Por Fabr铆cio Marques, da Revista Pesquisa FAPESP

Alexandre Affonso/Revista Pesquisa FAPESP
Cresceu ao longo das 煤ltimas tr锚s d茅cadas a propor莽茫o de pretos, pardos e ind铆genas entre as pessoas que concluem cursos de p贸s-gradua莽茫o stricto sensu no Brasil, embora os brancos ainda sejam perto de dois ter莽os dos formados (68,6% dos doutores e 62,9% dos mestres titulados em 2021). Em todas as regi玫es brasileiras, o percentual de brancos entre os p贸s-graduados 茅 maior do que a propor莽茫o de seu grupo racial na popula莽茫o regional. No Sul, os brancos s茫o 72,6% dos habitantes, mas concentraram 84,4% dos t铆tulos de mestrado e 85,6% dos de doutorado em 2021.
J谩 no Nordeste, a popula莽茫o branca representou 26,7% do total e respondeu por 39,1% dos mestres e 43,9% dos doutores em 2021. Um destaque positivo 茅 que se trata da 煤nica regi茫o do pa铆s em que a propor莽茫o de pretos na popula莽茫o, de 13%, se equipara 脿 de mestres formados em 2021 (13,5%) e de doutores (11,1%), enquanto os pardos ainda enfrentam desvantagem (59,6% da popula莽茫o, 45,4% dos mestres e 42,5% dos doutores).
Esses dados fazem parte de um cap铆tulo in茅dito sobre ra莽a ou cor do estudo Mestres e doutores 2024, produzido pelo Centro de Gest茫o e Estudos Estrat茅gicos (CGEE), que re煤ne dados estat铆sticos sobre 1.001.861 mestres e 319.211 doutores titulados no Brasil entre 1996 e 2021. Parte dos resultados do estudo foi divulgada no ano passado (ver Pesquisa FAPESP n潞 340). 鈥淓mbora tenha havido v谩rias a莽玫es para ampliar a inclus茫o racial na p贸s-gradua莽茫o brasileira, a assimetria no acesso ainda 茅 muito grande鈥, observa Sofia Daher, assessora t茅cnica do CGEE que coordenou o estudo. A situa莽茫o dos ind铆genas 茅 ainda mais desfavor谩vel, com apenas 196 mestres e 54 doutores formados em 2021. 鈥淓nquanto pretos e pardos ampliaram sua participa莽茫o de forma consistente entre os formados nos 煤ltimos anos, os ind铆genas tiveram um ritmo de crescimento baixo e v茫o precisar de um impulso fort铆ssimo para ganhar representatividade鈥, diz Daher.
O CGEE publica o levantamento sobre mestres e doutores periodicamente desde 2010, mas 茅 a primeira vez, na s茅rie hist贸rica que inclui dados a partir de 1996, que analisa a origem 茅tnica dos titulados. Havia uma dificuldade em produzir esse tipo de diagn贸stico devido ao n煤mero elevado de formados que n茫o declaravam sua ra莽a ou cor na plataforma de curr铆culos Lattes 鈥 em 1996, faltava esse tipo de informa莽茫o sobre 47,5% dos mestres e 44,5% dos doutores titulados. O percentual foi diminuindo com o tempo 鈥 os n茫o declarantes de ra莽a foram apenas 7,9% dos que receberam t铆tulo de mestre e 9,5% dos de doutor em 2021. Isso permitiu, pela primeira vez, gerar dados representativos da realidade.
A propor莽茫o de doutores pretos subiu de 1,8% do total em 1996 para 6,2% em 2021, enquanto a dos pardos cresceu de 9,7% para 23,3% no per铆odo. O antrop贸logo Pedro Jaime, autor do livro Executivos negros: Racismo e diversidade no mundo empresarial, ficou surpreso com o crescimento observado entre os pardos. Esperava um aumento maior no contingente de pretos. 鈥溍 que temos observado, do ponto de vista antropol贸gico, um deslocamento identit谩rio ao longo do tempo no Brasil com um n煤mero maior de pessoas que se viam como pardas passando a se autodeclarar pretas鈥, explica.
O estudo trouxe dados inesperados sobre inser莽茫o no mercado de trabalho. Entre os pretos e pardos que conseguiram superar obst谩culos de acesso 脿 p贸s-gradua莽茫o e obter o grau de mestre e doutor, h谩 uma propor莽茫o ligeiramente maior do que a observada nas demais ra莽as de indiv铆duos com trabalho formal. Dois anos ap贸s obterem a titula莽茫o de mestre, 63,2% dos pardos e 61,8% dos pretos estavam empregados em 2021, ante 57,2% dos brancos, 55,7% dos amarelos e 52,9% dos ind铆genas. Entre os doutores formados dois anos antes, 71,2% dos pardos e 69,9% dos pretos tinham empregos formais, ante 65,4% dos brancos, 58,9% dos amarelos e 52,4% dos ind铆genas.
J谩 a an谩lise da remunera莽茫o recolocou os brancos 脿 frente. Entre os homens, os brancos com t铆tulo de doutor recebiam uma remunera莽茫o m茅dia de R$ 17.657,98, R$ 1.842 mais do que os pretos e R$ 373 mais do que os pardos. Entre as mulheres, o patamar salarial era significativamente inferior: as brancas com t铆tulo de doutorado t锚m remunera莽茫o m茅dia de R$ 14.756,64, quase o mesmo valor recebido pelas pardas e R$ 483 mais do que as pretas. No mestrado, as dist芒ncias s茫o semelhantes: no topo est茫o os homens brancos, com m茅dia de R$ 12.459,97, e, na lanterna, as mulheres pretas, com R$ 8.595,87. 鈥淎s mulheres ganham menos do que os homens em todas as regi玫es e em quase todas as 谩reas do conhecimento鈥, explica Daher. 鈥淢as a situa莽茫o 茅 pior para as negras, que sofrem uma dupla carga de desvantagem.鈥
Na avalia莽茫o do economista Pedro Vaz do Nascimento Almeida, um estudioso dos negros no mercado de trabalho, 茅 necess谩rio aprofundar a an谩lise das condi莽玫es do emprego dos mestres e doutores pretos e pardos. 鈥淎 remunera莽茫o menor sugere que eles podem enfrentar condi莽玫es reais desfavor谩veis鈥, afirma. 鈥淥 mercado de trabalho no pa铆s tem uma base extensa de ocupa莽玫es de baixa qualidade, com remunera莽茫o baixa, em geral de menos de dois sal谩rios m铆nimos, cujas vagas s茫o preenchidas predominantemente por pretos e pardos. N茫o h谩 raz玫es objetivas para mestres e doutores ficarem imunes a reflexos desse aspecto do racismo do pa铆s鈥, afirma Almeida. At茅 o final do ano, o CGEE deve divulgar mais um cap铆tulo do estudo, agora sobre a mobilidade dos mestres e doutores pelo territ贸rio nacional.
A reportagem acima foi publicada com o t铆tulo 鈥Diversidade limitada鈥 na edi莽茫o impressa n潞 355 de setembro de 2025.
Este texto foi originalmente publicado por Pesquisa FAPESP de acordo com a licen莽a Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.
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