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COLUNAS

O Festival Velha Joana como Ecossistema de Encontros: teatro, crítica e acessibilidade em Primavera do Leste – Por Paula Gotelip

Por Paula Gotelip

Quando penso no Festival Velha Joana, não penso apenas em uma programação de espetáculos, mas em um modo de existir em coletivo. Há quase duas décadas, Primavera do Leste, no interior de Mato Grosso, transforma o Cerrado em palco e sala de aula ao mesmo tempo. Este texto nasce desse lugar: de quem acompanha o festival com o olhar de artista, pesquisadora e, também, de pessoa surda e neurodivergente que precisa negociar sons, luzes e modos de estar na plateia.

Mais do que oferecer respostas, o que proponho aqui é compartilhar algumas pistas de leitura e abrir perguntas. O Festival Velha Joana já é um caso exemplar de descentralização cultural e de formação de público; justamente por isso, ele também é um lugar potente para pensarmos juntos acessibilidade, diversidade de corpos e novas formas de mediação.

Criado em 2007 pelo Grupo de Teatro Faces, o festival homenageia em seu nome a primeira moradora da cidade, a “Velha Joana”. Esse gesto simbólico diz muito: em vez de buscar referências apenas externas, o festival se ancora numa figura local para afirmar pertencimento, memória e resistência em um território frequentemente associado ao agronegócio, e não à produção de subjetividades artísticas.

Essa relação entre nome, memória e futuro aparece também no espetáculo infantil “ZUMZUMZUM ou Ensaio Sobre o Tempo ou Colmeia”, dirigido por Danilo Carvalho, em que as crianças prestam uma homenagem direta a Wanderson Lana e ao próprio Teatro Faces. Ao agradecerem em cena pelo caminho aberto, elas não apenas reverenciam quem veio antes, mas aprendem, fazendo teatro, a manter viva a memória do grupo e da cidade, seguindo o gesto inaugurado pelo nome do festival: homenagear o que ainda está vivo, reconhecer uma história em movimento e afirmar que essa memória segue sendo construída no presente.

Ao longo dos anos, o Festival Velha Joana cresceu em números e em densidade: são centenas de espetáculos apresentados, milhares de artistas circulando pela cidade e um público que, em pouco tempo, aprendeu a incluir o teatro em sua rotina. Mas talvez o dado mais importante não esteja nas planilhas, e sim numa percepção recorrente de quem passa por lá: Primavera do Leste não “recebe” apenas teatro; ela produz teatro, pensamento e modos próprios de ler a cena.

O festival transformou uma cidade sem tradição teatral em um polo exportador de metodologias de ensino e criação. A Escola Municipal de Teatro Faces, os grupos locais e a rede de artistas que se formou em torno do festival criaram um circuito em que formação, fruição e crítica caminham juntos.

Na 19ª edição, a maior parte dos trabalhos apresentados nasce em casa: é a Mostra Panorama que ocupa o centro da programação, colocando em cena a produção teatral e o percurso de formação da cidade. São performers, atores, bailarinos, grupos e companhias de Primavera do Leste assumindo o palco e mostrando o resultado de anos de escola de teatro, oficinas e projetos continuados.

Em vez de ser apenas “plateia” dos grupos convidados, a cidade se torna referência: os artistas da Mostra Em Pauta, da Mostra Encontros da Velha e os demais convidados assistem à cena local, encontram essas obras, comentam, trocam. Essa escolha inverte a lógica predominante dos festivais, em que o interior costuma olhar para fora; aqui, o teatro que vem de outros estados e países também se reúne para olhar para o que se cria em Primavera do Leste.

A Mostra Em Pauta traz processos cênicos de diferentes regiões do Brasil, aproximando públicos e artistas em debates e mediações que se desdobram após as apresentações. Já a Mostra Encontros da Velha reúne grupos de Mato Grosso, de outros estados e da América Latina, ampliando ainda mais a rede de trocas. Juntas, as três mostras desenham um mapa do teatro brasileiro a partir do Cerrado, com a produção local ocupando o centro da roda.

Corpos diversos, poéticas e acessibilidade em cena

As edições mais recentes do festival evidenciam uma curadoria atenta à diversidade de corpos, temas e linguagens. Espetáculos como “Sebastião”, do Ateliê 23 (AM), levaram ao Cerrado discussões sobre gênero e performance a partir de uma perspectiva amazônica. Ao mesmo tempo, performances como “Alegorya – O Desfile”, criadas por artistas da própria Primavera do Leste, mostram que a dissidência também brota do solo local, ocupando as ruas e a cena com existências queer que desafiam normas e expectativas.

A presença de grupos convidados, por sua vez, contribui para ampliar o horizonte de referências do público e dos artistas da cidade. Esse convívio de formas tão distintas faz do festival um verdadeiro ecossistema: uma convivência de obras que se tensionam, se iluminam mutuamente e oferecem ao público a oportunidade de experimentar diferentes modos de estar em cena e na plateia.

Se, por um lado, o Festival Velha Joana já promove debates sobre estética, política, formação e territorialidade, por outro lado ele também abre espaço para que pensemos, com calma e generosidade, os desafios ligados à acessibilidade. É fundamental registrar um avanço visível nesta edição: a presença de intérpretes de Libras em boa parte da programação. Contudo, essa conquista técnica nos convida a dar um passo adiante na reflexão. Há uma diferença crucial entre garantir a tradução simultânea de uma obra e construir uma verdadeira “cultura do acesso”. Não se trata apenas de tornar o espetáculo compreensível através de um recurso externo, mas de discutir poéticas da deficiência, incorporando essas existências à dramaturgia e à estética desde o princípio, tensionando a própria forma de fazer teatro. Nesse contexto, o trabalho do intérprete Túlio Adriano merece destaque: em diferentes situações em que o material não chegava de forma adequada até ele foi necessário lidar, ao vivo, com lacunas de informação. Ainda assim, ele conduziu a interpretação com sensibilidade e competência, evidenciando tanto a importância do seu trabalho quanto a urgência de que os processos de criação e produção considerem, desde o início, as condições para que a acessibilidade possa acontecer de modo pleno.

Há experiências muito importantes nesse campo que já passaram pelo festival. Um exemplo é o espetáculo “Dois Pais”, apresentado em outra edição, em que a Libras aparece integrada à cena, não apenas como tradução lateral, mas como parte da composição, afetando ritmo, espacialidade e relações entre personagens. Quando a língua de sinais se torna linguagem cênica, quem ganha não é apenas o público surdo; toda a plateia é convidada a ver e sentir de outras formas.

Ao mesmo tempo, há camadas da acessibilidade que se revelam nas pequenas cenas do cotidiano. Falo aqui em primeira pessoa: como pessoa surda usuária de aparelho auditivo e neurodivergente, já precisei, durante um espetáculo no festival, ajustar o volume do aparelho no meio da apresentação. O som estava me incomodando em alguns momentos, e eu precisava mexer no celular para acessar o aplicativo de controle. Avisei a produção antecipadamente, porque sabia que poderia precisar desse recurso, mas, idealmente, eu não deveria ter que justificar esse tipo de ajuste: é parte da minha forma de estar na plateia. Ainda assim, em determinado momento, uma pessoa da produção me pediu, com todo cuidado, para diminuir o brilho para não atrapalhar a plateia.

Esse episódio, conduzido com delicadeza, me fez pensar em algo maior. Não se trata de um “erro” da produção daquele espetáculo ou de um festival específico, mas de um aprendizado que ainda estamos fazendo coletivamente:

• Como conciliar a ética de “não atrapalhar o espetáculo” com o direito de cada pessoa a regular seus próprios recursos de acessibilidade?
• Como prever, na comunicação com o público, que aparelhos, tablets, celulares e ajustes pessoais fazem parte da experiência de muitas pessoas com deficiência e pessoas neurodivergentes?

A partir daí, surgem outras perguntas importantes para o Festival Velha Joana e, de novo, não apenas para ele, mas para tantos festivais pelo Brasil:

• Como comunicar previamente ao público as condições de som, luz, duração e lotação das sessões, para que pessoas neurodivergentes, surdas, cegas ou com outras necessidades sensoriais possam se organizar?
• Como desenhar sessões com adaptações sensoriais, zonas de descanso ou lugares menos expostos a caixas de som e focos de luz intensa?
• Como incluir pessoas com deficiência não só como público e tema de obras, mas também na curadoria, na crítica, na mediação e nas equipes de produção?

Não trago essas questões como denúncia, mas como convite. O próprio festival, com sua experiência em formação e em escuta crítica, parece ter todas as condições para ser também um laboratório de novas práticas de acessibilidade, em diálogo com quem vive essas necessidades no corpo.

Política cultural e continuidade no interior

Nada disso seria possível sem uma política pública que aposta na cultura como projeto de cidade. O Festival Velha Joana se sustenta na ação do Grupo de Teatro Faces e da Associação Cultural, mas também no fomento vindo das três esferas: recursos do município, do estado e da União.

A continuidade do festival e da Escola Municipal de Teatro também se deve à postura da gestão atual: o secretário de Cultura que, mesmo não tendo criado o projeto, decidiu mantê-lo e fortalecê-lo, participando ativamente da programação, estando presente nos debates, nas plateias e nas conversas com artistas. Esse engajamento institucional indica que o Festival Velha Joana não é tratado apenas como “evento”, mas como política de longo prazo.

Em edições como a XIX, o festival se concretiza a partir de uma teia de parcerias: é promovido pela Associação Cultural Teatro Faces em diálogo com a Prefeitura Municipal de Primavera do Leste, por meio da Secult – Secretaria de Cultura, Lazer e Juventude, com o Ponto Faces de Cultura, pela SECEL – Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer e pelo Governo de Mato Grosso. A produção artística é assumida pelos três grupos de teatro da cidade – Teatro Faces, Teatro Faces Jovem e Grupo Primitivos – e ainda conta com o apoio de parceiros locais, como a Cooperativa Sicoob, que ajudam a viabilizar a estrutura necessária para receber artistas e público.

Ao reunir artistas para discutir direitos culturais e futuro, o festival reafirma que cidades como Primavera do Leste não são coadjuvantes: produzem conhecimento, estética e projetos contínuos. O Velha Joana é, ao mesmo tempo, fruto e motor dessa organização coletiva.

Para seguir conversando

Depois de percorrer essas camadas: a produção local, a diversidade de corpos em cena, as políticas culturais e os desafios da acessibilidade, chego menos a conclusões e mais a novas perguntas.

O Festival Velha Joana já se consolidou como um dos festivais mais importantes do país fora dos grandes centros, tanto pela qualidade da programação quanto pela profundidade do debate que promove. Seu legado passa pela formação de artistas e públicos, pela criação de uma estética própria enraizada no Cerrado e pela construção de um ecossistema que conecta escola, festival e cidade.

Talvez o próximo movimento seja justamente radicalizar aquilo que o festival já faz bem: abrir espaço para conversas difíceis sem perder o afeto. Isso inclui trazer a acessibilidade para o centro da curadoria, ampliar a participação de pessoas com deficiência em todas as etapas do processo e continuar experimentando poéticas que integrem, em vez de segregar, diferentes modos de perceber o mundo.

O Festival Velha Joana já deixou clara a sua força como espaço de formação, criação e encontro. Ao aproximar produção local, grupos de diferentes regiões do país, crítica, políticas públicas e debates sobre acessibilidade, ele desenha, a partir do interior, outras formas de pensar o teatro brasileiro.

Talvez o desafio daqui em diante seja seguir abrindo espaço para novas vozes, novos corpos e novas perguntas: na cena, na plateia, na gestão e na crítica. Mais do que chegar a respostas prontas, o que o festival parece nos oferecer é a possibilidade de continuar pensando juntos. E isso, em si, já é um gesto de futuro.

Referências Bibliográficas

ALEGORYA – O DESFILE. Produção: Distrito Anayumi. Apresentado em: Centro Cultural Evangeline Alcantara Takeuchi, Primavera do Leste, MT, 11 nov. 2025, 21h. Espetáculo teatral.

DOIS PAIS. Direção: Manu Hashimoto. Produção: Coletivo Macacos Alados. Espetáculo teatral sobre flores, homofobia e paternidade, com acessibilidade em Libras integrada à cena.

FESTIVAL VELHA JOANA. 19. ed. Primavera do Leste, MT, 2025. Realização: Associação Cultural Teatro Faces; Prefeitura Municipal de Primavera do Leste; Governo do Estado de Mato Grosso. Disponível em: <https://festivalvelhajoana.com/sobre/\>. Acesso em: 21 nov. 2025.

SEBASTIÃO. Produção: Ateliê 23. Apresentado em: Teatro Municipal, Primavera do Leste, MT, 2025. Espetáculo teatral.

ZUMZUMZUM OU ENSAIO SOBRE O TEMPO. Direção: Danilo Carvalho. Produção: Colmeia. Apresentado em: Teatro Municipal, Primavera do Leste, MT, 2025. Espetáculo teatral

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