Por Kenia Cuna

07.11.2008. Ipojuca. Crédito: Otavio de Souza. Palestra sobre a Literatura de Cabo Verde durante a IV Festa Literária Internacional de Porto de Galinhas na praia de Porto de Galinhas. Escritora moçanbicana Paulina Chiziane.
Li Paulina Chiziane pela primeira vez quando pisei nas terras do Índico, em dezembro de 2010. Na verdade, comecei a ler o seu livro Baladas de Amor ao Vento (1990) no regresso para o Brasil, durante a madrugada, enquanto esperava a conexão para Belo Horizonte, que sairia somente às 7h da manhã. Chovia muito. Chuvas de janeiro. Eu mergulhava profundamente na história de Sarnau, com o afã de me manter conectada com essa parte da África onde havia estado por apenas dez dias. Era muito pouco para a sede que eu tinha.
Depois, reencontrei-a novamente em minhas pesquisas e vivências em Moçambique, relacionadas aos antepassados, e li Ngoma Yethu: O Curandeiro e o Novo Testamento, no qual a autora faz uma crítica pertinente às visões e narrativas deturpadas sobre esse sistema de crenças e práticas que envolvem a existência e o exercício dos curandeiros na sociedade moçambicana.
Perpassei também por suas palavras em O Canto dos Escravos (2018), onde a autora denuncia, em forma de poemas, um dos maiores flagelos humanos: a subversão do outro em coisa, mercadoria. Aliás, não apenas li o livro, como tive a oportunidade de vê-la falar sobre ele no Centro Cultural Brasil–Moçambique, hoje denominado Instituto Guimarães Rosa.
De lá para cá, confesso que me perdi dela. Neste ano, em uma das minhas idas à minha livraria preferida na cidade de Maputo, tive a felicidade de ver que suas grandes publicações tinham sido reeditadas. Havia um bom tempo que não se encontravam seus livros nas prateleiras. A dúvida era: qual livro comprar ou por onde começar o nosso reencontro?
Movida pelo anseio de compreender o que havia me fascinado no passado, decidi reler, depois de 14 anos, Baladas de Amor ao Vento. Esse foi o primeiro livro de Chiziane, mas ela é intensa, marcante e questionadora desde o princípio. Utiliza o enredo do amor para abordar aspetos profundos da história da sociedade moçambicana — fatos históricos recentes, propulsores de mudanças estruturais, que reverberam no tempo atual em necessidades ainda não atendidas, sobretudo no que diz respeito à estabilidade política, justiça e igualdade.
Em Baladas de Amor ao Vento, Chiziane fala dos meios de opressão do colonialismo, da presença do cristianismo e das suas pretensas formas de civilização. Ela escreve de forma leve sobre a base de organização social dos grupos étnicos, o sistema de parentesco e suas estratificações sociais, regras de casamento, herança, chefia e sucessão.
Em O Sétimo Juramento, Chiziane vai além de todas as expectativas. Um livro publicado pela primeira vez em 2000, mas que continua, em grande medida, a nos fazer refletir sobre as condições presentes. Nele, a autora retrata a conjuntura e as contradições de um povo que disse “não” à subjugação colonial, mas que teve dificuldades em lidar com ideias divergentes acerca do Estado-nação que desejavam construir — e guerrearam entre si.
Paulina Chiziane fala do poder em suas diferentes formas e nuanças, desvios de recursos, ambição, amor, sexo, corpo, desejo (até os mais obscuros), raiva, vingança, crença nos antepassados, prática dos curandeiros, feitiço, rituais, desigualdades entre cidade e campo, entre elites e subúrbios, do horror da guerra e da negação da dignidade de certas camadas da sociedade. Ela fala de poligamia e lobolo a partir de uma perspetiva interna, do seu lugar de mulher africana e moçambicana, a atravessar as diferentes camadas que compõem esses fatos. Ao assumir esse lugar, ela tece discussões que são caras aos estudos de género e feministas. A abordagem de Paulina nesse âmbito é provocativa e requer que os leitores e leitoras desconstruam ideias pré-concebidas.
Sua escrita retrata, também, as incongruências dos anseios que marcaram a luta pela liberdade e a apropriação da coisa pública sob a justificativa do merecimento por ter estado nas trincheiras, com armas nas mãos, a lutar por todos. Retrata também o não lugar da elite moçambicana, que, ávida por títulos, cargos, viagens ao exterior, artigos de luxo e dinheiro, adere ao discurso do colonizador e passa a categorizar como atraso e não civilizado os aspetos orientadores da organização social e da diversidade étnica tão pungente no país. Contudo, o discurso é diferente da prática, pois, quando não se consegue sustentar o insustentável, explicar o inexplicável na lógica racional científica, busca-se respostas e soluções ensinadas pelos mais velhos.
Paulina Chiziane promove um debate alargado, sem classificar os fatos, práticas e problemáticas de sua terra em dualidades reducionistas e livre da ótica do pensamento cartesiano. Ela faz aquilo que Achille Mbembe[1] nos convida a fazer: olhar e analisar os fenômenos da África a partir deles mesmos, a partir do que são — e não do que não são ou deveriam ser, segundo um prisma ocidental.
A genialidade da sua escrita consiste em debater temas profundos e complexos sem o uso de termos teóricos, a utilizar o seu conhecimento para dar voz à narrativa e vida aos personagens. A voz é um ponto fundamental nos trabalhos de Paulina Chiziane, e isso a singulariza como autora. Apesar de usar a linguagem escrita, a forma como ela escreve é tão própria e fluida que dá a impressão de estar a ouvi-la narrar os fatos, portanto, a utilizar a linguagem oral, tão cara e proeminente em sua terra.
Paulina Chiziane deveria ser leitura obrigatória no ensino secundário e em diferentes cursos acadêmicos em Moçambique. Seus livros deveriam ser lidos e debatidos nos cursos de ciências humanas e sociais no mundo, sobretudo naqueles que têm a pretensão de promover um debate pós-colonialista e a partir de outras epistemologias. Sua grandeza transcende o espectro literário e não deve ser enquadrada em um estilo.
Em sua escrita, os debates não se fecham. Muito pelo contrário, ela permite a abertura de caminhos, pensamentos, questionamentos, conjeturas, pesquisas e análises. Ela alimenta aquilo que minha filha Kianga, de onze anos, reivindicou ter ao tentar me convencer de que tem idade, capacidade para lê-la e entendê-la: “pensamento político”.
Nesses tempos difusos, em que a leitura e a escrita têm se esvaído e perdido cada vez mais espaço, convido todos e todas a “maratonar” os livros de Paulina Chiziane. Há muito o que conhecer e aprender por meio deles! Ao lê-la é possível fazer uma imersão em uma parte de África que é desconhecida ou negada. Ventos do Apocalipse será o próximo livro da minha maratona e não há dúvidas de que irei agregar novos conhecimentos para o meu acervo, como também ampliar minha visão acerca de diferentes temas e fatos! Estou ansiosa para ouvi-la!
[1] Mbembe, Achille. O tempo que se move. Tradução de Michelle Cirne. Cadernos de Campo, v. 24, n. 24, São Paulo: PPGAS-USP, 2015.
Serviço: Várias obras de Paulina Chiziane na Amazon.com.br.
CHAMADA PARA PUBLICAÇÃO Revista Observatório da Diversidade Cultural, volume 104, nº 01/2026 Diversidade Cultural e Ação Comunitária: possibilidades, experiências e desafios Período para submissão: 09 de março a 04 de maio de 2026 A Revista do Observatório da Diversidade Cultural convida pesquisadoras(es), gestoras(es) culturais, educadoras(es), artistas, estudantes, lideranças comunitárias e integrantes de coletivos culturais […]
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