
Um rio caudaloso sai carregando com sua for莽a muito do que est谩 pelas margens, inclusive blocos de terra que, jogados na correnteza, viram pequenas e ef锚meras ilhas. S茫o conhecidas por marapat谩 ou periant茫. Elas seguem o fluxo da 谩gua junto aos diversos outros actantes. Um deles, o/a ribeirinho/a, que vai no mesmo rumo em sua canoa. Ora, quando ele ou ela cruza com uma periant茫, de pronto j谩 conecta sua embarca莽茫o em algum galho, raiz, peda莽o de tronco remanescente. Desse modo, vai no resto de sua jornada de bubuia, sem remar, se deixando levar por sua companheira. Ambas, canoa e ilhota, no ritmo fluvial.
Ir de bubuia, bubuiar. O poeta e pensador Jo茫o de Jesus Paes Loureiro ouvia esse termo quando crian莽a em Abaetetuba, munic铆pio paraense situado na margem direita da foz do Rio Tocantins. Transformou em uma esp茅cie de conceito, dibubu铆smo, para dizer da rela莽茫o fenomenol贸gica entre o homem, a mulher, as crian莽as e a natureza nas amaz么nias. Autor de uma obra reconhecida para al茅m de fronteiras, a exemplo do livro de poesia Romance das tr锚s flautas ou de como as mulheres perderam o dom铆nio sobre os homens, Paes Loureiro diz que bubuiar 茅 um usufruto da natureza, o uso de seus frutos, a partir do que ela oferece, sem agress茫o.
Bubuiar 茅 o exerc铆cio do acontecimento, do intempestivo. 脡, nas palavras de Paes Loureiro, o 鈥渁proveitamento das circunst芒ncias do meio ambiente em benef铆cio do descanso do corpo, enquanto a imagina莽茫o trabalha em suas oficinas do imagin谩rio鈥. Mas, como ressalta, n茫o se trata de busca do tal 鈥溍砪io criativo鈥, no fim das contas vampirizado pelo mercado das criatividades. Nem de pregui莽a, como gostaria o estere贸tipo colonizador-racista, sempre atualizado. Trata-se, sim, 鈥渄e uma forma de atitude produtiva e formadora assumida estrategicamente pelo homem da terra, conceitualmente aplic谩vel ao mundo extra local, de rela莽茫o funcional entre o homem e a natureza como realidade exterior, em benef铆cio da libera莽茫o do corpo de seu esfor莽o f铆sico, disponibilizando o esp铆rito para os trabalhos prazerosos do devaneio鈥.
N茫o tem como n茫o seguirmos de bubuia com o poeta-pensador: 鈥淨uando o corpo descansa, o esp铆rito trabalha. Fus茫o dial茅tica e ultrapassadora e sem manique铆smo da aleg贸rica f谩bula da cigarra e a formiga. Porque n茫o se trata de um devaneio gratuito em oposi莽茫o ao trabalho, mas dos acr茅scimos de constru莽玫es do imagin谩rio, de complexa elabora莽茫o e constituidor de um dos relevantes fatores de configura莽茫o do que entendo por amaz么nico do imagin谩rio cultural na Amaz么nia鈥.
Ano passado, Bel茅m sediou, entre 4 de agosto e 12 de Novembro, a I Bienal das Amaz么nias, reunindo 121 artistas e coletivos atuantes nos nove pa铆ses que constituem o territ贸rio amaz么nico, ou a Pan-Amaz么nia: Col么mbia, Peru, Venezuela, Equador, Bol铆via, Guiana, Guiana Francesa, Suriname e Brasil. Com curadoria realizada por um coletivo de mulheres autointitulado Sapukai (do Tupi: grito, clamor ou canto) e homenageando a fot贸grafa paraense Elza Lima, o tema da primeira edi莽茫o n茫o poderia ser outro: Bubuia: 脕guas como Fonte de Imagina莽玫es e Desejos. Se referenciando na no莽茫o de dibubu铆smo, a premissa curatorial se organizou quatro eixos: 1. Fontes vitais cambiantes; 2. cis茫o como contraponto; 3. poder de compartilhar; vidas linguagens; e 4.clima(x) t(r)emor; e encontro de desejos. – nessa passagem tem uma parte em it谩lico que n茫o estava no original e colocar 鈥渆m鈥 depois de 鈥渟e organizou鈥
Em junho desse ano, ligada a uma periat茫, a Bienal come莽ou sua itiner芒ncia, aportando primeiro em Marab谩.聽 A atividade que abriu a mostra foi a roda de conversa com curadoria e artistas 鈥淭ocantins e Itacai煤nas: encontro c贸smico de rios鈥. Mas Marab谩 e a Bienal itinerante s茫o temas de outra conversa, em breve. At茅 l谩, vamos ficar como o canoeiro e Paes Loureiro, de bubuia, livre para 鈥減ensar na vida鈥 e elaborar as narrativas do nosso imagin谩rio.
Refer锚ncias:
Jo茫o de Jesus Paes Loureiro: Mundamaz么nico: do local ao global.聽Revista Sentidos da Cultura, v. 1, n. 1, p. 31-40, 2014.
I Bienal das Amaz么nias: https://www.instagram.com/bienalamazonias/
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