Este conte煤do foi originalmente publicado pelo Le Monde Diplomatique Brasil e 茅 reproduzido integralmente pelo Observat贸rio da Diversidade Cultural.
Texto original: Pedro Damazio Franco e Ver么nica Toste Daflon
Fonte: Le Monde Diplomatique Brasil
Publica莽茫o original: 12 de agosto de 2026
Publica莽茫o original As microagress玫es chegam 脿s universidades brasileiras聽聽 – Le Monde Diplomatique
COMO NOVAS ETIQUETAS SOCIAIS E “CREN脟AS DE LUXO” AFETAM DIFERENTES CLASSES SOCIAIS E GERA脟脮ES
As microagress玫es chegam 脿s universidades brasileiras聽聽
Conceito originado na psicologia americana promete gerar mais igualdade racial e de g锚nero, mas pode produzir o resultado oposto
Pedro Damazio Franco e Ver么nica Toste Daflon
Subvalorizar um autor fora do c芒none ocidental. Usar, sem inten莽茫o, uma forma de comunica莽茫o considerada insens铆vel 脿 identidade de uma pessoa trans. Fazer uma pergunta interpretada como invasiva, mesmo sem inten莽茫o maliciosa. Questionar uma experi锚ncia racial. Demonstrar falta de sensibilidade a um grupo minorit谩rio ou tradi莽茫o cultural, mesmo sem querer. Fazer um elogio que, mesmo de forma inconsciente e n茫o intencional, carregue 鈥渕ensagens de 贸dio ou desvaloriza莽茫o鈥.
Desde 2022, essas e outras condutas passaram a ser tipificadas em resolu莽玫es normativas de universidades como a聽UFPel,聽UFSC聽e聽UFMG, e enquadradas como formas de racismo ou transfobia. Aprovadas em Conselhos Universit谩rios e com aplica莽茫o imediata, essas normas jur铆dicas conferem validade legal ao conceito de 鈥渕icroagress茫o鈥 e preveem protocolos de preven莽茫o e puni莽茫o 脿 sua ocorr锚ncia.
As san莽玫es previstas nessas normativas s茫o severas. Para os estudantes, v茫o desde advert锚ncias ou suspens玫es at茅 o desligamento definitivo da universidade. No caso de docentes e t茅cnicos, as microagress玫es podem justificar a abertura de sindic芒ncias e Processos Administrativos Disciplinares (PADs), que, por seu turno, podem culminar em demiss玫es. Soma-se a isso a imposi莽茫o de medidas de reeduca莽茫o, como a participa莽茫o obrigat贸ria em grupos reflexivos ou a matr铆cula compuls贸ria de estudantes em disciplinas de letramento.
Os objetivos s茫o nobres e muitos deles, inclusive, encontram respaldo em diagn贸sticos das ci锚ncias humanas. A sociologia investiga as disputas pol铆ticas e epistemol贸gicas que formam c芒nones e disciplinas e que geram a omiss茫o de autores e autoras fora do circuito euro-americano. Estuda tamb茅m as fronteiras simb贸licas que separam grupos e propagam estere贸tipos, al茅m de investigar as desigualdades dur谩veis que resultam tanto de a莽玫es individuais como de arranjos organizacionais. J谩 a Antropologia se debru莽a sobre o problema do etnocentrismo e das formas de desprezo por outras culturas. A Psicologia, por sua vez, estuda efeitos nocivos de formas sutis e 脿s vezes inconscientes de preconceito.
O problema, portanto, n茫o est谩 nas inten莽玫es, mas no receitu谩rio. Para come莽ar, no Direito, a distin莽茫o entre acidente e dolo 茅 fundamental. Punir algu茅m por uma conduta n茫o intencional 茅 uma quest茫o jur铆dica pantanosa. Por茅m, mais do que isso, o pr贸prio conceito de 鈥渕icroagress茫o鈥 que sustenta essas decis玫es 茅 fortemente contestado dentro do debate especializado. Para quem passou d茅cadas de vida acad锚mica debatendo pol铆ticas p煤blicas, cotas raciais nas universidades e fazendo revis茫o cr铆tica dos c芒nones disciplinares, 茅 surpreendente ver um conceito t茫o fr谩gil tratado como panaceia para as desigualdades. O conhecimento acumulado nas nossas 谩reas, a Sociologia e a Psicologia, n茫o oferece base segura para esperar que essa abordagem produza os efeitos pretendidos. Pelo contr谩rio, a literatura aponta riscos significativos de efeitos contraproducentes. Vejamos por qu锚.
Um conceito em disputa
O vocabul谩rio das microagress玫es 茅 uma importa莽茫o americana. O termo remonta ao psiquiatra Chester Pierce na d茅cada de 1970, mas sua formula莽茫o recente foi popularizada pelo psic贸logo聽Derald Wing Sue聽a partir de 2007. Nos Estados Unidos, o conceito tornou-se o centro de intensas controv茅rsias p煤blicas sobre cultura universit谩ria, com participa莽茫o de autores como聽Jonathan Haidt,聽John McWhorter, e聽Connor Friedersdorf. O conceito tamb茅m enfrenta cr铆ticas severas no debate acad锚mico especializado. Os psic贸logos聽Scott Lilienfeld,聽Edward Cantu e Lee Jussim聽apontam sua falta de embasamento emp铆rico, e os riscos de transform谩-lo em base para pol铆ticas institucionais. Os soci贸logos聽Bradley Campbell e Jason Manning聽tamb茅m alertam que o vocabul谩rio das microagress玫es incentiva mudan莽as comportamentais e institucionais nocivas ao campus universit谩rio. No Brasil, infelizmente, essas cr铆ticas t锚m sido ignoradas.
O problema central est谩 na extrema elasticidade do termo. N茫o h谩 limites claros para o que constitui uma microagress茫o, pois ela abriga sob o mesmo r贸tulo desde insultos hostis at茅 atos amb铆guos ou elogios desajeitados. Intera莽玫es corriqueiras, como elogiar a boa articula莽茫o de um colega, perguntar de onde algu茅m 茅 ou dizer que 鈥渢odos somos iguais鈥 s茫o listadas como exemplos de microagress茫o. Basta afirmar que uma microagress茫o ocorreu, e a afirma莽茫o torna-se verdade. A literatura afirma inclusive que negar que uma microagress茫o aconteceu 茅, em si, uma nova microagress茫o. Ora, isso bloqueia qualquer chance de falseabilidade: se a alega莽茫o n茫o pode ser contestada sem que a pr贸pria defesa se torne uma nova prova de culpa, a acusa莽茫o j谩 茅 condena莽茫o.
Estudos聽mostram que muitos dos comportamentos que a literatura rotula como microagress玫es nem mesmo s茫o considerados ofensivos por amplas maiorias dentro dos grupos supostamente atingidos. Diante desse dado inconveniente, alguns dos defensores do conceito respondem que microagress玫es podem ser identificadas de forma objetiva, independentemente de a pessoa se sentir ofendida ou n茫o.
Por茅m, essa 鈥渙bjetividade鈥 costuma depender da ades茫o a determinadas teorias preestabelecidas sobre poder, identidade e opress茫o 鈥 modelos que, longe de serem consensuais, seguem sob聽intenso debate. Sob essa 贸tica, para explicar o caso de uma pessoa negra que n茫o se ofende quando escuta a palavra 鈥渄enegrir鈥, afirma-se que ela n茫o tem suficiente 鈥渓etramento racial鈥.
Ora, ao ignorar a percep莽茫o de quem supostamente deveria ser protegido, os defensores dessa suposta objetividade acabam tutelando e retirando do indiv铆duo a ag锚ncia sobre suas pr贸prias emo莽玫es. Se o dano psicol贸gico n茫o acontece na pr谩tica, o que se est谩 fazendo, afinal, n茫o 茅 proteger uma v铆tima, mas sim for莽ar a realidade a se encaixar em uma teoria.
Lilienfeld聽aponta tamb茅m as diversas fragilidades metodol贸gicas de estudos que supostamente estabelecem microagress玫es como causa de maior mal-estar psicol贸gico entre popula莽玫es desfavorecidas. Em sua maioria, esses estudos dependem de autorrelatos de fonte 煤nica, um desenho que dificulta a distin莽茫o entre causalidade e correla莽茫o. Afinal, 茅 plaus铆vel imaginar que a causa possa ser o inverso, ou seja, que pessoas com mais afetividade negativa, ansiedade ou sensibilidade 脿 rejei莽茫o tendam mais frequentemente a interpretar intera莽玫es neutras ou amb铆guas como discriminat贸rias. Sem distinguir correla莽茫o de causalidade, as universidades arriscam tratar tra莽os de personalidade ou simples mal-estar psicol贸gico como evid锚ncia de comportamento ofensivo ou presen莽a de estruturas opressivas.
Al茅m disso, h谩 um risco real de aumentar, em vez de reduzir, o pr贸prio mal-estar psicol贸gico que se busca combater. Ao incentivar a interpreta莽茫o de gestos in贸cuos como racismo ou transfobia, o vocabul谩rio das microagress玫es constr贸i um ambiente cultural hostil e repleto de gatilhos negativos.聽Gregg Lukianoff e Jonathan Haidt聽alertam que isso pode ter efeito nocivo no bem-estar psicol贸gico dos indiv铆duos ao gerar uma sensa莽茫o de constante persegui莽茫o.聽Erec Smith聽argumenta tamb茅m que a vigil芒ncia moral associada ao vocabul谩rio das microagress玫es pode enfraquecer a ag锚ncia individual e coletiva de grupos desfavorecidos, al茅m de dificultar a forma莽茫o de v铆nculos interpessoais aut锚nticos.
Na pr谩tica, a institucionaliza莽茫o dessas normas cria um campo interacional minado e praticamente inaveg谩vel. O soci贸logo聽Musa Al-Gharbi聽ilustra o paradoxo com uma situa莽茫o hipot茅tica em sala de aula: se um professor branco n茫o chama um aluno negro para falar, pode ser acusado de exclus茫o. Por茅m, se chama e critica sua resposta, pode ser acusado de discrimina莽茫o. Se elogia, o elogio pode ser lido como paternalismo. No fim, todos os atos poss铆veis podem ser interpretados como microagress茫o.
Quando os custos de errar se tornam altos demais, a tend锚ncia natural 茅 o isolamento. Como alertam聽Frank Dobbin e Alexandra Kalev, um programa de inclus茫o que nos incentiva a interpretar praticamente qualquer intera莽茫o intergrupal como potencialmente ofensiva pode acabar incentivando pessoas de grupos diferentes a evitar umas 脿s outras para se preservarem de riscos. O resultado 茅 menos contato, menos coopera莽茫o e mais segrega莽茫o informal. E todos esses efeitos s茫o contr谩rios 脿 inclus茫o pretendida.
Um recorte de classe e gera莽茫o
Existe, por fim, um componente de classe e geracional que as universidades parecem ignorar.聽Musa Al-Gharbi聽aponta que a hipervigil芒ncia em rela莽茫o a sutilezas da linguagem 茅, muitas vezes, um marcador de status de elites acad锚micas. O dom铆nio desses novos c贸digos funciona como uma forma de distin莽茫o social: quem n茫o teve a oportunidade de frequentar os lugares onde essas etiquetas s茫o forjadas corre um risco muito maior de puni莽茫o.
脡 o que聽Rob Henderson聽tem chamado de 鈥渃ren莽as de luxo鈥: ideias que conferem prest铆gio 脿 elite, mas cujos custos recaem sobre os mais vulner谩veis. Ao tipificar a 鈥渋gnor芒ncia鈥 ou 鈥渙fensa n茫o intencional鈥 como infra莽茫o, as resolu莽玫es universit谩rias colocam sob sua mira n茫o a elite, mas servidores t茅cnicos de gera莽玫es anteriores e estudantes vindos de contextos sociais onde a prioridade 茅 a sobreviv锚ncia material, e n茫o o dom铆nio de etiquetas e c贸digos do politicamente correto. Puni-los por isso 茅, ironicamente, uma forma de elitismo que amplia o abismo entre nossos centros de produ莽茫o de conhecimento e o p煤blico geral.
Conclus茫o
Reconhecemos enfaticamente a necessidade de denunciar e coibir casos inequ铆vocos de racismo e discrimina莽茫o, tais como previstos na legisla莽茫o penal brasileira. Mas confundi-los com atos amb铆guos, impensados ou meramente indelicados apaga distin莽玫es essenciais de natureza, gravidade e proporcionalidade da resposta 鈥 para n茫o falar no risco de banalizar casos de discrimina莽茫o real.
A agenda da inclus茫o 茅 indispens谩vel para a constru莽茫o de uma universidade plural. No entanto, ela precisa ser pautada por evid锚ncias e experi锚ncias institucionais bem-sucedidas, e n茫o por ader锚ncia cega a receitas j谩 amplamente contestadas. Boas inten莽玫es n茫o bastam para gerar boas pol铆ticas p煤blicas. O combate ao preconceito 茅 urgente demais para ser feito com ferramentas que, al茅m de n茫o funcionarem, criam novas barreiras. Ao adotar solu莽玫es de sotaque americano e baixo rigor cient铆fico 鈥 como 茅 o caso do vocabul谩rio das microagress玫es 鈥 as universidades brasileiras correm o risco de produzir 鈥渞em茅dios鈥 que aumentam injusti莽as, aprofundam desigualdades e sacrificam sua miss茫o.
Pedro Damazio Franco聽茅 doutorando em Psicologia Social-Organizacional na Columbia University.
Ver么nica Toste Daflon聽茅 professora Adjunta do Departamento de Sociologia da Universidade Federal Fluminense e pesquisadora da FAPERJ.
Leia a publica莽茫o original aqui As microagress玫es chegam 脿s universidades brasileiras聽聽 – Le Monde Diplomatique
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