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NOT脥CIAS

O ser crian莽a e as culturas da inf芒ncia – entrevista com Isabela Silveira

Na pr贸xima semana, especificamente no dia 12 de outubro, comemora-se o 鈥淒ia das Crian莽as鈥 no Brasil 鈥 uma das principais datas comerciais do calend谩rio brasileiro e que se volta prioritariamente para o consumo.聽聽

No entanto, para refletir sobre a inf芒ncia enquanto categoria social, o Coordenador Geral do ODC, Prof. Dr. Jos茅 Marcio Barros, entrevistou a gestora cultural, int茅rprete-criadora e pesquisadora das inf芒ncias, Isabela Silveira.

Formada em Interpreta莽茫o Teatral e com mestrado em Teatro pela UFBA, Isabela Silveira trabalha h谩 cerca de 20 anos na cena cultural, tendo atuado junto a diferentes grupos art铆sticos locais e nacionais. Foi gestora do Espa莽o Xisto Bahia, de 2012 a 2015, onde se dedicou a a莽玫es de forma莽茫o de p煤blico, com destaque para projetos para o p煤blico infantil. Desde ent茫o, a Cultura Inf芒ncia vem sendo seu foco central de interesse, de modo que, atualmente, desenvolve pesquisa de doutorado sobre o tema no P贸s-Cultura da UFBA. 脡 integrante do Coletivo Gest茫o Cultural e do CRICA – Criar para crian莽as, ambos grupos de pesquisa compostos por pesquisadores da UFBA e UFRB.

Isabela Silveira 茅 doutoranda em Cultura e Sociedade pela UFBa, Mestra em Teatro pela UFBa e formada em Interpreta莽茫o Teatral. 脡 tamb茅m integrante do CRICA – Criar para crian莽as.

Jos茅 M谩rcio Barros (JMB) 鈥 Como definir inf芒ncia e crian莽a?

Isabela Silveira (IS) – Para iniciar esta entrevista eu aciono as palavras de uma menina, Natalia Calder贸n, que no livro A casa das estrelas鹿 nos apresenta sua defini莽茫o do que 茅 crian莽a: 鈥渟茫o humanos, 脿s vezes s茫o maus, 脿s vezes s茫o bons, choram, gritam; brincam, brigam, tomam banho, 脿s vezes n茫o tomam banho, entram na piscina e crescem.鈥

Eu gosto demais dessa defini莽茫o da Natalia porque ela, no auge de seus seis anos, consegue nos informar que a crian莽a 茅 esse sujeito concreto, 脿s vezes bom, 脿s vezes nem tanto, e que est谩 ali vivendo sua inf芒ncia. Nesse ser cabem todas as idiossincrasias que s茫o pr贸prias ao ser humano, reconhecendo que a subjetividade lhe faz um sujeito 煤nico, que precisaria ser olhado e compreendido caso a caso. As crian莽as s茫o diversas entre elas, s茫o 煤nicas, e vivem de formas heterog锚neas suas inf芒ncias.

J谩 a inf芒ncia 茅 uma categoria social, de tipo geracional, 脿 qual esses sujeitos pertencem. A inf芒ncia tem car谩ter homogeneizador para esses sujeitos e ainda se articula com outras categorias sociais, como ra莽a, g锚nero, classe social, etnia, origem etc. A inf芒ncia 茅 uma constru莽茫o hist贸rica que responde 脿s percep莽玫es adultas daquele tempo, contribuindo na conforma莽茫o do status e modos de vida desses sujeitos mais jovens. Afinal, por meio dela s茫o concedidas autoriza莽玫es ou expedidas veda莽玫es para o tr芒nsito e a participa莽茫o na vida coletiva e comunit谩ria, sobretudo porque a Modernidade definiu a inf芒ncia por uma negatividade constituinte. As crian莽as, posto que pertencentes 脿 inf芒ncia, por premissa n茫o votam, n茫o podem ser eleitas, n茫o acessam diretamente o mercado de trabalho, n茫o se casam, n茫o decidem sobre suas pr贸prias vidas. Mas, isso n茫o 茅 sempre est谩vel nem t谩cito, e mesmo o recorte et谩rio de quando termina a inf芒ncia e come莽a a adolesc锚ncia encontra diferen莽as mundo afora. Para a ONU, por exemplo, crian莽a 茅 todo sujeito com menos de 18 anos; isso se d谩 por estrat茅gia pol铆tica para mobiliza莽茫o das agendas dos sujeitos mais jovens, e atesta o aspecto constru铆do dessas defini莽玫es.

No Brasil, crian莽a 茅 todo mundo que ainda n茫o completou 12 anos de idade, e adolescentes s茫o aqueles que t锚m mais de 12 anos, mas ainda n茫o completaram 18 anos. Mas, as discuss玫es recentes sobre maioridade penal ou os n煤meros alarmantes de casamentos abaixo de 14 anos, para citarmos dois exemplos, testemunham como a articula莽茫o entre a homogeneiza莽茫o da categoria inf芒ncia e as especificidades do sujeito crian莽a tem impactos mais ou menos diretos na vida de todos na sociedade.

JMB – Em sua opini茫o, como relacionar a inf芒ncia e a diversidade cultural?

IS – Essa pergunta chega em um momento delicado, porque eu j谩 n茫o sei mais o que eu penso sobre isso (risos). Atualmente, eu tenho d煤vidas sobre como estabelecer essa rela莽茫o, pois durante um bom tempo eu fui partid谩ria do pensamento de Jorge Larrosa e outros autores que pensam a inf芒ncia pela 贸tica da diversidade. Seria ela esse 鈥榦utro鈥 do adulto, mas sendo poss铆vel um giro no eixo para vermos a partir do ponto de vista delas. Mas, recentemente, eu cheguei a Qvortrup, que diz que colocar o geracional no mesmo pacote que demais aspectos, leva a uma perda de for莽a das agendas infantis. Em linhas gerais, ele vai dizer que se acionamos a gera莽茫o t茫o somente como diferen莽a, e n茫o como condi莽茫o constituinte, as crian莽as perdem, e muito, porque elas est茫o apartadas dos espa莽os de poder e decis茫o. Ent茫o, a gente precisaria estar especialmente atento, porque muito facilmente essa diferen莽a se traduz em desigualdade e, no atual contexto de avan莽o de pautas e de um ethos neoliberal, 茅 muito complicado colocar as crian莽as em um centro de discuss茫o porque elas, a priori, n茫o s茫o geradoras de riqueza. Para dizer o m铆nimo.

Quando falamos especificamente de diversidade cultural, 茅 necess谩rio compreender que a inf芒ncia se faz em di谩logo com a adultez e com as demais gera莽玫es. Portanto, a crian莽a produz cultura a partir dos elementos que ela det茅m, e que ela partilha de sentidos comuns com aqueles de sua conviv锚ncia. A quest茫o seria compreender como e porque elas seguem, dentro de seus recortes 茅tnicos, de g锚nero, em suas comunidades enfim, sendo subalternizadas e tratadas como menos aptas a contribu铆rem para o todo. Seria necess谩ria uma nova percep莽茫o sobre os mais jovens, olhando-os como seres humanos que j谩 s茫o potentes e criativos hoje, e n茫o somente como um vir a ser, como o agente que poder谩 ser um dia, habilitado para promover a transforma莽茫o, manuten莽茫o, valoriza莽茫o das caracter铆sticas de seu grupo social a partir de determinada idade. N茫o tem sentido condicionar 脿 adultez a relev芒ncia dos sujeitos sociais, mas 茅 isso que est谩 posto em quase todos os contextos sociais. Ent茫o, articular diversidade com inf芒ncia n茫o gera grandes ganhos para as crian莽as, porque elas seguem confinadas a um olhar que lhes enxerga na virtualidade de uma futura atua莽茫o 鈥 e n茫o na concretude de uma atual contribui莽茫o.聽

Al茅m disso, no palanque pol铆tico, um aspecto que marca as lutas pela diversidade 茅 o esfor莽o de autorrepresenta莽茫o, que levou, por exemplo, que as minorias se articulassem para ocupar espa莽os de representa莽茫o pol铆tica, em casas legislativas, institui莽玫es de toda natureza, nos meios de comunica莽茫o, no meio acad锚mico. Mas isso 茅, constitutivamente, invi谩vel para crian莽as, sobretudo as de menos idade, porque praticamente tudo na sociedade est谩 organizado em torno dos sentidos produzidos pela linguagem. Como as crian莽as ainda n茫o dominam a linguagem, seja ela verbal ou escrita, a autorrepresenta莽茫o se faz especialmente complexa, qui莽谩 imposs铆vel. Ent茫o, elas tendem a ficar prejudicadas nas naturais disputas que pautam o campo democr谩tico.聽

Desse modo, eu tendo a pensar que a gente precisa tratar as crian莽as e as inf芒ncias como parte integrante de um complexo sistema social de co-depend锚ncia, assumindo que elas s茫o responsabilidade coletiva, e instituindo dispositivos de fiscaliza莽茫o em todos os espa莽os de poder e decis茫o para que elas, garantidamente, sejam levadas em conta pelos adultos que decidem por suas pr贸prias vidas e pelas delas. E isso n茫o se daria pela via da diversidade, a meu ver. Mas, admito que tamb茅m n茫o saberia dizer por onde caminhar铆amos. Talvez pautar essa quest茫o um pouco como temos tentado pautar as quest玫es ambientais, acionando os efeitos nocivos comuns como argumento pela necessidade de esfor莽os coletivos para solucionarmos o que tiver pra ser solucionado juntos.

Mas, de fato, eu sigo refletindo sobre como colocar as crian莽as em um lugar de devida import芒ncia na mir铆ade de disputas narrativas que se encontram em curso na atualidade.

JMB 鈥 Em que e como o conceito de culturas das inf芒ncias nos ajuda a inovar na compreens茫o da crian莽a como sujeito social?

IS – Essa pergunta guarda em si uma dimens茫o muito importante para aqueles que se dedicam ao campo dos Estudos da Crian莽a. Isso porque, historicamente, as crian莽as e as inf芒ncias foram pouco tematizadas pelas Ci锚ncias Sociais para al茅m dos seus aspectos de socializa莽茫o, ou seja, para al茅m das estrat茅gias de integra莽茫o e assimila莽茫o das regras e valores sociais dos agrupamentos que partilhavam. Mas elas por elas, as crian莽as como crian莽as e n茫o como algu茅m em tr芒nsito para a vida adulta, 茅 algo bem recente, que se estabeleceu, de fato, a partir 煤ltimo quartel do s茅culo XX. Essa concentra莽茫o nos aspectos de socializa莽茫o gerou, nas palavras de Manuel Sarmento虏, uma hipostasia no campo. Ou seja: as crian莽as meio que desapareceram do discurso social ao mesmo tempo que, em certa medida, desapareceram tamb茅m da cena social. Isso tem a ver com todo processo de privatiza莽茫o da inf芒ncia que come莽ou no s茅culo XIX, quando os adultos decidiram que o melhor lugar para as crian莽as estarem seria na escola e/ou em institui莽玫es de cuidado, como creches, jardins de inf芒ncia, orfanatos (quando estes fossem necess谩rios). Ou ent茫o em casa, sob cuidados familiares. Isso n茫o necessariamente 茅 ruim per si, mas resultou em uma crescente institucionaliza莽茫o da inf芒ncia, e passamos a tematiz谩-la somente na condi莽茫o de aluno, paciente, por sua situa莽茫o de vulnerabilidade social ou suas car锚ncias. Ent茫o, a educa莽茫o, a medicina, a psicologia (e todos seus desdobramentos), a assist锚ncia social e afins se dedicaram a escrutinar a crian莽a, enquanto outras 谩reas meio que deixaram de discutir sobre ela.聽

Por conta disso, ainda precisamos explicar que a crian莽a, posto que n茫o vive em um v谩cuo social, e sim em rela莽茫o com seu meio e com as demais pessoas, influencia seus contextos de vida, os interpreta, os altera, contribui para eles. Portanto, ela 茅 produtora de cultura.聽

A capacidade das crian莽as influenciarem outros sujeitos e seus contextos sociais j谩 foi bem observada por Corsaro (2006, 2009)鲁 ao falar sobre reprodu莽茫o interpretativa e cultura de pares. Basicamente ele afirma, ao conceituar a reprodu莽茫o interpretativa, que as crian莽as est茫o todo o tempo interpretando o mundo, e n茫o apenas recebendo passivamente as orienta莽玫es de seus cuidadores. Elas reproduzem a莽玫es e valores, mas tamb茅m criticam, deslocam sentidos, p玫em de lado coisas que n茫o gostam. E a cultura de pares mostra que crian莽as copiam e aprendem tamb茅m de outras crian莽as, inclusive com menos resist锚ncia a determinadas conven莽玫es estabelecidas por aqueles que se parecem com elas.聽

O fato 茅 que o vetor de for莽a das rela莽玫es intersociais parece estar, sempre e irrefletidamente, saindo do adulto em dire莽茫o 脿 crian莽a, e poucas vezes ele se inverte. Mas, as crian莽as t锚m opini玫es e percep莽玫es sobre o mundo, formas criativas de resolver conflitos, dedicam-se 脿 reflex茫o e compreens茫o de aspectos muito sens铆veis da vida coletiva, e poderiam contribuir, sim, para encontrarmos solu莽玫es para problemas que nos afligem a todos. Em especial, aponto sua facilidade de refazer pactos de sociabilidade quando esses parecem n茫o mais funcionar e sua capacidade de assumirem seus pares como interlocutores v谩lidos; estes s茫o aspectos das culturas da inf芒ncia que mereciam ser assimilados por n贸s adultos. Para os incr茅dulos, sugiro observarem crian莽as brincando em um parquinho ou pracinha com outras crian莽as desconhecidas; a fluidez da brincadeira prov茅m em grande parte de uma capacidade de escuta muito apurada, uma disponibilidade para fazer acordos e pactuar regras para que o jogo funcione. Isso poderia, e muito, nos inspirar a viver melhor coletivamente, para in铆cio de conversa.聽

H谩 autores que v茫o falar que as crian莽as est茫o inseridas, em um s贸 tempo, na cultura infantil e na cultura adulta. Acho que isso faz sentido, sobretudo porque existe uma condi莽茫o de minoridade e subalterniza莽茫o sobre as crian莽as, que bem cedo se percebem em lugar de desvantagem social frente aos mais velhos. Ainda assim, elas seguem resistindo individualmente ou em grupo, colocando suas impress玫es, construindo pontes e produzindo sentidos nas fissuras, em uma posi莽茫o muito determinada a renegociar seus tr芒nsitos e acessos aos espa莽os de decis茫o. Seja pelo pedido, pelo abra莽o, pelo choro, pelo grito, pela birra, pela obedi锚ncia ou insurg锚ncia, o fato 茅 que as crian莽as n茫o desistem de se colocar como integrantes ativos da sociedade. E em um momento em que o individualismo pauta in煤meros aspectos da vida, essa disponibilidade para o coletivo deveria nos despertar maior interesse.聽

JMB 鈥 No Brasil temos pol铆ticas culturais para a crian莽a?

IS – Eu gostaria de dar outra resposta, mais bonita e esperan莽osa, mas n茫o temos n茫o. E poderia dizer que nunca tivemos, nem nos nossos melhores momentos do setor. H谩 um apagamento generalizado das agendas infantis, inclusive no setor cultural, e j谩 escrevi sobre isso abordando o Plano Nacional de Cultura e o Conselho Municipal de Pol铆tica Cultural de Salvador, este 煤ltimo publicado aqui mesmo pelo Observat贸rio da Diversidade Cultural.

Obviamente, h谩 iniciativas voltadas para a produ莽茫o de conte煤do, tanto nas artes do espet谩culo como no audiovisual, mas pol铆ticas para a crian莽a eu afirmo que n茫o existem. Como eu coloquei, a crian莽a n茫o vive em um v谩cuo social, mas, mesmo que houvesse imenso incentivo (que n茫o h谩) para a produ莽茫o de produtos art铆sticos e culturais, ainda assim n茫o resolver铆amos muita coisa. 脡 preciso pensar que a inf芒ncia cruza os 12 anos iniciais da vida de qualquer pessoa, 茅 preciso compreender que sem regularidade de oferta o h谩bito n茫o se estabelece, 茅 preciso pensar que a crian莽a n茫o acessa qualquer conte煤do sozinha, 茅 importante pensar na integra莽茫o aos h谩bitos familiares e de sua comunidade… 茅 muita coisa a se considerar que n茫o tem sido devidamente analisada. Sobretudo porque grande parte das iniciativas que existem s茫o muito pautadas na perspectiva da crian莽a como um 鈥榩煤blico entrante鈥, ou seja, visando estimular o interesse no consumo cultural agora para que sejam adultos consumidores mais 脿 frente. E isso acaba deslocando essas iniciativas dos aspectos do momento presente desses sujeitos, mirando a inf芒ncia em sua dimens茫o homogeneizante, e esquecendo como as crian莽as s茫o m煤ltiplas e plurais, e que s贸 podem viver suas inf芒ncias no aqui e agora.

Outro aspecto que passa ao largo, 茅 o fato de que as crian莽as, por sua depend锚ncia inerente de serem cuidadas por outrem, est茫o muitas vezes presentes em a莽玫es culturais que n茫o lhes t锚m como destinat谩rio primeiro: h谩 m茫es, pais, tias, cuidadores em geral que desejam, ou simplesmente precisam, levar as crian莽as para seus momentos de lazer e frui莽茫o cultural, mas o apagamento simb贸lico das presen莽as infantis faz dessa decis茫o algo muito complexo. Isso se d谩 porque elas n茫o s茫o assimiladas nos espa莽os como frequentadoras em potencial, ent茫o n茫o h谩 estrutura f铆sica nem treinamento de equipes para acolh锚-las, al茅m de muitas vezes gerar desconforto nos demais frequentadores. Acho isso especialmente curioso, porque assume que as crian莽as s茫o sempre seres mal-educados e que, por isso, n茫o deveriam estar ali com aqueles seres adultos, sempre 鈥t茫o bem-educados鈥 (risos). Levanta tamb茅m a quest茫o de que os conte煤dos adultos s茫o considerados por premissa como inadequados para n茫o-adultos 鈥 o que n茫o faz l谩 muito sentido, especialmente porque as crian莽as est茫o inseridas em contextos sociais em que os conte煤dos s茫o cada vez mais abundantes e acess铆veis. Claro que h谩 cria莽玫es que demandam uma media莽茫o por parte de seus cuidadores (e adultos em geral) para que as crian莽as as acessem, mas n茫o se justifica uma veda莽茫o a suas presen莽as como condi莽茫o primeira para veicula莽茫o de tais conte煤dos.

Enfim, a gente teria que avan莽ar muito para estabelecer um bom debate. Mas, o primeiro passo seria aceitarmos que as crian莽as n茫o s茫o cidad茫os de segunda classe, sobre os quais se justificam quaisquer exclus玫es constituintes. Os sujeitos de 0 a 12 anos precisam ser pensados como integrantes da sociedade, com direitos de participa莽茫o, circula莽茫o, opini茫o, questionamento, resist锚ncia inclusive acerca daquilo que n茫o 茅 criado 鈥減ara eles鈥.聽

A aus锚ncia de pol铆ticas culturais para crian莽as tem origem multifatorial, a meu ver, e ainda estamos assentados sobre um ide谩rio de artes para inf芒ncia vistas s贸 por seu aspecto educativo e socializador, ou ent茫o acionando a cultura para reden莽茫o de pessoas em situa莽茫o de vulnerabilidade social. Tudo isso 茅 v谩lido, mas precisamos ir al茅m. A cultura 茅 importante porque ela soma-se a outros campos da vida para nos ajudar a compreender o mundo em que estamos, e tamb茅m porque nos gera alegria, nos estimula esteticamente, nos acolhe, emociona, angustia ou tranquiliza. Portanto, ela n茫o 茅 importante somente porque nos 鈥榚nsina鈥 alguma coisa. Sendo assim, por que deveria ser diferente quando falamos de arte e cultura destinadas a crian莽as, afinal?聽

JMB – O que comemorar no Dia da Crian莽a?

IS – Sei que no contexto t茫o doloroso em que estamos vivendo, a gente sente que talvez n茫o haja muito o que comemorar. Mas, devemos celebrar os avan莽os conquistados desde a Conven莽茫o sobre os Direitos da Crian莽a, de 1989, e o pr贸prio ECA (Estatuto da Crian莽a e do Adolescente), de 1990, porque muitas coisas relativas 脿 prote莽茫o e 脿 provis茫o das crian莽as foram conquistadas. Se por um lado crian莽as seguem sendo a categoria social mais impactada pelas crises econ么micas e mais vitimada pela pobreza, se elas constituem parcela imensa dos deslocados por guerras e conflitos, existe agora a compreens茫o de que isso 茅 fato an么malo, que deve ser resolvido, e que tal situa莽茫o afeta as sociedades transversalmente. A percep莽茫o de que a crian莽a seja um sujeito de direitos avan莽a, e hoje 茅 cada vez menos aceit谩vel a educa莽茫o pela viol锚ncia, a crian莽a que esteja fora da escola ou mesmo que uma crian莽a nas莽a e n茫o tenha um registro, por exemplo. Alguns aspectos de direitos caminharam em dire莽茫o a uma universaliza莽茫o, mesmo que falte muito at茅 se consolidarem.聽

De todo modo, eu sempre acho que podemos celebrar as crian莽as em si, como pessoas que s茫o. Para mim, apaixonada por gente e por coisas de gente, as crian莽as seguem sendo as gentes mais inusitadas, dispon铆veis para o afeto e curiosas que existem. E isso se d谩 porque elas chegaram h谩 menos tempo neste mundo do que n贸s, adultos. Portanto, elas ainda n茫o perderam o 芒nimo de mudar as coisas que a铆 est茫o. As coisas est茫o como est茫o porque sempre estiveram em m茫os adultas, penso eu. Ent茫o, celebrar as presen莽as infantis, seu arrojo e coragem para sonharem outras realidades, talvez seja nosso maior motivo para comemorar.聽

Porque quando eu leio uma crian莽a de 11 anos 鈦绰燿efinir o mundo como 鈥淢aravilhas鈥, eu intuo que elas estejam enxergando caminhos que eu mesma n茫o tenha enxergado. No auge de minha sensibilidade, preciso aceitar que talvez n茫o seja s贸 ingenuidade, mas sabedoria. Desse modo nos convoco a, no Dia das Crian莽as, olharmos e pensarmos sobre elas e, por que n茫o, tamb茅m aprenderemos a dirigir o olhar para essas maravilhas que elas sempre parecem enxergar.


鹿 NARANJO, Javier (org.). Casa das estrelas: o universo pelo olhar das crian莽as. Trad. Carla Branco 鈥 S茫o Paulo: Planeta do Brasil, 2018.虏

虏聽SARMENTO, Manuel Jacinto: 鈥淪ociologia da inf芒ncia: correntes e conflu锚ncias鈥, in: ESTUDOS DA INF脗NCIA 鈥 Educa莽茫o e Pr谩ticas Sociais (p.17 a 39). SARMENTO, Manuel e GOUVEA, Maria Cristina Soares de (orgs.). 2. ed. 鈥 Petr贸polis, RJ: Vozes. 2009. Cole莽茫o Ci锚ncias sociais e educa莽茫o.

聽Corsaro, W.A. (2006). 鈥淲e鈥檙e Friends, Right?鈥: Inside Kid鈥檚 Culture, Confer锚ncia. Finl芒ndia.聽

Corsaro, W.A. (2009). Reprodu莽茫o interpretativa e Cultura de pares. In Muller, F. & Carvalho, A.M.A (orgs.). Teoria e pr谩tica na pesquisa com crian莽as: di谩logos com William Corsaro. S茫o Paulo: Cortez.

鈦绰燚avid Piedrah铆ta, in NARANJO, Javier (org.). Casa das estrelas: o universo pelo olhar das crian莽as. Trad. Carla Branco 鈥 S茫o Paulo: Planeta do Brasil, 2018. p.92

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4 Coment谩rios para “O ser crian莽a e as culturas da inf芒ncia – entrevista com Isabela Silveira”

  1. Patricia Nogueira disse:

    Isabela, que texto rico , bem explicado e atual. Muito obrigada pelo seu compartilhamento.

  2. Oliveira disse:

    Muito relevante o tema. Isabela apresentou algumas quest玫es que nos faz pensar sobre. 脡 verdade que o olhar de uma crian莽a n茫o 茅 como a do adulto e isso foi destacado com paix茫o. Teremos que ter sensibilidade para perceber isso. Valeu Isaaa…. Grande contribui莽茫o.

  3. Clarice disse:

    Maravilhosa entrevista! Importante pensar e refletir sobre a inf芒ncia de uma forma complexa e profunda. Parab茅ns. O 煤nico 茅 ponderar que avan莽os significativos a n铆vel de legisla莽茫o foram empreendidos pela Rede Nacional Primeira Infancia com o Marco Legal pela primeira inf芒ncia sancionado pela nossa presidenta Dilma. Uma grande revolu莽茫o a n铆vel de legisla莽茫o!

  4. Ana Fernanda disse:

    Discutir a inf芒ncia 茅 sempre relevante. Um mundo bom para as crian莽as 茅 um mundo bom para todos. Obrigada pelo seu trabalho, Isabela!

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