Bruno Vieira 茅 jornalista, mestre em Psicologia pela UFMG e doutorando em Psicologia pela UFPE. Desde 2009 envolve-se em quest玫es relacionadas a Direitos Humanos, Comunica莽茫o Popular, Educomunica莽茫o e Cultura e, recentemente, Rela莽玫es 脡tnico-Raciais e Epistemic铆dio. Publicou em 2019 o livro “Ativismo Juvenil e Pol铆ticas P煤blicas. 脡 associado da Associa莽茫o Brasileira de Pesquisadores/as Negros/as (ABPN).
O movimento antifascista surge como uma resposta ao nazismo europeu, em ascens茫o nos anos 1930. O movimento antirracista 茅 uma resposta 脿 opress茫o das pessoas negras que foram sequestradas e escravizadas no Brasil e pelo mundo. Poder铆amos dizer que s茫o lutas que se aproximam, porque o que ambos os movimentos t锚m de convergente s茫o o fato de serem lutas anti-opress玫es – antirracismo contra o racismo manifestado de maneira estrutural e estruturante na sociedade e antifascismo contra o fascismo que segrega pessoas diferentes do que se considera “aceit谩vel”.
O antirracismo 茅 uma das bases mais fundamentais do antifascismo – veja que no caso europeu, a Alemanha Nazista praticou segrega莽茫o n茫o somente contra os judeus, mas contra ciganos, homossexuais, pessoas negras e toda e qualquer comunidade que destoasse dos ideais arianos. Isso tamb茅m 茅 uma pr谩tica racista, na qual voc锚 objetifica, segrega e considera o outro inferior, subalterno. A racializa莽茫o 茅 um processo pelo qual voc锚 classifica os sujeitos de acordo com fatores tidos como cient铆ficos para justificar a pretensa superioridade daquele que racializa. E em se tratando de racializa莽茫o, a popula莽茫o negra 茅 quem mais se exp玫e a esse processo – a escraviza莽茫o, pilar do capitalismo moderno e contempor芒neo, 茅 o principal exemplo disso.
A popula莽茫o negra, pensando no recorte brasileiro, foi desde sempre v铆tima de uma subalterniza莽茫o que lhe apaga suas refer锚ncias sociais, culturais, hist贸ricas e pol铆ticas, dos seus modos e jeitos de viver.聽Procede-se desde o s茅culo 16 um genoc铆dio dessa popula莽茫o, uma pr谩tica de submiss茫o dessa popula莽茫o a modos de ser, viver e criar muito distintos do que sempre foram para essas pessoas. O fascismo 茅 um bra莽o, uma das for莽as opressoras que nos atinge enquanto popula莽茫o negra (atinge outras popula莽玫es, mas n茫o deixa de recair sobre n贸s, negros).聽Ele tamb茅m 茅 um sistema, um projeto de domina莽茫o, que dialoga com o projeto opressor da colonialidade do poder.
脡 necess谩rio, dessa forma, entender o antifascismo como amplia莽茫o e reverbera莽茫o da luta antirracista. Percebo certo divisionismo nas lutas, como se fossem distintas, e isso n茫o deve acontecer. A interse莽茫o entre lutas 茅, neste momento, muito mais importante do que uma defesa purista de movimentos ou de bandeiras. Quem for contra o fascismo imperante no pa铆s, legitimado com as elei莽玫es de 2018, necessita obrigatoriamente vestir a camisa do antirracismo.
O movimento social popular 茅 uma das mais importantes bases para a transforma莽茫o positiva da sociedade. 脡 o movimento popular que denuncia a viol锚ncia do Estado, que exige desse mesmo Estado as repara莽玫es pelos seus atos (ativos ou omissos) e que luta para que haja uma melhora positiva na vida das pessoas, de forma que elas possam minimamente existir. O movimento social popular n茫o tem necessariamente uma diretriz 煤nica, mas sua atua莽茫o converge na constru莽茫o de uma sociedade mais justa, equ芒nime e que respeite as diferen莽as, as diversidades entre pessoas e grupos. 脡 o movimento social quem vai buscar as bases para lutar contra as intoler芒ncias, contra o desrespeito 脿s liberdades coletivas, individuais e subjetivas e enfrentar as adversidades colocadas pelo processo de subalterniza莽茫o das pessoas tidas como n茫o desejadas socialmente.
O movimento social negro remonta 脿s lutas e guerrilhas ocorridas no s茅culo 19 (como a Revolta dos Mal锚s), passa por certa institucionaliza莽茫o (como foi a Frente Negra Brasileira, nos anos 1930) e chega aos dias de hoje (passando pelo Movimento Negro Unificado, criado nos anos 1970) com realiza莽玫es difusas, formas diferentes de a莽茫o e de combate. Esse 茅 um grande valor do movimento social: a possibilidade de se capilarizar em diversas frentes, n茫o atuando de maneira 煤nica. Em se tratando de uma luta contra as estruturas de poder que mant锚m uma l贸gica colonial genocida, contra a institucionaliza莽茫o da necropol铆tica que incide sobre as pessoas negras, a favor de espa莽os de sociabilidade e subjetividade para que a popula莽茫o negra se reconhe莽a como tal, o movimento social atua de forma deveras importante na utopia por uma sociedade mais equ芒nime.
Face ao racismo estrutural e estruturante que nos assola, o movimento social (movimento negro, de vilas e favelas, dos sem-terra, dos sem teto, agroecol贸gico, de Direitos聽Humanos, cultural etc.) contribui de maneira n茫o s贸 a visibilizar essas quest玫es negativas, mas de tamb茅m criar sa铆das positivas, criativas, que criam possibilidades micro em contextos de opress茫o macro. E quando falo movimento social n茫o estou me referindo a apenas os grupos j谩 formalizados. O leg铆timo conceito de cidadania est谩 eivado de valores como respeito m煤tuo e enfrentamento 脿s desigualdades, e para isso o movimento popular permite que construamos pontes.
O isolamento social 茅 a forma recomendada para que se evite um espraiamento maior da Covid-19, e 茅 o que a Organiza莽茫o Mundial da Sa煤de (a despeito dos negacionistas, inclusive do Pal谩cio do Planalto) tem recomendado. O que acontece 茅 que estamos numa encruzilhada. Estamos diante uma situa莽茫o-limite na qual n茫o 茅 poss铆vel mais sustentar que apenas fiquemos em casa. Como 茅 poss铆vel permanecer inerte diante da estapaf煤rdia e absurda ocorr锚ncia do assassinato de Miguel Ot谩vio de Santana em Recife? Como se calar diante do exterm铆nio de Jo茫o Pedro Matos Pinto no Rio de Janeiro? Como se contentar em ficar em casa quando se tem um sujeito que preside a rep煤blica destruindo o pa铆s por dentro? Como se furtar a protestar contra a continuidade do genoc铆dio da popula莽茫o negra e da necropol铆tica projetada a essa popula莽茫o e a outros grupos sociais marginalizados? Respondam-me aqueles que se dizem partid谩rios da democracia, do bem-estar social, do bem-viver, se 茅 poss铆vel ficar calado, quieto e inerte diante isso tudo.
Entendo o posicionamento das pessoas que dizem que n茫o devemos ir 脿s ruas. Elas n茫o est茫o erradas. Elas externalizam a preocupa莽茫o vigente com a contamina莽茫o e o espalhamento do Coronav铆rus. Elas est茫o preocupadas tamb茅m com a poss铆vel contrarrea莽茫o que as for莽as ditas de seguran莽a poder茫o imprimir em tais manifesta莽玫es (porque essas for莽as ditas de seguran莽a t锚m lado; 茅 muito emblem谩tico ver as cenas de um policial militar de S茫o Paulo recolher educadamente uma senhora que protestava do lado fascista-bolsonarista da Av. Paulista de maneira educada e gentil, mesmo ela portando um bast茫o de beisebol – arma branca naquele contexto).聽Se pensarmos que estamos numa encruzilhada, n茫o no sentido da d煤vida da escolha, mas dizendo das diversas possibilidades de caminhada, tanto ficar em casa quanto ir 脿s ruas 茅 leg铆timo. 脡 poss铆vel se manifestar de casa, pelas m铆dias sociais, mas 茅 important铆ssimo (para quem n茫o 茅 de grupo de risco) ocupar, resistir e confrontar a agenda fascista nas ruas.
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CHAMADA PARA PUBLICA脟脙O – Boletim 103, n潞 01/2025 Os 20 anos da Conven莽茫o sobre a Prote莽茫o e Promo莽茫o da Diversidade das Express玫es Culturais Per铆odo para submiss茫o: 21 de maio a 08 de setembro de 2025 Este ano a Conven莽茫o sobre a Prote莽茫o e Promo莽茫o da Diversidade das Express玫es Culturais promulgada pelos pa铆ses membros da […]
O Observat贸rio da Diversidade Cultural, por meio da Lei Municipal de Incentivo 脿 Cultura de Belo Horizonte, patroc铆nio do Instituto Unimed, realiza o ciclo de forma莽茫o GEST脙O CULTURAL PARA LIDERAN脟AS COMUNIT脕RIAS. Per铆odo de realiza莽茫o: 10, 17 e 24 de outubro de 2024 Hor谩rio: Encontros online 脿s quintas-feiras, de 19 脿s 21h00 Carga hor谩ria total: 6 […]
Entrevista maravilhosa. Estamos diante de um super desafio e para mim 茅 fundamental entender quais caminhos nos trouxeram at茅 aqui.
Estamos em uma crise simb贸lica, igreja fazendo arminha, professores defendendo a ditadura, inclusive o que Bruno tr谩s muito bem
Entrevista maravilhosa. Estamos diante de um super desafio e para mim 茅 fundamental entender quais caminhos nos trouxeram at茅 aqui.
Estamos em uma crise simb贸lica, igreja fazendo arminha, professores defendendo a ditadura, inclusive o que Bruno tr谩s muito bem sobre o resgates de teorias cient铆fica racistas.
Tanta balela, excesso de bl谩bl谩bl谩 para acusar o governo Bolsonaro. Por mais que tente inventar uma roupagem universalista, o que transparece 茅 a not贸ria face comunista do entrevistado. Esconde-se atr谩s da luta antirracista para tentar derrubar uma posi莽茫o pol铆tica, posi莽茫o esta conquistada legalmente atrav茅s de 57 milh玫es de votos! 脡 uma l谩stima que uma mente inegavelmente brilhante entregue-se a uma causa perdida, al茅m de cruel pelo que a Hist贸ria demonstrou e tem demonstrado.