COLUNAS

Josina Machel e o Dia da Mulher Moçambicana – a luta continua! – Por Kenia Cuna

Por Kenia Cuna

No dia 7 de abril é comemorado o Dia da Mulher Moçambicana. Data de forte relevância nacional, está atrelada à participação da mulher na luta contra o colonialismo e todos os mecanismos de opressão a ele associados.

O símbolo emblemático que representa a mulher moçambicana nessa luta é Josina Machel. Antes de se casar, em 1969, com aquele que seria o primeiro presidente de Moçambique, Samora Machel, Josina já possuía, desde a tenra idade, um histórico ligado à resistência, pois pertencia à família Muthemba, onde vários de seus membros participaram desse movimento de luta pela independência. (LIBERATION SUPPORT MOVEMENT, 1974, p. 54)[1].

Josina Machel morreu jovem, aos 25 anos, no dia 7 de abril de 1971, antes de ver a liberdade se materializar e pouco depois de dar à luz ao seu único filho, Samora Machel Júnior. Contudo, ela e várias outras mulheres moçambicanas participaram de forma ativa dessa luta armada, que durou aproximadamente uma década.

As mulheres começaram a ter um papel de relevo no processo que visava à independência de Moçambique em 1967, ano em que foi formado, dentro da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), o Destacamento Feminino. Através dele, as mulheres receberam treinamento militar e foram inseridas em várias frentes da luta, como combate, defesa, estratégia e mobilização popular de base. (LIBERATION SUPPORT MOVEMENT, 1974, p. 17).

A trajetória de Josina Machel foi intensa, marcada por fugas, atuação em núcleos de resistência clandestinos, prisão e tortura pela Polícia Internacional e de Defesa do Estado[2] (PIDE), estudos no exterior e treinamento militar. Ela se destacou em várias frentes: mobilização estudantil, formação política de mulheres, mobilização de base, promoção do debate dentro da FRELIMO sobre a participação ativa das mulheres no movimento, direção do Departamento das Relações Exteriores da FRELIMO, tratamento de feridos de guerra e cuidado de crianças órfãs, estando à frente da organização de diferentes infantários e centros sociais de acolhimento. (LIBERATION SUPPORT MOVEMENT, 1974, p. 55).

A história de Josina Machel e de várias outras mulheres moçambicanas que estiveram na trincheira para aquilo que se pensava ser um movimento revolucionário é de suma importância para a história da África, especialmente no que se refere aos movimentos de independência. Conhecer e enaltecer a história de Josina Machel e de tantas outras mulheres é fundamental para dar visibilidade às mulheres pretas africanas e descentralizar as narrativas de luta e resistência dos grupos hegemônicos. Quando histórias não são contadas, conhecidas e disseminadas, é como se elas não existissem. Essa é uma forma eficaz de manter a centralidade e a referencialidade: inviabilizar a história e a luta de sujeitos que estiveram do lado oposto dos grupos opressores e foram classificados como submissos e incapazes.

Apesar de a independência de Moçambique ter sido conquistada em 1975 (um passado recente), com forte participação das mulheres, o fato é que a luta continua! E são muitas lutas, razão pela qual o dia 7 de abril continua a desempenhar importante função para as mulheres moçambicanas. Sim, mulheres, no plural, para dar ênfase à diversidade, pois o singular não contempla a pluralidade e as diferenças existentes.

As mulheres moçambicanas são muitas, de diferentes belezas, tons de pele, traços, etnias, vivências e trajetórias. E por mais que essa data as exalte, tenha a função de enaltecer o papel delas no país e reforçar o vínculo nacional identitário, é inegável que vivem realidades muito distintas do norte ao sul de Moçambique.

A população moçambicana conta com 34.958.973 pessoas, sendo que desse total 52% são mulheres. Moçambique é um país maioritariamente rural, onde 65% da população vive nos campos, dependente da agricultura familiar, pesca artesanal, extração de recursos florestais e atividades comerciais informais. São muitas as adversidades enfrentadas para se ter acesso a direitos sociais básicos, e as mulheres continuam a desempenhar um papel pungente para garantir a subsistência delas e de suas famílias. Para se ter uma ideia, 48% da população moçambicana é analfabeta, e desse total, 59% são mulheres — apenas para citar um direito básico: a educação. (INSTITUTO NACIONAL DE ESTATÍSTICA, 2019)[3].

Por isso, é fundamental dar visibilidade e enaltecer todas as mulheres que, do Rovuma ao Maputo, que percorrem quilómetros nas estradas desse país com lenha na cabeça, bebê na neneca e bidões de água nas mãos. Todas as mulheres que semeiam e colhem da terra as culturas que são a base de sua sobrevivência. Todas as que exercem atividades comerciais nos mercados, nas ruas, nas estradas, vendendo de tudo um pouco em busca de garantir o mínimo em suas mesas.

Devem ser enaltecidas também aquelas que romperam barreiras e estatísticas e conseguiram ocupar espaços nas universidades, em cadeiras de poder, seja no setor público, privado ou em organizações de desenvolvimento. Assim como todas aquelas que vivem das artes e da literatura, demonstrando toda a riqueza e diversidade da cultura moçambicana, mesmo sem incentivos para isso.

Não podem ser esquecidas as mulheres que lutam bravamente em situações adversas, como aquelas que pariram em árvores, sozinhas, em meio a situações extremas nos ciclones e cheias que, ano após ano, assolam o país. Como as bravas guerreiras da província de Cabo Delgado, que persistem e resistem a um conflito terrorista sem rosto, sem causas aparentes, que dura há 9 anos. Quanta força e resiliência possuem elas, que passam por abusos, traumas, veem seus filhos e maridos serem degolados ou desaparecidos, embrenham-se mata adentro, ficam dias em cima de árvores sem comer e andam quilómetros com seus filhos menores em busca de segurança, mesmo que momentânea.

Que sejam reconhecidas, respeitadas e admiradas todas as mulheres que são parte fundamental da rede de ajuda em suas famílias e comunidades, apoiando outras mulheres em momentos de escassez e aflição. Assim como todas as anciãs que transmitem ensinamentos que não estão nas escolas nem nos livros científicos, mas que são extremamente necessários para organizar a existência no contexto em que vivem.

Salve todas as mulheres desse país, que fazem o pouco se tornar muito e transformam folha de abóbora, folha de feijão, folha de mandioca e couve com coco e amendoim, acompanhadas de uma papa à base de farinha de milho ou de outro cereal, em uma refeição saborosa e peculiar, que alimenta o corpo e a memória.

Salve todas as mulheres moçambicanas, com suas capulanas e lenços, que dançam de maneira inigualável, balançam seus corpos de forma livre, cantam e soltam nkúlúngwána[4], espalham beleza e demonstram que, diante da ordem e do caos, a existência só faz sentido quando há partilha.

O legado de Josina Machel não foi em vão, e vossa luta também não será!

[1] LIBERATION SUPPORT MOVEMENT. A Mulher Moçambicana na Revolução. Tradução de Andrey Santiago, Luana Ferretti e Karen Anisia. Coordenação editorial de Andrey Santiago. Vancouver: Editora LSM, 1974. Tradução © TraduAgindo, 2021.

[2] Aqui se faz referência ao Estado colonial português.

[3] INSTITUTO NACIONAL DE ESTATÍSTICA (Moçambique). Censo populacional 2017: resultados definitivos. Maputo: INE, 2019.

[4] Som altamente difundido em África, similar a um apito estridente, que pode ser realizado a passar os dedos nos lábios ou a passar a língua rapidamente no céu da boca. Este som é uma louvação utilizada em momentos de alegria, mas também poder ser feito em momentos de tristeza.

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