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NOT脥CIAS

O inesgot谩vel capital criativo

Saiba como a Economia Criativa estimula a gera莽茫o de renda enquanto promove a diversidade cultural e o desenvolvimento humano.

Imagem capa: Freepik criado por rawpixel.com (licen莽a gratuita)

REPRODU脟脙O: UNIFOR

Qual o potencial econ么mico da inventividade e originalidade de um povo? Como atrair investimentos para um conjunto de neg贸cios baseados em processos criativos e tribut谩rios da diversidade cultural como valor em si? Inestim谩veis, o capital intelectual e as trocas simb贸licas s茫o a mat茅ria-prima intang铆vel da chamada Economia Criativa, um campo de conhecimento e atua莽茫o profissional que na Universidade de Fortaleza, institui莽茫o ligada 脿 Funda莽茫o Edson Queiroz, perpassa as grades curriculares dos mais diversos cursos de gradua莽茫o e p贸s-gradua莽茫o onde as rela莽玫es entre cultura, criatividade, tecnologia, inova莽茫o, sustentabilidade e empreendedorismo ganham centralidade.

Consultora em Economia Criativa e representante da Unifor na C芒mara Setorial da Economia Criativa /ADECE, a professora dos cursos de Design de Moda, Eventos e Cinema e Audiovisual, Raquel Viana Gondim, pega f么lego para ilustrar: 鈥渃ultura popular, gastronomia, nossas festas e celebra莽玫es, os museus, as paisagens naturais, os s铆tios arqueol贸gicos, as mais diversas artes, ou seja, a pintura, a m煤sica, os espet谩culos, a dan莽a, as performances, as interven莽玫es urbanas, assim como as m铆dias, que abra莽am o mercado editorial e todo o segmento audiovisual, como cinema, r谩dio, TV, al茅m das chamadas cria莽玫es funcionais, vide o design em geral, os softwares e aplicativos, os games, a biotecnologia, a publicidade e propaganda, a arquitetura, tudo isso faz parte da economia criativa, ou melhor, s茫o setores criativos em franca ascens茫o e dizem sobre a criatividade como for莽a-motriz e capital ativo do trabalhador na contemporaneidade鈥.

Professora Rachel Viana Gondim, consultora em Economia Criativa e representante da Unifor na C芒mara Setorial da Economia Criativa /ADECE (Foto: Arquivo pessoal)

 

Afirma莽茫o inconteste: a imagina莽茫o 茅 cada vez mais rent谩vel. E h谩 n煤meros que confirmam n茫o s贸 a pot锚ncia como o toque de Midas da cultura. De acordo com relat贸rio da Organiza莽茫o das Na莽玫es Unidas para a Educa莽茫o, a Ci锚ncia e a Cultura (Unesco) e da consultoria EY de 2015, cerca de 3% do PIB mundial (mais de US$ 2,25 trilh玫es em receita) est谩 na economia criativa. E, segundo estudo da consultoria PwC, a estimativa 茅 que seu crescimento seja acima da m茅dia mundial: 4,6% at茅 2021, mais que os 4,2% da m茅dia de todas economias. Ascendente, a curva de gera莽茫o de trabalho e renda no setor tem hist贸ria e raz茫o de ser, mas tamb茅m especificidades e sen玫es que a professora e consultora na 谩rea ressalta diante das diferentes realidades em cada regi茫o do mundo.

鈥淎 valoriza莽茫o exacerbada 脿 performance econ么mica da ind煤stria em pa铆ses ricos se contrap玫e 脿 capacidade e necessidade de se produzir inclus茫o social e produtiva entre os mais pobres, levando em considera莽茫o a diversidade cultural e o respeito 脿s diferen莽as. No Brasil, sobretudo, n茫o podemos esquecer o outro lado da moeda: estou falando dos pequenos produtores, artes茫os, profissionais criativos que produzem, mas n茫o se encontram inclu铆dos produtivamente nas economias dos seus locais de trabalho. Os pa铆ses ricos apostam nas ind煤strias criativas para vender mais e melhor aquilo que muitas vezes pode depredar o meio ambiente e ceifar a capacidade produtiva desses pequenos criadores, artistas independentes e artes茫os鈥, enfatiza Raquel.

Para ela, o pr贸prio conceito precisa ser melhor cercado: economia criativa 茅 aquela resultante das din芒micas culturais, sociais e econ么micas constru铆das a partir do ciclo de cria莽茫o/produ莽茫o, distribui莽茫o/circula莽茫o/difus茫o, e consumo/frui莽茫o de bens e servi莽os oriundos dos setores criativos. 鈥淧erceba que no conceito da economia criativa o foco sai do resultado em si e da dimens茫o econ么mica da ind煤stria criativa para dar preval锚ncia 脿 dimens茫o simb贸lica, ou seja, a todo o processo criativo que envolve o territ贸rio, a pessoa, a cultura do lugar, a rela莽茫o das pessoas entre elas e com o ambiente, sendo isso que caracteriza o resultado final da produ莽茫o de riqueza cultural, econ么mica e social鈥, observa.

N茫o 脿 toa, princ铆pios ligados 脿 emancipa莽茫o social e qualidade de vida regem a economia criativa. Biodiversidade cultural 茅 um deles, contemplando a valoriza莽茫o, prote莽茫o e a promo莽茫o dos biomas e territ贸rios onde as pessoas vivem. 鈥淧or exemplo: o artista Ant么nio Rabelo, de Quixeramobim, que cria suas j贸ias a partir do espinho do mandacaru… ele usa os recursos do lugar e agrega valor ao produto quando mobiliza mat茅ria-prima de sua terra, conferindo originalidade e for莽a 脿s suas produ莽玫es鈥, ilustra Raquel. Foco ainda na inclus茫o social e produtiva. 鈥淎 economia criativa, ao contr谩rio da ind煤stria criativa, que n茫o olha para os que est茫o em situa莽茫o de vulnerabilidade social, aposta na forma莽茫o e qualifica莽茫o profissional, gerando oportunidades de trabalho e renda para esses empreendimentos criativos鈥, acrescenta.

Os quatro vetores da sustentabilidade – ambiental, social, cultural e econ么mica 鈥 representam outro bra莽o de atua莽茫o da economia criativa, assim como o fomento a pr谩ticas de inova莽茫o, cujos produtos s茫o frutos da integra莽茫o das tecnologias e dos conte煤dos culturais. 鈥淎qui n茫o falamos s贸 de tecnologia de ponta, mas tecnologias sociais ou manuais, podendo se ampliar ainda mais para falarmos em tecno diversidade, conceito do fil贸sofo chin锚s Yuk Hui, uma das figuras mais influentes no debate sobre tecnologia, intelig锚ncia artificial e aquilo que ele chama de “cosmot茅cnicas”, tecnologias desenvolvidas em contextos locais, particulares, que conteriam as sa铆das para a atual crise ecol贸gica, pol铆tica e social mundial鈥, aponta a professora.

Criatividade como recurso inesgot谩vel, do tipo que quanto mais se usa mais se tem e se colhe. L贸gica contr谩ria, segundo ela, 脿quela que move a economia tradicional, centrada no agrobusiness, na ind煤stria e no com茅rcio. 鈥淥 Brasil tem uma miopia tr谩gica, hoje uma cegueira at茅, por n茫o enxergar esses setores criativos como pujantes, fortes, potentes para a economia. A ind煤stria criativa brasileira insiste em trabalhar com a economia de escala, aquela que faz uma e reproduz mil. Economia criativa n茫o tem essa capacidade de produ莽茫o de escala. Por isso que quando a ind煤stria criativa entra tem o poder do colonizador, vem depredando, ceifando, tirando a originalidade e diminuindo a capacidade criativa, a ponto de muita coisa se perder. No Cear谩, as rendas de bilro ou de labirinto est茫o numa situa莽茫o de exterm铆nio. As tecnologias da ind煤stria t锚xtil s茫o capazes de fazer bordados precisos e frios, desprovidos da beleza da m茫o e suas particularidades. Uma m茫o tecendo 茅 que faz a diferen莽a. Em menos de dez segundos a m谩quina importada faz tr锚s tipos de pontos diferentes no tecido. Ou seja, ela ceifa a originalidade dos nossos artes茫os e desvaloriza a tal ponto o trabalho manual que a pessoa desiste鈥, critica a professora que, no entanto, prefere apostar na for莽a da criatividade humana e comemorar o recente t铆tulo conferido 脿 Fortaleza pela Unesco de Cidade Criativa do Design.

O elogio da 茅tica 脿 est茅tica

Sim, h谩 muitas chances de seu pr贸ximo emprego vir da economia criativa. Da铆 a import芒ncia de, ainda nos bancos universit谩rios, refletir e encontrar caminhos vi谩veis para tornar poss铆vel aquela ideia ou projeto autoral que, al茅m de ser rent谩vel, quer fazer circular valores como colabora莽茫o, inclus茫o social e desenvolvimento humano. Cursando o 4潞 semestre do curso de Design de Moda na Unifor, Dayana Lima, 23, j谩 se prepara, sob orienta莽茫o da professora Raquel Viana Gondim, para tirar do papel e fazer acontecer a marca Humana., uma proposta que envolve a confec莽茫o de roupas com tecidos e materiais naturais mas tamb茅m quer dialogar com tecnologia, m煤sica, cinema e gastronomia para se desdobrar em uma escola de forma莽茫o art铆stica.

鈥淣茫o quero me fechar na marca de moda Humana, mas dialogar com outras artes e investir na colabora莽茫o entre profissionais criativos dos mais diversos setores. Por exemplo, a estampa de um artista gr谩fico vai ser usada pela marca e vamos ganhar uma remunera莽茫o juntos. Isso 茅 o princ铆pio cooperativo da collab, que move a economia criativa. Pretendo ainda valorizar a nossa subjetividade, a cultura do Cear谩, pensando local para atingir global. E apostar em pol铆ticas trabalhistas mais justas, que possam remunerar melhor os profissionais envolvidos, mas tamb茅m fazer circular conhecimento, ter uma escola atrelada para forma莽茫o profissional, onde nossa equipe e moradores de regi玫es perif茅ricas possam ter acesso 脿 aulas e conhecimentos que fomentem outros neg贸cios criativos鈥, planeja Dayana.

Dayana Lima, estudante do curso de Design de Moda da Unifor (Foto: Arquivo pessoal)

 

Para ela, a economia criativa quer repensar as formas de consumo e a l贸gica da produ莽茫o industrial hegem么nica, al茅m de chamar aten莽茫o para a responsabilidade ambiental. 鈥淪omos instigados a criar um ecossistema respons谩vel, onde 茅 importante saber os valores que est茫o por tr谩s daquele processo produtivo. H谩 uma 茅tica da est茅tica. N茫o 茅 s贸 vender e vender. 脡 pensar no que fazer com os res铆duos que eu gero para que a minha produ莽茫o n茫o impacte negativamente no local ou no meio ambiente. E viver da minha capacidade criativa, mas fomentando formas de consumo mais conscientes e abrindo espa莽os para trabalhos colaborativos entre aut么nomos鈥, defende a graduanda que tamb茅m j谩 se prepara para um mestrado em Gest茫o de Ind煤strias Criativas em Portugal.

Criatividade e colabora莽茫o j谩!

Imagens em movimento correm por dentro da economia criativa. Estudante do 8潞 semestre do curso de Cinema e Audiovisual da Unifor, Bruno Brasileiro, 23, j谩 usou do princ铆pio da colabora莽茫o para viabilizar a produ莽茫o independente de um curta-metragem em desenvolvimento que vem se tornando poss铆vel gra莽as 脿 parceria, em paralelo, de colegas graduandos das mais diversas 谩reas de forma莽茫o. 鈥淒o tanto de telha no mundo鈥, seu primeiro trabalho autoral, 茅 um filme nascido do 铆ntimo de um filho marcado pelo amor materno e que acabou gerando dentro de si outros 鈥渇ilhos鈥 amorosos afinados aos princ铆pios da criatividade geradora de inclus茫o social.

鈥淔izemos uma vakinha virtual para viabilizar a pr茅-produ莽茫o do filme que come莽ou a ser gravado em Juatama, munic铆pio de Quixad谩. E diante de uma inesperada ades茫o e r谩pida aceita莽茫o do projeto por parte dos colaboradores acabamos pensando n茫o s贸 na minha realiza莽茫o pessoal de cineasta em forma莽茫o, mas na responsabilidade social que 茅 marca da nova gera莽茫o de profissionais criativos. Foi a铆 que criamos um coletivo e viabilizamos a cria莽茫o de um cineclube, o @telhinha, que hoje exibe atrav茅s da plataforma twitch outros curtas-metragens cearenses e produz lives de debates com os criadores semanalmente para arrecadar doa莽玫es para o combate 脿 fome causada pela pandemia鈥, conta Bruno, entusiasmado com a ideia de difundir a produ莽茫o cinematogr谩fica local ao mesmo tempo em que colabora com ONGs comprometidas com pessoas em situa莽茫o de vulnerabilidade social.

Bruno Brasileiro, estudante de Cinema e Audiovisual da Unifor (Foto: Arquivo pessoal)

 

Para Bruno, a experi锚ncia vem ensinando sobre como produzir renda e trabalho usando a criatividade, mas tamb茅m em outros modos de intera莽茫o com o p煤blico consumidor de audiovisual. 鈥淰enho constatando que 茅 poss铆vel viabilizar o seu sonho ao mesmo tempo em que inventamos outras formas colaborativas de fazer cinema e financiar essas produ莽玫es que cada vez mais tendem a contar com o uso livre e inteligente das tecnologias, as grandes aliadas da economia criativa e circular, que tende a horizontalizar as rela莽玫es de trabalho e consumo, de forma que criadores e consumidores se aproximem cada vez mais e os produtos ou servi莽os gerados possam atender 脿s reais necessidades de um determinado p煤blico-alvo, gerando uma cadeia produtiva mais consciente e emp谩tica mesmo鈥, afirma.

Fato: no Brasil e no mundo 茅 poss铆vel – e urgente 鈥 inflar a vibe da economia criativa e dar aos profissionais criativos as reais condi莽玫es para se viver e sobreviver de arte e cultura, ou melhor, do poder da imagina莽茫o e seu modo pr贸prio de fazer neg贸cios. Egressa do mestrado em Ci锚ncias da Cidade da Unifor, a arquiteta, professora e artista visual Andr茅a Dall麓Olio, 44, fez da pr贸pria disserta莽茫o um documento cr铆tico de sua produ莽茫o autoral e da pretendida capacidade de transforma莽茫o social embutida nela. Assim, o projeto intitulado 鈥淎 arte urbana como t谩tica de reativa莽茫o de espa莽os p煤blicos鈥 foi ter com os modos de uso e apropria莽茫o de pinturas e obras art铆sticas instaladas durante a realiza莽茫o de tr锚s diferentes eventos: Cumbucor, Festival Borda e Vila das Cores.

Andr茅a Dall麓Olio, arquiteta, professora e artista visual (Foto: Ares Soares)

 

鈥淓m um dos trabalhos, bordei o muro de uma casa na Vila Bach谩, pr贸xima 脿 Igreja de Santa Luzia. Essa interven莽茫o urbana foi feita de diferentes formas por seis artistas de um mesmo coletivo do qual fa莽o parte: o In-grafika. Na 茅poca, a comunidade do entorno insistia com a prefeitura cobrando uma demanda antiga de ilumina莽茫o p煤blica e asfalto. Quando toda a 谩rea ganhou novas cores e foi atravessada pela arte, o poder p煤blico finalmente olhou para l谩 e atendeu 脿s reivindica莽玫es dos moradores. E a vida ali mudou: as pessoas se apropriaram do lugar, come莽aram a ficar nas cal莽adas e interagir mais. Ou seja, a arte pode n茫o ser a 煤nica solu莽茫o poss铆vel para os in煤meros problemas percebidos por quem habita as grandes cidades, mas certamente a transforma莽茫o e melhoria do conv铆vio social passa por ela鈥, alerta Andr茅a.

Criatividade para tamb茅m incitar responsabilidades sobre os lugares e as pessoas. 鈥淧ara ter sucesso, a economia criativa e seus agentes criadores – os artistas, artes茫os e profissionais criativos em geral – precisam contar com a sensibilidade e a ades茫o da sociedade civil, assim como dependem do investimento do poder p煤blico. 脡 uma cadeia de fomento 脿s artes e 脿 cultura que s贸 poder谩 dar respostas contundentes ao mundo e obter um alcance maior se essas tr锚s esferas unirem for莽as para varrer do senso comum a ideia de que a cultura gera gastos sem retorno e a arte 茅 uma pr谩tica diletante. Cada vez mais 茅 poss铆vel viver de arte e exercer uma autonomia no mundo do trabalho, respeitando a diversidade cultural e apostando no desenvolvimento humano ao mesmo tempo em que gera emprego e renda鈥, enfatiza a artista que se orgulha em ver na vila de pescadores do Cumbuco obras suas que deveriam ser ef锚meras apropriadas e cuidadas por moradores nativos da praia.

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