COLUNAS

O racismo camuflado nos 鈥渂ons costumes鈥 e as suas consequ锚ncias na sociedade mo莽ambicana – Por Kenia Cuna

Por Kenia Cuna

Apesar de ser um pa铆s composto maioritariamente por pessoas pretas de pele retinta, o racismo tamb茅m est谩 presente nas rela莽玫es sociais em Mo莽ambique. Ele 茅 diferente do caso brasileiro e sul-africano, essencialmente pela forma como o colonialismo foi efetivado e os portugueses se relacionaram com os grupos 茅tnicos nesta parte de 脕frica. Durante o per铆odo colonial, foi instaurado um sistema de poder e governan莽a estratificado, pautado na cor da pele e nas origens dos povos, logo, racista. Os grupos 茅tnicos presentes no territ贸rio eram considerados e denominados ind铆genas, aqueles desprovidos de civilidade, n茫o detentores de direitos, pois n茫o conformavam o conceito de humanidade formulado pelos portugueses.

Entretanto, como o opressor precisa de mecanismos e meios de reprodu莽茫o e manuten莽茫o do seu poder, o Estado Colonial Portugu锚s criou uma outra categoria para enquadrar parte da popula莽茫o em uma camada intermedi谩ria entre eles e aqueles classificados por eles como ind铆genas: os assimilados.

As pessoas assimiladas tinham um status legal e jur铆dico diferenciado das pessoas enquadradas como ind铆genas. Eles tinham acesso a uma fatia de direitos que convinha aos colonos lhes atribuir, bem como exerciam cargos e fun莽玫es nas companhias coloniais e outros setores necess谩rios. Uma pessoa assimilada n茫o tinha o mesmo status de uma pessoa branca e tampouco era vista em p茅 de igualdade. Ela era uma pessoa preta que devia se vestir como as pessoas brancas, falar e escrever corretamente a l铆ngua portuguesa, professar o cristianismo e se abster das cosmopercep莽玫es do seu grupo 茅tnico de origem. Uma pessoa assimilada era uma pessoa preta vista como pass铆vel de adentrar em certos meandros da sociedade colonial, pois ela tinha sido 鈥渄omesticada鈥. N茫o bastava querer se tornar uma pessoa assimilada. Esse era um processo que implicava em testes, exames e entrevistas, onde deveria ser comprovado o quanto se havia assimilado os 鈥渂ons costumes鈥 das pessoas brancas.

Ao longo do tempo, a miscigena莽茫o inseriu nessa estrutura outras categorias raciais n茫o oficiais, com destaque para as pessoas classificadas como mulatas, canecas e mistas. As pessoas classificadas como mulatas eram aquelas nascidas de pessoas pretas e brancas. Aquelas consideradas canecas eram nascidas de pessoas brancas e indianas. O termo misto era, e ainda 茅, utilizado para designar pessoas que n茫o s茫o consideradas brancas e nem pretas.

A miscigena莽茫o em Mo莽ambique n茫o foi extensiva como no Brasil, e os seus contornos em termos de identifica莽茫o e diferencia莽茫o tamb茅m s茫o diferentes. Dentre as categorias raciais aqui citadas, as pessoas classificadas como mulatas eram aquelas que tamb茅m gozavam de alguns benef铆cios dentro da sociedade colonial, podiam desempenhar alguns cargos e fun莽玫es, n茫o eram vistas como ind铆genas, mas tamb茅m n茫o eram vistas como brancas.

Essas categorias (oficiais e n茫o oficiais) tinham implica莽玫es relacionais, pol铆ticas e marcaram clivagens, as quais ainda reverberam nos dias atuais. Os privil茅gios durante esse per铆odo e o posicionamento de maior parte das pessoas assimiladas e aquelas classificadas como mulatas, durante a guerra pela independ锚ncia, deixaram suas marcas nas rela莽玫es sociais no Mo莽ambique p贸s-independ锚ncia. As rela莽玫es entre pessoas pretas e aquelas classificadas como mulatas s茫o, por vezes, conflituosas, e estas 煤ltimas s茫o vistas por parte da sociedade como n茫o confi谩veis, oportunistas e sem bandeira.

Um aspeto importante de mencionar 茅 que o termo negro, como categoria de identifica莽茫o e pertencimento, como elemento unificador face ao grupo opressor, estrategicamente cunhado utilizado como posicionamento de resist锚ncia, 聽para fins de garantia de direitos, n茫o 茅 usual em Mo莽ambique. Em todos esses anos, nunca ouvi uma pessoa preta dizer o termo negro e nem tampouco uma pessoa mulata utilizar esse termo para se situar racialmente.

Diferente do caso brasileiro e sul-africano, as pessoas brancas em Mo莽ambique, p贸s-independ锚ncia, n茫o ocuparam os lugares de poder, pois a independ锚ncia adveio de uma luta armada, onde os portugueses n茫o aliados e que n茫o quiseram aceitar a vit贸ria do movimento de liberta莽茫o foram convidados a se retirarem do pa铆s. Assim, a elite mo莽ambicana 茅 conformada maioritariamente por pessoas pretas, sobretudo ao que se refere aos cargos pol铆ticos e de tomada de decis茫o, fato que impacta diretamente nas rela莽玫es raciais e nas manifesta莽玫es do racismo.

O fato 茅 que as estratifica莽玫es sociais persistem, e em alguns meandros elas s茫o marcadas por diferencia莽玫es raciais. O racismo est谩 presente na sociedade mo莽ambicana, sendo reproduzido nos 芒mbitos relacional e institucional.

Gostaria de enfatizar uma de suas facetas, sobretudo no 芒mbito institucional. A independ锚ncia e a transforma莽茫o de Mo莽ambique em um Estado soberano n茫o implicaram em independ锚ncia epist茅mica e de ruturas das ideias racistas ligadas 脿 civilidade. No af茫 de se constituir uma identidade nacional em detrimento das diferencia莽玫es 茅tnicas, a fim de manter a unidade nacional, a elite mo莽ambicana manteve muitos aspetos dos 鈥渂ons costumes鈥 das pessoas brancas como um padr茫o a ser seguido. Ressalto aqui o uso do portugu锚s como l铆ngua oficial, a vestimenta altamente formal e a est茅tica que se manifesta de forma avassaladora nos cabelos dos homens e das mulheres. Para ser considerado civilizado, hoje, uma pessoa s茅ria (express茫o local), as pessoas devem usar trajes formais e estarem pr贸ximas da est茅tica do colonizador. Nas diferentes institui莽玫es p煤blicas e em muitas privadas, homens devem ter o cabelo raspado, usarem terno e gravata ou alguma vestimenta muito pr贸xima disso. As mulheres devem amansar ou aprisionar as suas carapinhas[1] em cabelos artificiais, trajarem roupas formais e usarem salto alto.

Nesse sentido, ainda 茅 necess谩rio pensar e discutir como a est茅tica foi e ainda 茅 um artif铆cio de subjuga莽茫o, que imp玫e e ratifica uma inferioridade atribu铆da. As narrativas sobre os corpos e as classifica莽玫es das diferentes est茅ticas das pessoas negras foram e ainda s茫o utilizadas como forma de reprimir, desacreditar e criar um sentimento de inferioridade. N茫o 茅 por acaso que muitas express玫es racistas est茫o ligadas n茫o somente ao tom de pele das pessoas negras, mas a partes dos seus corpos, como os l谩bios, nariz, cabelos e suas texturas. Express玫es carregadas de negatividade e que visam aproximar a apar锚ncia de 聽pessoas negras a de animais.

Indubitavelmente, esse processo come莽a na inf芒ncia, fase em que h谩 uma interioriza莽茫o de aspetos que s茫o fundamentais para o nosso desenvolvimento pleno. Educar crian莽as negras para exercerem a sua maestria, que tenham orgulho de si, que vejam beleza em sua est茅tica e tenham autonomia e liberdade para escolherem o que querem se tornar e performar seus valores e anseios em suas imagens 茅 sempre desafiador em qualquer lugar do mundo, sobretudo em pa铆ses que sofreram com o colonialismo, como 茅 o caso do Brasil e de Mo莽ambique.

Infelizmente, as institui莽玫es de ensino em Mo莽ambique, em sua maioria, n茫o romperam com esses padr玫es de reprodu莽茫o do racismo. Na maior parte das escolas do pa铆s, 茅 impens谩vel que os meninos de cabelos crespos escolham deix谩-los crescer, experimentar cortes, usem dreads e tran莽as, pois essa est茅tica 茅 classificada como ofensiva aos 鈥渂ons costumes鈥. Com as meninas n茫o 茅 muito diferente. Apesar de as

tran莽as serem amplamente difundidas, a maior parte delas n茫o 茅 ensinada a ver beleza em seus cabelos crespos, experimentar texturas, penteados, e os cabelos artificiais n茫o s茫o colocados como mais uma op莽茫o, mas sim como o bom padr茫o a ser seguido.

Como m茫e de duas crian莽as negras, Yohan, 12 anos de idade e pele clara; Kianga, 11 anos de idade e pele retinta, sempre me preocupei como eles se situariam racialmente e como aprenderiam a se enxergar em meio 脿s suas origens e diferencia莽玫es. Yohan nunca teve a cabe莽a raspada 脿 m谩quina zero. Ele foi um beb茅 black power, algo muito questionado. Era muito comum, at茅 os seus 9 anos de idade, fase em que ele tinha um black power bem grande, as pessoas dizerem que ele era menina, a lhe julgarem pelo tamanho do seu cabelo.

Fiz quest茫o de cultivar na Kianga, em meio a todas as for莽as contr谩rias, a ideia de que as tran莽as eram apenas mais uma op莽茫o para ela. Desde beb茅, ela foi acostumada a ter seu black solto, volumoso e com diferentes penteados, algo que foi questionado em sua escola algumas vezes, ainda quando estava na fase da primeira inf芒ncia.

Apesar de a categoria negro n茫o ser usual em Mo莽ambique, ela foi utilizada na educa莽茫o de ambos, pois nunca quis corroborar com os termos pejorativos que a classifica莽茫o de mulato possui neste contexto e prezei para que n茫o houvesse sentimentos de inferioridade ou superioridade entre eles devido 脿s tonalidades de suas peles.

Eles estudam na mesma rede escolar desde o maternal, e que no ano passado sofreu algumas mudan莽as e cis玫es no sistema societ谩rio. 脡 uma escola da rede privada, que valoriza a diversidade em alguns aspetos, mas que ainda precisa romper com facetas veladas do racismo. Eu e o pai deles tivemos algum trabalho para poder manter essa referencialidade, com conversas 脿 dire莽茫o da escola, a explicar por que o Yohan n茫o cortaria o cabelo ou por que a Kianga n茫o iria com o cabelo escovado e preso. Nesse ano, a press茫o da escola em rela莽茫o ao cabelo est谩 mais acirrada, a ponto de as crian莽as estarem a debater essas imposi莽玫es. Elas chegam da escola indignadas com a exig锚ncia, classificando e fundamentando como as restri莽玫es s茫o racistas. Yohan e Kianga encerrar茫o a sua perman锚ncia nesta institui莽茫o de ensino neste ano. 脡 uma pena que esse fechamento n茫o seja acompanhado apenas das boas mem贸rias que eles t锚m, de seus amigos e de professores queridos. Em meio a essas fric莽玫es, fica a certeza de que eles sabem quem s茫o e escolhem honrar a si pr贸prios.

[1] Termo utilizado localmente para denominar o cabelo crespo.

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1 Coment谩rio para “O racismo camuflado nos 鈥渂ons costumes鈥 e as suas consequ锚ncias na sociedade mo莽ambicana – Por Kenia Cuna”

  1. Leandro disse:

    Texto muito bem fundamentado e corajoso. H谩 uma luta forte contra o voz colonizadora, que fala menos na figura hist贸rica do europeu, mas se manifesta por meio de certos ‘costumes’.

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