Imagem de capa: Foto Arquivo Pessoal / Laura Bezerra
A entrevista Laura Bezerra 茅 professora adjunta do Centro de Cultura, Linguagens e Tecnologias Aplicadas da Universidade Federal do Rec么ncavo da Bahia (CECULT/UFRB). Doutora em Cultura e Sociedade pelo Instituto de Humanidades Artes e Ci锚ncias Prof. Milton Santos (IHAC) da Universidade Federal da Bahia (Salvador, 2013), com tese sobre as pol铆ticas de preserva莽茫o audiovisual no Brasil. Coordenadora do projeto Filmografia Baiana. Membro da Associa莽茫o Brasileira de Preserva莽茫o Audiovisual (ABPA), que presidiu no bi锚nio 2014-2016.
聽Observat贸rio da Diversidade Cultural (ODC) – Qual a import芒ncia do acervo da Cinemateca Brasileira para o pa铆s?
聽Laura Bezerra – Uma import芒ncia inestim谩vel! A CB possui o maior acervo audiovisual da Am茅rica do Sul, composto por quase 250 mil rolos de filmes (aproximadamente 30 mil t铆tulos), al茅m de materiais diversos. 脡 a institui莽茫o respons谩vel pela 鈥減reserva莽茫o e difus茫o da mem贸ria audiovisual brasileira鈥 (Portaria SAv n掳1/2009).
Gostaria de destacar dois aspectos. Em primeiro lugar, lembremos que o audiovisual 茅 parte de um mercado que movimenta recursos astron么micos e que 茅 controlado por grandes conglomerados que atuam globalmente. Trata-se de um mercado extremamente concentrado e concentrador. Sendo assim, a preserva莽茫o de acervos audiovisuais tem uma import芒ncia estrat茅gica, especialmente para pa铆ses com uma cinematografia n茫o-hegem么nica. Preservar nossa mem贸ria audiovisual significa preservar nossas refer锚ncias culturais e, assim, preservar tamb茅m um mosaico da diversidade cultural da humanidade.
Em segundo lugar: nos filmes cristalizam-se sistemas de representa莽茫o espec铆ficos, ou seja, filmes s茫o vetores de identidade e diversidade. Uma vez que os filmes vistos formam a base para a cria莽茫o de novos filmes, o apagamento da produ莽茫o nacional, com suas especificidades, incide na produ莽茫o de novos filmes. Se os/as jovens realizadores n茫o conhecem a produ莽茫o feita no seu pa铆s, se n茫o conhecem nossas refer锚ncias audiovisuais, isso ir谩 refor莽ar a produ莽茫o de modelos narrativos e est茅ticos estandardizados t茫o a gosto do mercado (de novo, perda da diversidade). Um terceiro aspecto 茅 que h谩 um nicho de mercado para filmes antigos. Seja em fun莽茫o de um desejo de ver/rever filmes antigos, seja porque trechos de filmes e v铆deos antigos s茫o usados na produ莽茫o de novos filmes. Um filme como, por exemplo, 鈥淥 barato de Iacanga鈥 n茫o seria poss铆vel sem imagens de arquivo. Resumindo: seja pensando na dimens茫o simb贸lica, pol铆tica ou econ么mica da cultura, existem bons motivos para a preserva莽茫o do acervo da Cinemateca Brasileira.
Observat贸rio da Diversidade Cultural (ODC) – Al茅m dos filmes, o que mais a Cinemateca Brasileira abriga?
聽Laura Bezerra – Al茅m de filmes e v铆deos em diferentes suportes e formatos, a institui莽茫o abriga tamb茅m os chamados 鈥渕ateriais correlatos鈥: fotos, cartazes, roteiros, storyboards, manuscritos, correspond锚ncia e objetos diversos que d茫o testemunho da produ莽茫o audiovisual do pa铆s. A CB tem tamb茅m uma biblioteca (que existe desde 1954), com aproximadamente 70 mil itens: livros, peri贸dicos, recortes de jornais, cat谩logos, textos acad锚micos etc.
Esse acervo 茅 base para uma s茅rie de a莽玫es como, p. ex., a Filmografia Brasileira, que re煤ne, organiza e divulga informa莽玫es sobre a produ莽茫o audiovisual do pa铆s desde seus in铆cios em 1897. Esse trabalho, realizado desde a d茅cada de 1950, est谩 paralisado atualmente.
Observat贸rio da Diversidade Cultural (ODC) – Em 2021, a Cinemateca passou pelo seu quinto inc锚ndio, mais uma vez tendo como causa os filmes a base de nitrato de celulose que causam combust茫o espont芒nea. O que 茅 deficit谩rio no Brasil para o correto armazenamento dos filmes?
聽Laura Bezerra – N贸s, da Associa莽茫o Brasileira de Preserva莽茫o Audiovisual (ABPA), entendemos a preserva莽茫o como um conjunto sist锚mico de tarefas, pr谩ticas e procedimentos para garantir a preserva莽茫o dos documentos audiovisuais e sua frui莽茫o. Seu correto armazenamento, com manuten莽茫o de par芒metros est谩veis de temperatura e umidade, 茅 a base da conserva莽茫o, que exige um trabalho cont铆nuo de revis茫o dos materiais.
Houve um investimento grande na Cinemateca Brasileira a partir de 2003, com investimento na infraestrutura de conserva莽茫o (dep贸sitos, estantes, embalagens, equipamentos). O que faltou foi a elabora莽茫o de um plano de a莽茫o de longo prazo, que pensasse o todo e garantisse um m铆nimo de estabilidade de recursos humanos e financeiros. Sem eles, n茫o adianta construir dep贸sitos. Carlos Roberto de Souza, funcion谩rio da CB por muitos anos, diz que n茫o existe filme preservado, existe filme em processo de preserva莽茫o. 脡 a mais pura verdade. O filme 茅 um artefato extremamente fr谩gil e sua preserva莽茫o 茅 uma tarefa de gest茫o, algo continuado. Temos atualmente no Brasil um gera莽茫o de preservadores/as audiovisuais competentes e comprometidos/as, 茅 preciso garantir a sua contrata莽茫o e condi莽玫es de trabalho est谩veis.
Observat贸rio da Diversidade Cultural (ODC) – A Cinemateca Brasileira vive uma crise institucional desde 2013, com a demiss茫o do diretor Carlos Magalh茫es por Marta Suplicy, ministra da Cultura 脿 茅poca, e a interrup莽茫o dos repasses 脿 Sociedade Amigos da Cinemateca (SAC), organiza莽茫o que administrava a institui莽茫o. A partir de 2019, a situa莽茫o se agravou com a demiss茫o de dezenas de funcion谩rios. Na sua opini茫o, por que h谩 tanto descaso com a Cinemateca Brasileira?
聽Laura Bezerra – Creio que h谩 dois aspectos importantes aqui. Tradicionalmente a prote莽茫o ao patrim么nio foi pautada por um entendimento restrito e elitista de cultura. S贸 eram considerados dignos de prote莽茫o aqueles objetos que possu铆am excepcional valor art铆stico e hist贸rico, objetos que eram vinculados 脿 Cultura com C mai煤sculo. O audiovisual 茅 um h铆brido, potencial obra art铆stica, produto t茅cnico-industrial e parte da ind煤stria do entretenimento. Esse seu lado mundano dificultou que se reconhecesse a exist锚ncia de um patrim么nio audiovisual. Mesmo os anos em que a Cinemateca Brasileira esteve vinculada ao IPHAN n茫o alteraram esse fato.聽 O audiovisual simplesmente n茫o era considerado digno de prote莽茫o.
H谩 pouco publiquei um artigo, junto com Fernanda Coelho, onde dizemos que as pol铆ticas impostas pelo ide谩rio neoliberal est茫o em profundo desacordo com nossas disposi莽玫es constitucionais, que apresentam a cultura como um direito a ser garantido pelo Estado (Art. 215) e d茫o 锚nfase 脿 prote莽茫o do patrim么nio (Art. 216). Entendemos que o neoliberalismo 茅 especialmente nefasto para institui莽玫es de mem贸ria, uma vez que a l贸gica do mercado, l贸gica de curto prazo, focada em ganhos imediatos e amplia莽茫o dos lucros colide com a l贸gica das institui莽玫es de mem贸ria, que se pautam pelo pensamento de longo prazo e um trabalho intenso, mas cont铆nuo e silencioso de preserva莽茫o. Isso se agrava, no Brasil, por conta da fragilidade das nossas institui莽玫es. Nesses tempos brutos, nesse mundo 鈥渄a for莽a da grana que ergue e destr贸i coisas belas鈥, como cantava Caetano Veloso, precisamos que o Estado assuma suas responsabilidades. Sempre fomos muito cr铆ticas 脿 gest茫o da Cinemateca Brasileira por uma OS, n茫o nos parecia o modelo adequado. Fica evidente que n茫o 茅.
Observat贸rio da Diversidade Cultural (ODC) – Quais medidas de armazenamento precisam ser tomadas acerca da preven莽茫o de trag茅dias anunciadas, como o inc锚ndio 脿 cinemateca?
聽Laura Bezerra – N茫o 茅 uma quest茫o de armazenamento, 茅 uma quest茫o pol铆tica. As Cinematecas est茫o organizadas internacionalmente desde a cria莽茫o da Federa莽茫o Internacional de Arquivos F铆lmicos (FIAF), em 1938. Desde a d茅cada de 1960, os arquivos audiovisuais reunidos na FIAF investiram na pesquisa e reflex茫o sobre as quest玫es pr谩ticas e te贸ricas da preserva莽茫o, com interc芒mbio entre os arquivos, com a publica莽茫o de uma s茅rie de manuais t茅cnicos e a realiza莽茫o de cursos de ver茫o.聽 A Filmoteca de S茫o Paulo, embri茫o da Cinemateca Brasileira, 茅 membro efetivo da FIAF desde 1948 e a CB tem participa莽茫o ativa na FIAF e em outros gr锚mios. Temos expertise. Sabemos exatamente o que precisa ser feito para a preserva莽茫o de longo prazo dos acervos audiovisuais. Precisamos de planejamento de longo prazo, de um quadro est谩vel de funcion谩rios e recursos, sem o que a preserva莽茫o n茫o acontece. Esse 茅 o ponto central.
Em 2016, a ABPA elaborou, com a participa莽茫o de preservadores/as audiovisuais de todo o Brasil, um Plano Nacional de Preserva莽茫o Audiovisual, que considerava a realidade bastante diversa entre as regi玫es dos pa铆s e as institui莽玫es detentoras de acervos audiovisuais. Segundo combinado com o Minist茅rio da Cultura, o Plano deveria entrar em consulta p煤blica e posteriormente ser transformado em lei. Entretanto, aconteceu um golpe que impediu a continuidade do processo. Mas o Plano existe e deveria ser utilizado para nortear as pol铆ticas nessa area 鈥 para al茅m da situa莽茫o emergencial da CB (que necessita de toda nossa aten莽茫o), precisamos de pol铆ticas de abrang锚ncia nacional envolvendo os diversos agentes envolvidos.
Observat贸rio da Diversidade Cultural (ODC) – O inc锚ndio da Cinemateca ocorreu dias antes da reinaugura莽茫o do Museu da L铆ngua Portuguesa, ap贸s o inc锚ndio em 2015. Que reflex茫o 茅 poss铆vel fazer a partir desses dois acontecimentos?
聽Laura Bezerra – O barato sai caro. Cortar recursos indiscriminadamente, deixar as institui莽玫es sem condi莽玫es de fazer o trabalho cotidiano (por exemplo, sem revis茫o das instala莽玫es el茅tricas),聽 termina levando a um聽 desperd铆cio de recursos. A reconstru莽茫o do Museu custou R$ 85 milh玫es. Al茅m disso, quanto se perdeu nos 6 anos em que esteve fechado? Quanto se perdeu no inc锚ndio da Cinemateca Brasileira? Mas tudo isso est谩 relacionado com uma profunda desvaloriza莽茫o da cultura brasileira.
Observat贸rio da Diversidade Cultural (ODC) – Em que sentido a desvaloriza莽茫o da cultura nacional 茅 fator determinante em trag茅dias como essa?
Laura Bezerra – Esse 茅 um aspecto central. Enquanto se olhar a cultura como um adorno, como a famosa cereja do bolo, outras trag茅dias se seguir茫o. A despeito de nossas disposi莽玫es constitucionais, que s茫o muito claras (鈥O Estado garantir谩 a todos o pleno exerc铆cio dos direitos culturais鈥) essa desvaloriza莽茫o, conjugada 脿 fragilidade das institui莽玫es brasileiras, termina criando uma situa莽茫o que permite que o Estado se desresponsabilize por completo de suas obriga莽玫es. 脡 o que vemos atualmente com a Cinemateca Brasileira. Os antigos funcion谩rios da CB junto a ABPA e um grupo de ativistas est茫o tentando reverter essa situa莽茫o sem sucesso. Permanece a possibilidade de um desfecho tr谩gico, com o risco concreto de desaparecimento do maior acervo audiovisual da Am茅rica do Sul.
Observat贸rio da Diversidade Cultural (ODC) – A atriz Samantha Schm眉tz fez em suas redes sociais uma cr铆tica aos artistas brasileiros e a falta de a莽茫o para a preserva莽茫o da Cinemateca, voc锚 concorda com essa cr铆tica ao pr贸prio meio art铆stico?
Laura Bezerra – Concordo, infelizmente. Ap贸s o inc锚ndio tivemos um n煤mero razo谩vel de manifesta莽玫es de indigna莽茫o. Mas registramos o estrondoso sil锚ncio dos artistas nas diversas campanhas e a莽玫es realizadas dos 煤ltimos anos em defesa da Cinemateca Brasileira.
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