Por Maria Fernanda Schofield
Clarice Lispector, Isabel Allende, Carla Madeira, Simone de Beauvoir, Anne Ernaux, Elena Ferrante e Clarissa Pinkola Est茅s.
Nos 煤ltimos tempos, tive a honra e o prazer de entrar em contato com as obras dessas autoras. Durante esse tempo, por meio delas, descobri realidades diferentes e aprendi, de forma significativa, sobre o universo feminino.
Quando falo de 鈥渦niverso feminino鈥, n茫o me restrinjo 脿s ideias impostas pela cultura e pela sociedade sobre o que as mulheres deveriam representar, mas sim aos sentimentos reais das diversas formas de ser mulher.
Com Clarice Lispector, aprendi que h谩 uma solid茫o fundamental presente em todo indiv铆duo. Senti, por meio dela, a dor e a vastid茫o de ser mulher: o abismo de sentimentos, reflex玫es, presen莽as e aus锚ncias. Conectei-me com o meu eu mais profundo, e 茅 em seus livros que volto quando me sinto perdida. Neles, encontro uma solidariedade tenra – a de saber que ela tamb茅m atravessava pelos mesmos abismos que eu.
Isabel Allende me recorda da magia e da m铆stica ligadas ao feminino. Por meio de suas personagens, percebo a for莽a da mulher e a multiplicidade de caminhos e vers玫es que podemos construir de n贸s mesmas. As personagens s茫o sens铆veis, mas nunca ing锚nuas. Adaptam-se, mas n茫o deixam de pensar e resistir. Apresentam-se como s茫o e encaram a vida como ela vem. Allende me mostra as in煤meras hist贸rias poss铆veis de serem constru铆das ao longo da vida – as voltas necess谩rias, os passos para tr谩s, os recome莽os e as conquistas que adv茅m desse percurso constante.
Carla Madeira me faz tocar na dor de viver em seu estado mais puro e desconfort谩vel. As ren煤ncias se transformam em feridas abertas; outras, em cicatrizes –聽 tudo permanece em nosso corpo at茅 o 煤ltimo respiro. Ela me mostra que ser mulher tamb茅m 茅 sofrer: pela impossibilidade de destinos n茫o vividos, pelas mutila莽玫es simb贸licas que a sociedade imp玫e. Somos, de certo modo, atravessadas pela vida. Ainda assim, devemos continuar vivas e atuantes, porque, apesar de tudo, ela vale a pena. Para Carla Madeira, o perd茫o 茅 poss铆vel – fazemos, em cada momento, aquilo que nos 茅 poss铆vel fazer, nada mais, nada menos.
Simone de Beauvoir me faz enxergar a sociedade sob outro 芒ngulo. O que antes me parecia natural agora desperta questionamentos: por que isso 茅 assim? O ser humano 茅 um ser em si e busca transcender, independentemente de seu sexo. Com ela, repenso valores e passo a perceber as viol锚ncias sutis do cotidiano que antes me escapavam. Aprendo a analisar a realidade de forma mais cr铆tica e atenta. Ser mulher carrega um peso e uma complexidade dif铆ceis de compreender, mas que Beauvoir consegue analisar de maneira fenomenal.
Anne Ernaux descreve, com simplicidade, sentimentos muito profundos. O amor, a partir de suas experi锚ncias, aparece como um sentimento devastador e paralisante. Em suas rela莽玫es com o outro, a mulher se descobre e passa por sensa莽玫es de perda e incompletude. Sua escrita revela o real: por fora, somos corpo, por dentro, um emaranhado de seres, ang煤stias e pensamentos.
Elena Ferrante retrata, de forma contundente, a densidade da realidade feminina e suas contradi莽玫es. Ser mulher 茅 querer superar-se. 脡 amar e invejar. 脡 sentir falta de algo que nunca foi seu, mas que ainda assim se busca. Ela me exp玫e o que h谩 de mais cru na viv锚ncia feminina, mostrando, sem disfarces, como crescemos e como, aos poucos, vamos nos tornando mulheres.
Clarissa Pinkola Est茅s me coloca em contato com o que h谩 de mais instintivo e selvagem em mim. Por meio dela, reconhe莽o os desafios que toda mulher enfrenta ao longo da vida e as armadilhas no caminho que nos afastam de nosso potencial. Nas suas hist贸rias, percebe-se o poder da comunidade e da ancestralidade para uma mulher. Em certos momentos, 茅 preciso parar, olhar para dentro de si e permitir que o instinto fale mais alto.
Nenhum dos livros que li oferece respostas prontas. Ao contr谩rio: eles nos convidam 脿 reflex茫o. A partir deles, reorganizo pensamentos antigos e construo um caminho pr贸prio, mais cr铆tico e consciente – da vida e do que 茅 ser mulher.
Os livros fazem isso. Em uma sociedade que constantemente nos empurra para fora de n贸s mesmas, eles nos devolvem a n贸s. N茫o 茅 no consumo desenfreado nem nas horas gastas em redes sociais que encontramos os mist茅rios do ser. 脡 no encontro silencioso com a leitura que entramos em di谩logo com o autor e com a gente mesmo.
Concordemos ou n茫o com as ideias apresentadas, sendo perspectivas novas ou j谩 institu铆das, a literatura permite explorar diferentes formas de existir. Torna-se presente a riqueza da multiplicidade de vidas, pensamentos e possibilidades.
A cada livro nos tornamos mais completas.
Refer锚ncias:
LISPECTOR, Clarice. Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
LISPECTOR, Clarice. A paix茫o segundo G.H. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
ALLENDE, Isabel. A casa dos esp铆ritos. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2017.
MADEIRA, Carla. V茅spera. Rio de Janeiro: Record, 2021.
MADEIRA, Carla. A natureza da mordida. Rio de Janeiro: Record, 2022.
BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo: fatos e mitos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016. v. 1.
BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo: a experi锚ncia vivida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016. v. 2.
ERNAUX, Anne. Paix茫o simples. S茫o Paulo: F贸sforo, 2020.
FERRANTE, Elena. A amiga genial. S茫o Paulo: Biblioteca Azul, 2015.
FERRANTE, Elena. Hist贸ria do novo sobrenome. S茫o Paulo: Biblioteca Azul, 2016.
FERRANTE, Elena. Hist贸ria de quem foge e de quem fica. S茫o Paulo: Biblioteca Azul, 2017.
FERRANTE, Elena. Hist贸ria da menina perdida. S茫o Paulo: Biblioteca Azul, 2018.
EST脡S, Clarissa Pinkola. Mulheres que correm com os lobos. Rio de Janeiro: Rocco, 2018
CHAMADA PARA PUBLICA脟脙O Revista Observat贸rio da Diversidade Cultural, volume 104, n潞 01/2026 Diversidade Cultural e A莽茫o Comunit谩ria: possibilidades, experi锚ncias e desafios Per铆odo para submiss茫o: 09 de mar莽o a 04 de maio de 2026 A Revista do Observat贸rio da Diversidade Cultural convida pesquisadoras(es), gestoras(es) culturais, educadoras(es), artistas, estudantes, lideran莽as comunit谩rias e integrantes de coletivos culturais […]
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