茫o da Diversidade das Express玫es Culturais promulgada pelos pa铆ses membros da […]
O Observat贸rio da Diversidade Cultural, por meio da Lei Municipal de Incentivo 脿 Cultura de Belo Horizonte, patroc铆nio do Instituto Unimed, realiza o ciclo de forma莽茫o GEST脙O CULTURAL PARA LIDERAN脟AS COMUNIT脕RIAS. Per铆odo de realiza莽茫o: 10, 17 e 24 de outubro de 2024 Hor谩rio: Encontros online 脿s quintas-feiras, de 19 脿s 21h00 Carga hor谩ria total: 6 […]