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Saideira cultural: políticas da permanência e do pós-festa

Por Iago Marques

Iago Vinícius Evangelista Marques é assistente social, artista-pesquisador e mestrando em Artes pela UFMG e pela UEMG. Graduado em Serviço Social pela UFOP e técnico em Dança pelo CICALT, com formações artísticas pela Escola Livre de Artes Arena da Cultura da PBH, desenvolve uma trajetória que articula o SUAS, as artes da cena, a psicanálise, a produção, a mediação e a gestão cultural, além de militâncias e ativismos. É a partir desse trânsito entre políticas sociais, arte, cultura e experiência vivida que Iago propõe, em Saideira cultural: políticas da permanência e do pós-festa, uma reflexão sobre as condições que tornam possível não apenas chegar a um acontecimento cultural, mas permanecer, participar, cuidar e voltar para casa.

 

COMO PERMANECER?

Água não é cortesia. Banheiro adequado não é luxo. Descanso não deveria ser privilégio. Acessibilidade não pode acabar na entrada. E voltar para casa não deveria ser um problema individual de quem decidiu permanecer até o fim. Se festejar é um direito, de quais políticas precisamos para conseguir ficar na festa?

No último dia de agosto de 2026, dois decretos presidenciais colocaram questões aparentemente banais no centro da organização dos eventos no Brasil. Refiro-me aos Decretos nº 13.109 e nº 13.108, que estabelecem, respectivamente, medidas para garantir o acesso à água potável e da proteção à saúde em eventos abertos ao público e da regulamentação da proteção dos consumidores na comercialização de ingressos, enfrentando práticas relacionadas a taxas, filas virtuais, revenda especulativa e formas de precificação.

Lidos em conjunto, os dois decretos abrem uma possível progressão do debate da proteção social nos eventos, colocando em evidência uma questão expressiva: as condições concretas de permanência. Esses bens necessários como água, garantias relacionadas à saúde, ao acesso e às formas de ingresso integram as condições materiais que sustentam o tempo vivido pelo público. Nesse horizonte de sustentação da presença, o art. 25 do Decreto nº 13.108 oferece uma formulação especialmente fértil ao determinar que as camadas de proteção considerem as características, o porte, a demanda e a finalidade de cada evento. Embora o dispositivo legal se refira à proteção do consumidor na comercialização de ingressos, sua formulação oferece pistas para ampliar debate, a partir de outras possibilidades de criação de camadas de cuidado, acesso e permanência para cada exigência dos acontecimentos cultural ou eventos.

É por aí que estabeleço o início deste debate, a partir de uma sequência de perguntas que me faço: se existem camadas de proteção para comprar um ingresso e permanecer hidratado durante um evento, quais outras camadas tornam possível permanecer em uma festa? Quem consegue chegar e entrar? E quem fica de fora? Em que condições esse acesso acontece? Quanto custa participar e para quem esse valor se torna uma barreira? Como trabalham aqueles que sustentam a festa enquanto outras pessoas celebram? Que condições de água, alimentação, banheiro, sombra, descanso e informação existem ao longo do evento? Como diferentes corpos circulam pelo espaço? Quais recursos tornam possível comunicar-se, orientar-se e participar? Sobre quais corpos recaem com maior intensidade a revista, a vigilância e o controle? Onde se encontra acolhimento quando alguma coisa acontece? E, quando a música termina, como se volta para casa?

A partir dessa busca por respostas a Saideira se organiza pelas experiências vividas em diversas festas, festivais, festejos, feiras, eventos, cenas e acontecimentos culturais voltadas, capazes de elucubrar milhares de ideais e materializações econômicas, ecológicas e políticas, sobre às condições de acesso, participação, permanência, cuidado, saída e retorno.

CHEGADA

O acesso à cultura começa antes da entrada e continua depois dela.

Chegar envolve encontrar maneiras de se ambientar. Informações prévias e sinalizações durante o evento podem indicar como chegar e onde estão as entradas, saídas, rotas acessíveis, banheiros, pontos de água, espaços de descanso e equipes de acolhimento ou atendimento de emergência. Conhecer a organização do espaço integra as ações de prevenção e oferece condições para que cada pessoa decida como circular e permanecer. Alguns acontecimentos preservam a surpresa e o inesperado como parte da experiência artística. Ainda assim, as informações indispensáveis à orientação, à acessibilidade e à proteção precisam estar disponíveis para quem desejar ou necessitar delas.

Uma pessoa pode atravessar a catraca e ainda assim encontrar, ao longo da experiência, diferentes barreiras que tornam a permanência incômoda: dificuldade de acesso à água e à alimentação; ausência de lugares para descanso; banheiros inacessíveis; longos períodos em pé; falta de interpretação em Libras; sobrecarga sensorial; preços incompatíveis com a renda de parte do público; situações de racismo, LGBTfobia, capacitismo, etarismo e outras formas de opressão ou violência; ausência de transporte público ao final da programação e etc. Essas condições de permanência envolvem ainda a saúde dos corpos que festejam. Em eventos marcados pelo consumo de bebidas alcoólicas e outras drogas, políticas de redução de danos podem incluir informação qualificada, hidratação, espaços de descanso e descompressão, com equipes preparadas para acolher situações de mal-estar, atendimento em saúde e encaminhamentos realizados sem julgamento ou punição. Tratar por proteção social nos acontecimentos festivos exige considerar aquilo de que diferentes corpos precisam para atravessar algumas horas ao longo do evento com autonomia, cuidado e segurança.

A festa só se realiza como direito quando existem condições para permanecer nela. As políticas de permanência dizem respeito às condições materiais, sociais, culturais e institucionais que sustentam a presença dos diferentes corpos em um acontecimento. Água faz parte disso. Mas também integram essas condições de presença, o banheiro, o descanso, a acessibilidade, a informação, o acolhimento, a alimentação, a proteção contra violências, a redução de danos, a mobilidade e as possibilidades de retorno.

Essas condições variam conforme a forma ou o jeito concreto de cada acontecimento. Uma festa comunitária para algumas centenas de pessoas mobiliza recursos, estruturas e responsabilidades diferentes de um festival privado para dezenas de milhares. Um cortejo de rua apresenta exigências distintas das de um evento em estádio. Uma festa infantil demanda infraestruturas diferentes das de um evento que atravessa a madrugada. A duração, o público, o território e a escala modificam as necessidades de cuidado.

O tamanho importa. A duração importa. O horário importa. O território importa. O perfil de quem participa importa. Importam ainda a densidade de público, as condições climáticas, as formas de deslocamento, o consumo de álcool e outras drogas, a presença de crianças, pessoas idosas e pessoas com deficiência, a infraestrutura disponível e o modo como aquele acontecimento se relaciona com o território em que se realiza.

Esses elementos alteram as necessidades de cuidado e as responsabilidades envolvidas na realização de uma festa. Políticas de permanência podem se organizar em camadas proporcionais de cuidado e proteção, considerando o porte, a duração, o território, o público e os riscos de cada acontecimento, sem converter cuidado em vigilância permanente ou proteção em censura e interdição. Proporcionalidade, nesse caso, não significa diminuir responsabilidades, mas adequar as respostas às condições concretas em que cada festa acontece.

COMO ESTAR PRESENTE

Já chegou? Chegou como? Tá confortável com a roupa? Tá bonita ou engraçada? Às vezes é pra tá engraçada mesmo! Como ir, entrar, aproveitar e curtir? Transporte, acessibilidade, informação, acolhimento e redução de danos integram as tecnologias da presença: recursos, estruturas e relações de cuidado que ajudam diferentes corpos a permanecer no acontecimento.

Estar presente envolve ainda apreender como acontecem as dinâmicas de trabalho e quem as realiza. Artistas, produtores, técnicos, seguranças, brigadistas, intérpretes de Libras, trabalhadores da limpeza, do bar, da saúde, do transporte e tantas outras pessoas sustentam o acontecimento enquanto ele ocorre.

Há públicos situados, no plural, com corpos, idades, rendas, desejos, formas de comunicação e necessidades diferentes. Dizer que uma festa é para todes não garante, por si, que todes consigam chegar, permanecer, trabalhar, aproveitar e voltar para casa.

Há ainda o que acontece depois que a programação termina.

SAIDEIRA

A festa termina para quem?

Enquanto parte do público se desloca para casa, trabalhadores desmontam estruturas, recolhem resíduos, limpam banheiros, guardam equipamentos, atendem as últimas ocorrências e encerram jornadas que muitas vezes começaram antes da abertura dos portões. Pessoas que sofreram violências podem continuar lidando com suas consequências durante dias. Moradores permanecem no território depois que os palcos desaparecem. Uma pessoa que passou mal precisa continuar sendo cuidada. O transporte precisa acompanhar a duração real do acontecimento, inclusive as jornadas de quem permanece trabalhando depois da última música.

Quando a programação termina, permanecem os efeitos do evento sobre os corpos, os trabalhadores e o território. Há ainda quem deseje prolongar a festa e descontinuar o cotidiano. Com ou sem o uso de substâncias, essa escolha não retira de ninguém o direito à informação, à redução de danos, ao transporte e ao cuidado, nem apaga o desejo de des/continuar.

A observação pode alcançar os problemas e aquilo que já funciona. Há eventos que encontram boas soluções para questões de acessibilidade, descanso, acolhimento, redução de danos, transporte e convivência. Algumas experiências comunitárias sustentam práticas de cuidado construídas no próprio território, muitas vezes ausentes dos protocolos institucionais. Registrar essas soluções e normatizá-las ajuda a reconhecer caminhos que podem ser discutidos, adaptados ou incorporados em outros contextos – a partir de uma ótica do cuidado. Isso demonstra que o que acontece depois da festa revela as condições que a sustentaram, as responsabilidades assumidas e aquilo que permaneceu sem resposta, cheio de não-saberes, faltas, fantasias, ou seja, vida.

Os Decretos nº 13.108 e nº 13.109 podem ser lidos, portanto, como um ponto de partida para uma política mais ampla de permanência nos acontecimentos artísticos e culturais. Ao reconhecerem que o acesso à água, a proteção à saúde e as condições de comercialização dos ingressos integram as responsabilidades de quem organiza um evento, eles ajudam a deslocar para o campo público questões muitas vezes tratadas como necessidades individuais. O desafio que permanece é ampliar essas camadas de proteção para todo o percurso da festa, pensando através da chegada, da entrada, do trabalho, da participação, do descanso, do cuidado, da saída e do retorno. É nesse prolongamento dos decretos que a Saideira encontra sua pergunta: O que precisamos garantir para que diferentes pessoas possam chegar, entrar, trabalhar, participar, descansar, permanecer e voltar para casa depois da festa?

Porque, quando a festa acaba, a política continua.

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