O que pode um acervo? Essa pergunta de fundo espinosista-deleuzeana parece ter guiado a curadoria da exposi莽茫o 鈥淓xist锚ncias paralelas 鈥 acervo em (des)constru莽茫o鈥, em cartaz na Pinacoteca do Cear谩 at茅 novembro de 2025 (https://pinacotecadoceara.org.br/exposicoes/existencias-paralelas-acervo-em-desconstrucao/). Como o t铆tulo indica, trata-se de um esfor莽o cr铆tico diante de um conjunto de obras que foram sendo acumuladas ao longo de d茅cadas pelo governo cearense, sem que, de modo geral, houvesse uma pol铆tica de aquisi莽茫o ou recebimento de doa莽茫o.
A reivindica莽茫o por um espa莽o que salvaguardasse e expusesse as pinturas feitas no estado (sentido primeiro e, portanto, conservador da ideia de 鈥減inacoteca鈥) se iniciou nos anos 1940 quando foi criada em Fortaleza a Sociedade Cearense de Artes Pl谩sticas 鈥 SCAP. A agremia莽茫o afirmou a arte moderna no estado e promoveu a realiza莽茫o dos Sal茫o de Abril, ainda hoje existente sob responsabilidade da Prefeitura da capital. Atuaram na SCAP artistas que ganhariam proje莽茫o nacional e internacional como聽Antonio Bandeira聽e聽Aldemir Martins. Foram esses jovens pintores, em conjunto com artistas oriundos de gera莽玫es passadas, que lideraram, l谩 atr谩s, a luta por uma pinacoteca no estado.
N茫o 茅 脿 toa que quando foi finalmente inaugurada em dezembro de 2022, a Pinacoteca do Cear谩 apresentou as exposi莽玫es 鈥淣o l谩pis da vida n茫o tem borracha鈥 e 鈥淎mar se aprende amando鈥, ambas em homenagem aos 100 anos de nascimento, respectivamente, de Aldemir e de Bandeira. Mas se a refer锚ncia inaugural 茅 a estes pintores centen谩rios, se ainda vivos, o equipamento n茫o foi criado como espa莽o do passado e por meio de um esp铆rito saudosista e enaltecedor de uma suposta arte genu铆na cearense. Tanto que a outra exposi莽茫o que abriu o equipamento foi 鈥淪e Arar鈥 que j谩 trazia olhares sobre o acervo, reunindo artistas cearenses de v谩rias gera莽玫es e mais artistas convidados.
Como situa a curadoria feita por Cec铆lia Bed锚, Herbert Rolim, Lucas Dilacerda, Maria Mac锚do e Adriana Botelho, em 鈥淪e Arar鈥 h谩 鈥渦ma diversidade de t茅cnicas, po茅ticas, mat茅rias, temas, repert贸rios, gera莽玫es e corpos que constituem a pluralidade cin茅tica e din芒mica da produ莽茫o art铆stica cearense鈥, criando di谩logos 鈥渄e modo a revelar uma heran莽a est茅tica, e uma repeti莽茫o diferencial de discursividades e visibilidades鈥.
Ent茫o, quando Lisette Lagnado, Jos茅 Eduardo Ferreira Santos e Yuri Firmeza, curadora e curadores de 鈥淓xist锚ncias paralelas鈥 se perguntam 鈥渜ue acervo 茅 esse?鈥 o problema j谩 estava posto. Mas me parece que acrescentam mais uma camada a este debate que se materializa em uma segunda quest茫o subjacente 脿 exposi莽茫o: o que pode uma curadoria?
Lisettte, uma migrante que veio do Congo e se radicou em S茫o Paulo; Jos茅 Eduardo, um soteropolitano nascido e criado no sub煤rbio ferrovi谩rio de Salvador; e Yuri, um cearense nascido na capital paulistana 鈥 o cruzamento desses territ贸rios e trajet贸rias possibilitou uma proposta curatorial que descontruiu e reconstruiu o acervo da Pinacoteca, como tamb茅m o pr贸prio empreendimento de selecionar e montar a exposi莽茫o. O movimento escolhido foi o de descentralizar a partir de um conceito ampliado de 鈥渧izinhan莽a鈥. N茫o s贸 quem mora do lado, mas, diria, 鈥渁o lado鈥, no sentido de seguir junto e aliado. Assim, a curadoria se ampliou e incorporou novos e novas curadores e curadoras de outros territ贸rios e institui莽玫es n茫o consagradas ou consagradoras no sistema de arte: De虂bora Soares e Ismael Gutemberg do Nu虂cleo de Patrimo虃nio Cultural do Moura Brasil, Die虃go di Paula do Acervo Mucuripe, Dona Toinha do munic铆pio de Tururu, Paula Machado do Minimuseu Firmeza e T茅rcio Araripe do distrito de Moita Redonda no munic铆pio de Cascavel.
Resultado de bons meses de pesquisa, esse compartilhamento de cura do acervo e com ajuda de trabalhos de fora dele se materializou em cinco n煤cleos: Modos de produ莽茫o e circula莽茫o; Moderno popular; Formas votivas e celebra莽玫es; Mem贸rias territoriais; e Miscel芒nea documental. N煤cleos que buscam, como indicam os curadores e as curadoras, incorporar 鈥渙 tecido social com o objetivo de evidenciar vidas singulares que, nos descompassos do tempo, foram pulverizadas em guaridas diversificadas, algumas improvisadas e informais, mas que seguem testemunhando a puls茫o criativa atrav茅s de muitas 茅pocas, t茅cnicas e estilos, transitando entre o acad锚mico, o popular, o moderno e o experimental, como uma nascente cont铆nua鈥.
Inspirada na no莽茫o foucaultiana de 鈥渆xist锚ncias-rel芒mpagos鈥, Lisette, Z茅 Eduardo, Yuri, De虂bora, Die虃go Dona Toinha, Paula e T茅rcio fizeram, ao final, uma 鈥渁ntologia de exist锚ncias鈥 鈥 antologia esta que se amplia com o p煤blico e com cada olhar ao se deparar com ela, como um rel芒mpago, agora o benjaminiano, a iluminar novas exist锚ncias.
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