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Um Dia Depois do Outro: A Diversidade Biocultural pede passagem – Por Jos茅 M谩rcio Barros

Por Jos茅 M谩rcio Barros

As datas de 21 e 22 de maio formam um eixo conceitual importante dentro da agenda internacional da diversidade promovida pela UNESCO. Embora tratem de campos aparentemente distintos 鈥 cultura e natureza 鈥, a proximidade das datas nos convida para uma compreens茫o cada vez mais integrada entre modos de vida humanos, patrim么nio cultural, ecossistemas e sustentabilidade.

O dia 21 de maio, Dia Mundial da Diversidade Cultural para o Di谩logo e o Desenvolvimento, foi institu铆do ap贸s a Declara莽茫o Universal da UNESCO sobre a Diversidade Cultural (2001). A data enfatiza que a diversidade cultural al茅m de seu聽 valor simb贸lico e identit谩rio, constitui-se como um elemento estrat茅gico para o desenvolvimento sustent谩vel, a conviv锚ncia democr谩tica, a paz e o di谩logo intercultural.

J谩 o dia 22 de maio, Dia Internacional da Diversidade Biol贸gica, destaca a crise contempor芒nea da biodiversidade e a necessidade de proteger os ecossistemas diante de processos como mudan莽as clim谩ticas, polui莽茫o, urbaniza莽茫o predat贸ria e explora莽茫o excessiva dos recursos naturais. A prote莽茫o da biodiversidade exige, nessa perspectiva, a articula莽茫o entre ci锚ncia, natureza e cultura.

Portanto, a diversidade cultural e a diversidade biol贸gica n茫o devem ser pensadas como fen么menos independentes. Povos ind铆genas, comunidades tradicionais, quilombolas, ribeirinhos, agricultores familiares e diversas culturas locais produzem conhecimentos, pr谩ticas e formas de manejo ambiental que contribuem diretamente para a conserva莽茫o da biodiversidade. Por outro lado, os problemas ambientais frequentemente produzem s茅rias altera莽玫es no campo cultural: desaparecimento de pr谩ticas alimentares, cosmologias, modos de vida, etc.

N茫o estaria mais do que na hora de trabalharmos com o conceito e a pr谩tica da diversidade biocultural?

O termo聽diversidade biocultural聽permanece ausente nos discursos acad锚micos e nas narrativas militantes, tanto no campo da defesa e promo莽茫o da diversidade cultural, quanto no campo da biodiversidade. Essa aus锚ncia revela o quanto, a despeito da estreita rela莽茫o entre as quest玫es culturais e as quest玫es ambientais, continuamos separando o que deveria ser considerado de forma articulada. Conforme afirma o soci贸logo ambientalista mexicano Enrique Leff (2006), a Modernidade, entendida como modelo de organiza莽茫o pol铆tica, econ么mica e cultural singular, afastou a natureza da cultura. Entretanto, a crise ambiental em que vive a humanidade desde a segunda metade do s茅culo XX, e especialmente as evid锚ncias emp铆ricas ressaltadas pela pandemia de COVID-19, reacende a necessidade e a urg锚ncia de atualizar, propagar e criar mecanismos de controle social para a efetiva implementa莽茫o de uma Agenda Socioambiental sustentada pela perspectiva da diversidade biocultural.

A utiliza莽茫o cindida da diversidade cultural e da biodiversidade, mais do que limitar a efetividade das pol铆ticas p煤blicas, 茅, ela pr贸pria a nega莽茫o da pr贸pria diversidade. O legado da Modernidade 鈥 que de certa forma se estrutura na perspectiva antropoc锚ntrica de superioridade da cultura sobre a natureza 鈥 e as apropria莽玫es e usos distorcidos e oportunistas do modelo de desenvolvimento sustent谩vel como alternativa 脿 crise ambiental que d茅cada a d茅cada recrudesce, parecem ser os respons谩veis por essa sutil e paradoxal realidade. Discursivamente integramos natureza, cultura e suas diversidades. Mas tal integra莽茫o parece n茫o transbordar da esfera dos discursos, das idealidades e das formalidades, 脿 exce莽茫o de a莽玫es na forma de programas e projetos de resist锚ncia tanto na 谩rea cultural como ambiental que, ora refor莽am as tradi莽玫es ora constroem posturas inovadoras que apontam para uma nova pr谩xis da diversidade biocultural. (Barros, 2016, p. 13)

De acordo com a Conven莽茫o da Diversidade Biol贸gica da UNESCO, promulgada em 1992, biodiversidade refere-se 脿

(鈥) variabilidade de organismos vivos de todas as origens, compreendendo, dentre outros, os ecossistemas terrestres, marinhos e outros ecossistemas aqu谩ticos e os complexos ecol贸gicos de que fazem parte; compreendendo ainda a diversidade dentro de esp茅cies, entre esp茅cies e de ecossistemas. (UNESCO,1992, Art.2)

Ou seja, a biodiversidade nos remete a uma realidade em tr锚s dimens玫es: 聽a diversidade biol贸gica no planeta, a variabilidade gen茅tica das esp茅cies e a diversidade de ecossistemas formados por diferentes combina莽玫es de esp茅cies. (Mendon莽a, 2014 p.31)

J谩 o conceito de diversidade cultural 茅 assim apresentado na Conven莽茫o da UNESCO sobre a prote莽茫o e promo莽茫o da Diversidade das Express玫es Culturais:

(鈥) refere-se 脿 multiplicidade de formas pelas quais as culturas dos grupos e sociedades encontram sua express茫o. Tais express玫es s茫o transmitidas entre e dentro dos grupos e sociedades. A diversidade cultural se manifesta n茫o apenas nas variadas formas pelas quais se expressa, se enriquece e se transmite o patrim么nio cultural da humanidade mediante a variedade das express玫es culturais, mas tamb茅m atrav茅s dos diversos modos de cria莽茫o, produ莽茫o, difus茫o, distribui莽茫o e frui莽茫o das express玫es culturais, quaisquer que sejam os meios e tecnologias empregados. (UNESCO, 2005, Art.4)

Como podemos compreender, h谩 uma dimens茫o relacional em ambos os conceitos. Tanto a biodiversidade quanto a diversidade cultural resultam da capacidade de articula莽茫o e integra莽茫o que n茫o se esgotam nas qualidades pr贸prias de cada uma, mas exatamente nas rela莽玫es entre seus componentes. 脡 a articula莽茫o e equil铆brio que define a presen莽a e a pot锚ncia da diversidade tanto no meio ambiente quanto na cultura.

Por diversidade biocultural podemos entender a diversidade da vida em todas as suas manifesta莽玫es biol贸gicas, culturais e lingu铆sticas interrelacionadas em um complexo sistema socioecol贸gico (Maffi; Woodley, 2010) e, neste sentido, uma outra urgente obviedade precisa invadir nossas consci锚ncias e nossas a莽玫es: a rela莽茫o din芒mica e igualmente articulada entre prote莽茫o e promo莽茫o.

Se a biodiversidade tem na prote莽茫o uma a莽茫o estrat茅gica para a sua preserva莽茫o e potencializa莽茫o, sem a promo莽茫o, entendida como constru莽茫o de uma consci锚ncia humana sobre sua import芒ncia, ela estar谩 sempre sob amea莽a. J谩 para a diversidade cultural, a realidade 茅 ainda mais articulada. A a莽茫o conjunta e equilibrada entre prote莽茫o e promo莽茫o 茅 ponto de partida, dado que se caracteriza como um aprendizado socialmente desenvolvido.

Como enfatizado por Mendon莽a (2014), a diversidade biocultural requer a compreens茫o de que a diversidade biol贸gica e a diversidade cultural constituem a express茫o de um todo e 茅 fruto de processos cumulativos, adapta莽玫es e da natureza co-evolutiva do ser humano e seu ambiente de vida. Depende da qualidade das rela莽玫es entre as dimens玫es naturais e culturais, presentes nos saberes e pr谩ticas dos diferentes povos e sociedades.

Neste ano de 2026, as datas 21 e 22 de maio coincidem com dois acontecimentos muito importantes. A realiza莽茫o da 6陋 Teia Nacional na cidade de Aracruz (ES), encontro nacional e internacional que re煤ne organiza莽玫es da sociedade civil, institui莽玫es p煤blicas, movimentos culturais, redes comunit谩rias, povos tradicionais e universidades, para a articula莽茫o, troca de experi锚ncias e fortalecimento da Pol铆tica Nacional Cultura Viva. Nesta edi莽茫o o convite 茅 o de refletir sobre a defesa do meio ambiente e do bem viver diante do cen谩rio de emerg锚ncia clim谩tica. Os mais de 15 mil Pontos de Cultura espalhados por todas as regi玫es do Brasil, possuem um papel estrat茅gico na constru莽茫o de um Brasil justo e sustent谩vel.

O outro acontecimento importante 茅 a assinatura pelo Presidente Lula, do decreto federal que regulamenta a Lei dos Mestres e Mestras das Culturas Populares (PL 1176/2011). A legisla莽茫o garante o reconhecimento, inclus茫o e remunera莽茫o vital铆cia aos guardi玫es de saberes tradicionais, integrando-os aos sistemas de seguridade social, educa莽茫o e direitos autorais

A perspectiva da diversidade biocultural se mostra mais do que coerente, ela 茅 necess谩ria e urgente para se superar a fragmenta莽茫o de nossas a莽玫es coletivas e individuais. Assumi-la implica lutar por pol铆ticas p煤blicas integradas e transversais que possam garantir a prote莽茫o simult芒nea de patrim么nio natural e patrim么nio cultural; o reconhecimento de territ贸rios tradicionais; a valoriza莽茫o de l铆nguas e conhecimentos ancestrais; o incentivo 脿 agroecologia e ao manejo comunit谩rio; as pol铆ticas culturais vinculadas 脿 sustentabilidade; e a participa莽茫o social na governan莽a das pol铆ticas culturais e ambientais.

Assim, as datas de 21 e 22 de maio n茫o representam agendas paralelas, mas complementares. Elas indicam a necessidade de uma mudan莽a de paradigma: desenvolvimento sustent谩vel n茫o depende apenas de crescimento econ么mico ou conserva莽茫o ambiental isolada, mas da preserva莽茫o e promo莽茫o das m煤ltiplas formas de vida 鈥 humanas e n茫o humanas 鈥 e das rela莽玫es constru铆das historicamente entre elas.

Em s铆ntese, o conceito de diversidade biocultural funciona como uma ponte entre cultura, meio ambiente e desenvolvimento. Ele desloca o debate da simples conserva莽茫o de recursos para a defesa das condi莽玫es de continuidade da vida em sua pluralidade ecol贸gica e cultural.

E aqui uma nova e importante proximidade de datas. Se aproxima a realiza莽茫o da 1陋 Confer锚ncia Nacional dos Objetivos de Desenvolvimento Sustent谩vel, com a tem谩tica 鈥淎 Agenda 2030 no Brasil: Fortalecer a Democracia e Defender os Direitos Humanos para a constru莽茫o coletiva de um novo modelo de desenvolvimento sustent谩vel鈥. Entre os dias 30 de junho e 2 de julho, Bras铆lia sediar谩 essa in茅dita confer锚ncia nacional, com o objetivo de debater e eleger propostas priorit谩rias para o aprimoramento do compromisso brasileiro com os ODS.

Refer锚ncias

BARROS, Jos茅 Marcio. Cultura, diversidade e os desafios do desenvolvimento humano. In: Diversidade Cultural: da prote莽茫o 脿 promo莽茫o / Jos茅 M谩rcio Barros (org.); Belo Horizonte,聽 Aut锚ntica Editora, 2008, 15-26.

BARROS, Jos茅 Marcio. Diversidade biocultural na pol铆tica cultural brasileira: uma aproxima莽茫o ao SNC e PNC鈥. In: LOPES, Jos茅 Rog茅rio et alli (Orgs.). Pol铆ticas culturais e ambientais no Brasil: da normatividade 脿s ag锚ncias coletivas, Porto Alegre, Ed. CirKula, 2016.

BARROS, Jos茅 Marcio, Diversidade biocultural: do que estamos falando? Dispon铆vel em https://observatoriodadiversidade.org.br/noticias/06-06-2022/

MAFFI, L. & WOODLEY, E. Biocultural diversity conservation: a global sourcebook. ed. London: Earthscan, IUCN, 2010. Dispon铆vel em http://terralingua.org/

MENDON脟A, Guilherme Cruz de. Diversidade Biocultural, Direito e Cidades: implementa莽茫o do marco jur铆dico sobre diversidade biocultural na cidade do Rio de Janeiro. 245f. Tese (Doutorado em Meio Ambiente) 鈥 Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2014.

UNESCO. Conven莽茫o sobre a Diversidade Biol贸gica. Dispon铆vel em:聽 https://www.cbd.int/

UNESCO. Conven莽茫o sobre a Prote莽茫o e Promo莽茫o das express玫es da diversidade cultural. Dispon铆vel em: http://es.unesco.org/creativity/

 

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