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O desafio de incluir a cultura como direito b谩sico e pol铆tica p煤blica

REPRODU脟脙O: Rede Brasil Atual
Imagem: Pexels

Como praticamente todos os setores, a cultura n茫o escapou de cortes impostos por uma pol铆tica de austeridade implementada pelo atual governo, mas j谩 vinha sofrendo com escassez de recursos. Para um grupo que vem se dedicando a formular propostas no setor, uma mudan莽a s贸 ocorrer谩 com altera莽茫o da “dire莽茫o pol铆tica”, a partir da qual seria poss铆vel “avan莽ar sobre uma agenda de reorganiza莽茫o do financiamento 脿 cultura”. Algumas pol铆ticas melhoraram o acesso da popula莽茫o, avalia o ex-ministro Juca Ferreira, para quem um dos desafios 茅 consolidar a cultura como pol铆tica p煤blico e direito social b谩sico.

Ele participou de evento organizado pelo coletivo Brasil Debate e pela funda莽茫o alem茫 Friedrich Ebert Stiftung (FES), para refletir sobre o tema e apresentar propostas que poder茫o subsidiar o debate eleitoral. Texto do consultor Jo茫o Brant, ex-secret谩rio-executivo do Minist茅rio da Cultura e ex-secret谩rio municipal em S茫o Paulo, fala em “morte lenta” das pol铆ticas federais para o setor, mas aponta sa铆das, desde que haja “uma revers茫o completa da trajet贸ria dos 煤ltimos anos”. Hoje, diz ele, a tend锚ncia 茅 “o minist茅rio desaparecer”.

Isso chegou a acontecer em maio de 2016. Brant recorda que duas horas depois da posse de Michel Temer foi publicada uma medida provis贸ria extinguindo a pasta. Houve rea莽茫o da classe art铆stica, levando o governo a recuar. Mas um levantamento organizado pelo consultor mostra or莽amento em queda livre.

“Considerado desnecess谩rio por Temer, prejudicado pelo teto de gastos p煤blicos e desamparado pela falta de empenho de seu ministro em trabalhar por sua recupera莽茫o, o Minist茅rio padece em morte lenta. Com ele, morre aos poucos tamb茅m parte significativa das pol铆ticas culturais”, escreve Brant. Na pr谩tica, segundo ele, h谩 uma perda entre 70% e 80% na chamada 谩rea final铆stica. “Hoje, o MinC tem R$ 100 milh玫es para executar.” O problema n茫o 茅 novo, mas tornou-se mais agudo 鈥 no texto, o ex-secret谩rio cita a a莽茫o de uma “navalha” em 2015 e de uma “guilhotina” no ano passado.

Ex-secret谩rio de Pol铆ticas Culturais do Minc e autor de livro sobre o assunto, Guilherme Varella cita conceito do ex-ministro Gilberto Gil: fazer pol铆ticas culturais 茅 fazer cultura. Houve um in铆cio de mudan莽a de postura institucional, em um Estado caracterizado pela falta de pol铆ticas p煤blicas, em uma discuss茫o que j谩 n茫o era mais apenas sobre or莽amento, mas sobre diversidade. “Hoje, n茫o existe capacidade operacional.”

Com Gil e Juca, cujas interinidades somam aproximadamente dois anos, o or莽amento passou de R$ 476,1 milh玫es, em 2003, para R$ 1,65 bilh茫o em 2010. “A perspectiva era de criar uma pol铆tica de Estado baseada n茫o apenas em fomento a atividades culturais, mas em processos regulat贸rios e pol铆ticas p煤blicas que contribu铆ssem para o desenvolvimento da cultura em tr锚s dimens玫es: simb贸lica, econ么mica e cidad茫”, escreve Brant. “Estas tr锚s dimens玫es se desdobraram, naqueles oito anos, em a莽玫es concretas.” Ele cita, entre outras iniciativas, a cria莽茫o do programa Cultura Viva, do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) e do PAC Cidades Hist贸ricas.

O consultor lembra que o or莽amento para o Cultura Viva, que j谩 foi superior a R$ 100 milh玫es, passou para R$ 32 milh玫es. E o PAC “respira por aparelhos”. Ao mesmo tempo, h谩 um “crescimento significativo” do FSA, “que sustenta grande parte das pol铆ticas voltadas para este setor”.

Juca Ferreira avalia que as pol铆ticas de austeridades, isoladamente, n茫o explicam a crise na cultura, que n茫o 茅 vista como parte de uma pol铆tica p煤blica. Ele recorda de conversas dif铆ceis com t茅cnicos da Fazenda e do Planejamento, que se queixavam de “barulho” vindo do Minist茅rio da Cultura. As dificuldades aumentam com o predom铆nio do capital financeiro. O ex-ministro v锚 risco de o Brasil se tornar “um parque tem谩tico neoliberal”. Mas a quest茫o vem tamb茅m da pr贸pria sociedade. “S贸 5% v茫o a museus, s贸 13% v茫o a cinema, (se l锚) um 1,7 livro por ano”, observa.

O Brasil cresceu sua produ莽茫o de filmes no p贸s-Lula (“Fazia menos de 10 por ano, hoje faz mais de 150”) e conseguiu zerar as cidades sem biblioteca, mas parte desse avan莽o se perdeu. Mais de 600 bibliotecas fecharam, aponta Juca, para quem o n煤mero pode ser ainda maior. Ele defende que se discuta como a sociedade se relaciona com as pol铆ticas culturais. “N茫o pode haver dicotomia entre acesso 脿 cultura e cultura como mercadoria”, diz Juca. Mas a cultura deve ser um bem universal 鈥 n茫o como hoje, em que o rico tem acesso a tudo, diz, a classe m茅dia tem grande parte e os mais pobres ficam com a TV aberta.

Durante a reuni茫o, foram feitos v谩rios relatos sobre atividades culturais em 谩reas mais distantes nos grandes centros. “As pessoas n茫o v茫o n茫o porque n茫o gostam.”

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1 Coment谩rio para “O desafio de incluir a cultura como direito b谩sico e pol铆tica p煤blica”

  1. Luzineth Faria Alves disse:

    Esse texto 茅 bem esclarecedor, principalmente para quem n茫o tem conhecimento da import芒ncia de ter uma pol铆tica estruturada/sistematizada de cultura, em um pa铆s continental e com tanta diversidade cultural, como 茅 o Brasil. 脡 lament谩vel o que esta acontecendo com a pol铆tica de cultura no Brasil, assistimos o desmonte do pouco, por茅m significativo, do que v铆nhamos construindo, nos governos Lula/Dilma.
    Entendo que as manifesta莽玫es culturais s茫o extremamente vitais para a vida em comunidade, s茫o essas manifesta莽玫es que despertam o significado da vida, da identidade local. Dai a import芒ncia das pol铆ticas culturais, para que essa chegue at茅 as popula莽玫es, carentes, que vivem em localidades mais distantes dos centros, onde normalmente acontecem os eventos culturais. Acredito que para reverter esse quadro lastim谩vel, tem que haver mudan莽a de rumo na pol铆tica, esse modelo que esta posto hoje, s贸 beneficia o capital internacional e uma elite atrasada, patrimonialista, secular, que despreza, ignora, o povo trabalhador que constr贸i esse pa铆s. Diante dessa situa莽茫o, nos resta a esperan莽a, de mudan莽as, de transforma莽茫o, de retomarmos a caminhada e sonhar um outro mundo poss铆vel.

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